segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Nas areias Curumins

Era noite de revellión e como sempre, Armindo ziguezagueava pela areia fria de Curumim. Mais uma vez ele estava embriagado, e carregava a garrafa de champanha, autora de sua alteração, firme junto à mão direita. Há 15 anos era assim, toda virada de ano, Armindo passava ali, na beira da praia de Curumim, em busca de menina loira que há tanto tempo tomara-lhe o coração em uma simples tragada e jogara-o fora, sobrando pouco mais que cinzas do pobre Armindo. Desde então, é tarefa de honra, encontrá-la mais uma vez, nem que seja para que tenham mais uma noite de amor praiano, e possam rolar por mais algum momentos naquela areia gelada, lembrando dos prazeres de outrora.
Ao longe, uma luz bruxuleante move-se com graça, mostrando haver vida inteligente, ou ao menos vida humana naquela faixa de areia, Armindo não está só. Seria ela? Seria a Cibele, aquela moça loura que lhe roubou o coração dando-lhe em troca prazeres carnais inimagináveis? Armindo daria todo seu dedo mindinho da mão direita, desde que pudesse segurar a garrafa de champanha com os outros quatro, para que fosse. Queria do fundo do seu coração encontrá-la lá, e esperava que aquela luz a trouxesse consigo, nua e devastadora.
- Aproxima-te luz! Vem a mim e mostra-te por completo. Se és minha amada então que corra até meus braços e neles permaneça ainda que por um breve instante, pois tenho certeza que em minha memória esse instante terá a duração de uma vida. - sim, o Armindo quando bebia virava um poeta tão distante daquele simples vendedor de carros usados que ele era durante o ano.
A luz aproximou-se, cada vez mais depressa e cresceu. Virou um farol, depois dois, e depois cinco caras montados em uma camionete, e mais duas meninas loiras, mas nenhuma delas lembrava sequer nas madeixas capilares a deslumbrante loira que Armindo possuíra a poucos metros dali há tantos anos.
Passaram por Armindo e riram dele. Riram da desgraça do pobre infeliz, ali do alto da luxúria em que estavam. Quase todos nus, no topo daquela Hilux, achincalharam o miserável Armindo que nada mais queria do que ter de novo Cibele em seus braços. Atiraram cerveja nele, que tal qual um cachorro assustado fugiu para o mar, pronto para dar aquele que seria o último mergulho de sua vida. Correu como um louco corre ao encontro do fim. Como corre aquele que não mais espera da vida o que ela de fato poderia lhe dar. Correu rumando encontrar um desafogo para dor que lhe assolava o peito. E foi.
-Armindo! Não esperei que te veria após tantos anos – gritou uma voz errante, que vinha das profundezas do mar Curumim.
-Cibele, és tu, princesa de minha existência? Dona deste pobre e desgraçado coração?
- Sim, sou eu Armindo, ó poeta do mercado automotor. Ó amante da doce luxúria. Ó tesão de homem com o qual sonhei por todo o sempre.
- Por onde andaste, minha querida, que por toda essa Curumim tenho te procurado desde quando a possuí bem aqui, na beira desta praia?
- Meu querido desgraçado. Comeste-me em Arroio Teixeira, e foi lá que o procurei durante todos esses anos.
E foi ali na areia de Curumim que Armindo possuiu Cibele pela segunda vez. Ou teria sido em Arroio Teixeira? Ah, sei lá. as duas praias são a mesma coisa, e a champanha sempre me exerceu um efeito assustador.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Que vença o melhor


Leio agora, e já estou no segundo livro da série, a saga de Júlio
César. Esse mesmo que tu está pensando, o Júlio César, de Roma,
o Imperador. O livro, cujo nome, que por sinal faz sentido, é “O
Imperador”, e relata a vida de Júlio César e seu “grande
amigo”, Brutus, desde que ambos ainda eram pequenos seres que já
almejam um futuro brilhante nas famosas legiões romanas. O livro é
vivaz. E mais que vivaz, é eloquente, é um livro deveras
encantador, recomendado por um dos grandes mestres atuais da
literatura histórica, Bernard Cornwell, e escrito por outro grande
talento, chamado Conn Igulden.
Quando peguei o livro na mão – o primeiro da série, com o
subtítulo “Os Portões de Roma” - esperava um livro com batalhas
sangrentas, sendo desenhadas por estratégias estarrecedoras,
precedentes à essas mesmas batalhas. Enganei-me. Conheci um livro
muito mais mágico do que isso, um livro que não é apenas um relato
de guerra, é sim, um relato de vida. A vida de um homem vitorioso. É
bem verdade que ainda estou no segundo livro da série que vai até o
quinto livro, ou seja, me faltam mais de três livros ainda, mas
todos sabemos que Júlio César foi um vencedor.
Dentro do livro, como de costume, não é apenas a história
principal que me chama atenção, e sim, algumas abstrações dela.
Alguns pormenores, que a olhos desacostumados poderiam passar por
despercebidos. Esse pormenor, chama-se política, ou ainda, chama-se
corrupção política. Sim!, senhoras e senhores, a corrupção
política já estava incrustada no âmago dos seres humanos viventes
naquela ocasião. Seres humanos esses, claro, poderosos, os
senadores, como eram chamados naquela época, e seguem sendo chamados
até hoje. Eram esses que acumulavam o poder em suas mãos, e em
alguns momentos eram coordenados, por aqueles que tinham um círculo
de “amigos” maior do que o outro. Era simples, aquele que
tivesse mais senadores ao seu lado, e comandasse uma legião mais
numerosa e mais poderosa, concentraria boa parte do poder da nação.
Foi assim com Mário, e foi assim com Sila, dois grandes generais
que comandaram Roma por algum tempo, e o livro fala de ambos. Mário
com carinho, Sila com um desprezo respeitoso.
Lendo esse livro, pego-me pensando como aquela italianada, sentada
com suas túnicas alvas, rodeada por paredes de metros e metros de
comprimento, com os tetos sustentados por grande pilares
arredondados, em uma sala redonda, em formato de funil, decidia o
futuro de todas as coisas de Roma. O futuro da nação mais poderosa
daqueles tempos. E ali, naquele Senado, havia corruptos.
A troca de favores, por exemplo, estava ali, impregnada nas entranhas
do Senado. Lá pelas tantas o livro conta, como três senadores
diferentes puseram um dos personagens no poder, graças a favores
devidos a uma terceira pessoa. Além disso, quanto mais dinheiro se
tinha naquela época, mais poder se tinha também, ou seja, senadores
milionários, detinham boa parte do poder. Sendo assim, quanto mais
dinheiro se tinha, mais fácil era de conseguir os seus objetivos. O
poder era concentrado nas mãos de quem tinha dinheiro, tal qual
acontece hoje em dia. O poder não está com quem luta melhor, ou com
quem tem as melhores ideias, o poder está com quem tem dinheiro para
comprá-lo, e por sucessão, comprar outras pessoas. Pagar a elas
para que comunguem com suas ideias. A fortuna é a maior fonte de
poder desde a Roma antiga, até a Brasília atual.
É por isso, exatamente por isso, que eu defendo um Campeonato
Brasileiro com mata-mata, pois nessa fórmula de pontos corridos, os
privilegiados são os times que tem maior poder econômico, e que
mantém um plantel suficientemente grande para suprir as lesões de
seus principais atletas, ou daqueles que tem dinheiro para ter em seu
elenco grandes fenômenos do futebol mundial.
Esqueceu-se do romantismo. Esqueceu-se daquele jogo onde vencia o
melhor, onde um pequeno time, como Figueirense, Atlético Paranaense,
ou ainda grandes times sem tanto investimento assim, como Grêmio e
Internacional, pudiam vencer. Não vence mais aquele tem mais força,
ou mais talento.
Faço votos para que um novo Júlio César, dessa vez à frente da
CBF, ou do Clube dos 13, apareça e mostre que a vitória vai muito
além do dinheiro, ela deve passar pelo talento, pela inteligência,
e claro, desmentir a ideia de que o dinheiro pode comprar tudo,
inclusive um título do Campeonato Brasileiro.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Alô! Tem alguém ai?

Há déficit de atenção no mundo todo e em todo mundo.

Meu blog já foi, noutros tempos, habitado por alguns leitores que não me
deixavam na mão em todos os textos que aqui eram postados, e
comentavam, debatiam, xingavam ou sorriam...nada mais é. Foi
esquecido e está obsoleto nessa variável tão sacripantas e
safardana chamada tempo. Texto são ideias compartilhadas, e se não
são lidos, de nada adiantam.

Visto por esse lado, lanço aqui um desafio. Enquanto não houver ao menos
cinco comentários aqui, não voltarei a escrever. Assim será ao
longo de dois meses inteiros. Sem comentários, sem textos, e
entenderei desta forma, das duas, uma coisa: ou de fato o que tenho a
dizer não interessa a mais ninguém além de mim, e aí nem vale a
pena colocar para fora em forma de texto, ou ainda há pessoas nesse
mundo online que dão atenção ao que eu falo, e isso me fará uma
pessoa extremamente feliz, por que em um mundo com déficit de
atenção, conseguir fazer alguém prestar atenção no que tu diz, é
algo louvável, companheiro.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Tele-entrega



Sempre há uma mulher. Inegavelmente, sempre há uma mulher. Qualquer história contada, e que, por ventura, se preze, deve no mínimo conter seis pares: um de peitos, um de coxas e outro de nádegas. Na grande maioria das vezes, a mulher envolvida na história é exuberante, e nessa história não será diferente, há uma mulher. Digo mais, há uma bela mulher, e que como toda bela mulher, será responsável pela derrota de um ou outro portador de bagos. É assim, mulheres podem nos levar ao sucesso e ao fracasso em um simples rebolar. (autor desconhecido)

- Capítulo primeiro -
Os primeiros passos de um negócio arriscado


- Um puteiro! Essa é a ideia. Há tantas e tantas belas mulheres dispostas a ganhar quinhentinhos em tão pouco tempo. Uma hora, uma dança, uma transa. Não mais do que isso. Quinhentos pra ela, dez por centro pra nós. O que acham? - começou o Preto, logo após molhar suavemente os lábios no copo com dois dedos de uísque e uma só pedra de gelo.
- Arriscado – sibilou o Freitas logo de cara – me parece muito arriscado. O que falarão de nós? Que somos putanheiros, e que temos nosso sustento no sexo.
- É provável que digam, muito embora, todos os homens e um punhado de mulheres sejam sempre guiados pelo sexo, seremos taxados dessa forma – avaliou sobriamente, como sempre, o Dimitri.

Ali, na mesa descascada de lata vermelha, com o emblema da Brahma, do bar onde sempre se reuniram, na pequena cidade de Azul Anis, os três amigos, verdes no ramo empresarial, davam as primeiras cartadas almejando encontrar o sucesso profissional e financeiro.

- E se fossem acompanhantes? - sugeriu o Preto.
- Acompanhante, não dá. A cidade é muito pequena- remendou Freitas.
- E se fizermos só “tele-entrega” de profissionais do sexo? - finalizou mais uma vez sabiamente o Dimitri.
Assim que Dimitri proferiu a última frase, analisou os olhos estalados dos amigos, e entendeu que havia dado a ideia final. A ideia que seria seguida a risca por seus companheiros do novo empreendimento.
E foi o que aconteceu. Os três terminaram os últimos goles, cada qual em seu próprio copo de uísque, e definiram. A manhã do dia seguinte seria quando rumariam ao banco para pedir um empréstimo, em seguida, iriam à capital, prometendo mundos e fundos, para uma ou outra moça que encontrassem em uma casa de sacanagem de alguma certa qualidade.

O banco foi sensível. Mais especificamente, o Cleiton do banco, que todos diziam ter a mulher mais feia e mais rica de toda a Azul Anis, foi sensível com a causa dos nobres garotos, e lhes concedeu um gordo empréstimo, ao saber do destino daquele dinheiro.

- Não me gasta a guria de começo, que eu quero ser o desvirginador dela aqui em Azul Anis – declarou com seus óculos meia lua, pendurados na ponta do nariz, e olhando por cima deles a cada um dos três rapazes, enquanto os jovens assinavam toda a papelada.
- Sempre que quiser, terás uma bela noite, Sr. Cleiton, e a primeira por nossa conta – respondeu-lhe o Freitas.

Naquela tarde o dinheiro já estava na conta, e dentro do corsinha do Preto, os três rumavam para a capital do Estado.
Foi lá que conheceram Laurinha, e o desastre começou.

Continua...

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A estratégia de um bom vinho

Há duas coisas que me interessam muito nos últimos tempos. Não que uma tenha a ver com a outra, mas fato é que ambas me interessam. Uma é a Idade Média, que tenho prazer de ler, reler, estudar na medida do possível, e sempre que encontro um outro amante dessa época de trevas, me deleito em um papo sagaz e aprazível.
Duas coisas, eu disse, me interessam, uma já se sabe, é a Idade Média, outra é o vinho. Não o vinho, e sim os vinhos, num plural melindroso. Como aprecio um bom vinho. Mas não apenas o desfrutar macio de uma boa taça de tinto seco, me satisfaz também todo o processo de escolha do vinho a ser ingerido. As prateleiras abarrotadas de vinhos de todas as estirpes, todos os preços, todas as nacionalidades, e todas as uvas.
Chego no mercado e penso: “hum, hoje é Chile, Argentina, Portugal, ou fico em Bento?”. Me sinto bem. Sinto-me como se o mundo todo estivesse dentro de uma garrafa, que no mais breve contato com a minha mão, infla meu peito,e mostra às pessoas que ali está um rapaz com seu vinho. “Aquele ali sim sabe escolher um vinho”, devem comentar enquanto eu passo agarrado prepotente à minha Casas Patronales, ou Gracia de Chile.
Há de se saber escolher um vinho com determinação. Um olhar sorrateiro para a vítima, nesse caso a garrafa deve bastar para que a boca encha-se de saliva e o alvo seja escolhido. Não que uma boa conversa ou uma indicação não sirvam também para que se escolha o vinho, servem também. Mas o olhar peremptório de quem sabe qual vinho quer tomar, mostra que ali está um tomador de vinho e que como todos os outros tomadores de vinho, é um sujeito especial.
Após a compra, uma estratégia precisa ser definida. Com o que aquele vinho harmoniza? Haverá uma noite romântica, com muito sexo, e desenfreados goles do tinto seco? Haverá um jogo de futebol, um bom queijo e um amendoim? Haverá um churrasco na casa dos amigos, onde o Cabernet Sauvingon não poderá faltar? Tudo isso precisa ser posto no papel. A estratégia do guerreiro.
Estratégia do guerreiro, e quem sabe aqui haja a deixa para que a Idade Média entre nessa história e não fique abandonada no primeiro parágrafo, dando a entender que me esqueci dela. A estratégia para usufruto do vinho, assemelha-se a uma batalha medieval, que por sua vez em tudo tem a ver com um jogo de xadrez. Ataque pelos flancos, paredes de escudos, estudo do adversário, combate corpo a corpo.
Uma batalha da Idade Média não é simplesmente uma batalha da Idade Média, como hoje podemos pensar. Inimigos, naquele tempo, podiam passar horas e horas estudando-se, paquerando o flanco do inimigo, e namorando a fraqueza adversário. Alternativa de ataque surpresa, lanceiros, cavaleiros, arqueiros. Que universo mágico.
As linhas precedentes deveriam me levar até um lugar onde eu pudesse, por ventura comparar ambas as situações com algo real. Algo pelo qual passamos agora, e quem sabe esse preâmbulo possa ter esse efeito.
Bem como uma estratégia de guerra, o Natal Luz de Gramado está sendo tramado, e que fique claro que essa trama se dá no melhor sentido da palavra. Alternativas plausíveis foram estudadas de forma insistente, para que não se perca o que de mais encantador a cidade de Gramado já criou.
Para isso, ou seja, para que o Natal Luz tenha seu orgulho e sucesso restaurado, há de se fazer o mesmo processo que compõe um vinho gran reserva, tira-se toda e qualquer uva podre, e faz-se o vinho apenas com o que está saudável e homogêneo.
Todos com a mesma vontade, os fogos vão estourar, a cidade iluminar-se-á, e um povo inteiro, de 33 mil habitantes, saberá que é na sua terra que acontece o maior espetáculo natalino do País.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

-Quem és tu, o miserável?

-Sou aquele que te consome as entranhas. Aquele que faz de ti o que quer. Sou o que te transforma, o que te satisfaz, que te alegra, que te entristece. Sou o que te gasta e te poupa, te convoca, te provoca. Sou o teu maior anseio. Teu e de todos os outros.

-Quem tu é? Deus?

-Não, idiota.

-A Angelina Jolie?

-Não seria má ideia, mas não sou. As vezes tu me deseja mais do que a ela.

-Dinheiro?

-Quer emprestado?

-Não, to perguntando se tu é o dinheiro?

-Ah! Não sou especificamente o dinheiro, mas sim movido por ele. A ambição me mantém.

-Não sei quem tu é. Dá uma pista.

-Outra? Mas tu é burro hein.

-Logo.

-Zagueiros, dinheiro, laterais, dinheiro, volantes, dinheiro, meias, dinheiro, atacantes, dinheiro. Entendeste agora?

-Te some daqui, o sem vergonha.

-Tá bom, eu vou.

Minutos depois:

-Viu o tipo do babaca, querendo ofender o futebol. Onde já se viu.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

É só isso

Quando a vi, senti minha alma congelada. Senti que subitamente esfriou e subitamente esfriei também.
-O amor, - me disse ela - segundo os poetas, traz frio ao peito e gela o coração. Deves estar me amando.
Eu respondi:
- É inverno e estamos em Gramado. Aqui quando o sol vai embora fica muito frio mesmo. Não te acha guria.
Ponto final.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O mundo dá voltas, Aninha

Dentre todas as guriazinhas do colégio, era ela quem andava saltitando tal qual uma gazela nova, serelepe, pelos pastos verdes de uma tarde primaveril. Era ela que me resfolegava e que, coisa que é difícil, me deixava sem ter nada a dizer. Ela me intimidava com aqueles cabelos negros escorridos por sobre o ombro, ela me mostrava que mesmo aos 14 anos, um shortinho jeans azul exerce um poder arrebatador sobre a mente masculina. É claro que ela sabia disso.
Todo passeio dela pelo saguão na hora do recreio era um feito que reservava as maiores honras e atraia olhares embasbacados do público masculino e dolorosos do público feminino. Como trompas prenunciando uma guerra na idade média, quando ela resolvia sair andarilhar pelo recreio, os guris diziam:
- Lá vem a Aninha. Nossa! - e silêncio. Silêncio por que não era só de mim que ela tomava a fala, era de mim e de todos os guris. A turma toda calava e com os olhos vidrados e a respiração trancada, olhava ela passar, para só depois, esvaziar os pulmões, e então, alguns passos da Aninha para lá, declarar:
- Mas é gostosa essa guria.
Aninha nem sequer tinha o trabalho de olhar risonha para trás e agradecer o elogio com uma piscadela. Nos ignorava. Isso que éramos, ignorados pela Aninha, nada mais do que isso.
Naquelas alturas, a Aninha era um mulherão, dessas que crescem mais cedo.
- A Aninha engostosou antes – dizia o Toninho.
Certa vez,teve uma aposta.
- Eu duvido que tu vá trovar a Aninha – me disse o Shimia.
- Vale quanto? - perguntei.
- Um pão de queijo, uma 'espraite' e cola na prova de matemática.
Eu fui.
Lá estava ela, sentada, sozinha - que nem amigas ela tinha - lendo a Revista Capricho. As pernas morenas cruzadas, longas, firmes, tão firmes como são as pernas de uma guria de 14 anos que engostosou antes. Olhei-a de longe, engoli a saliva e fui, pé por pé, com o peito estufado e um olhar que dizia: “tu vai ser minha, Aninha”.
Meu tênis de amortecedor fazia: “puf” “puf”, um passo, outro. Quanto menor era a distância mais eu diminuía. Até que cheguei na frente dela, ali sentada no banquinho do lado da sala da direção.
- E ai guriaam?! - falei mascando um chiclé para parecer mais malandrão.
- Hm- ela bufou, levantou os olhos, viu que era eu e voltou a ler a Capricho.
- Posso sentar?
- Hã...não, né.
Fui embora, arrasado, sem o pão de queijo, a 'espraite', sem a Aninha e desonrado. Naquele ano eu peguei recuperação em matemática.

Antes de ontem, encontrei a Aninha no Nacional. Fingi que não a vi, ainda dói em mim lembrar daquele dia, sabe. Eu fingi que não a vi, mas ela me viu, e viu bem. Parou na fila do meu lado do caixa e abusando da minha visão periférica vi que ela me olhava. Olhava de cima a baixo. Eu demorei, mas cresci.
- Ricardo?!
- Ah, e ai Aninha.
- Quanto tempo! Nossa, nunca mais te vi. Como tu tá diferente guri - diferente nesse caso, só pode querer dizer bonito, por que se antes eu era feio, sendo diferente só posso ser bonito. Mesmo que não seja isso, eu pensei que sim.
- Arram, né.
- Bah, que bom te ver. Vamos marcar alguma coisa, hein.
- Arram.

Paguei meu tinto seco, e fui.

Não consigo dizer não a uma mulher, por isso, disse “arram” pra Aninha. Mas ela sabe que a dispensei. Sabe que o meu arram, quer dizer “nem pensar”. A Aninha levou um fora, ela aprendeu como é um se sentir humilhada, na fila do mercado Nacional.
A Aninha está gorda, cortou os cabelos, e nem de longe entraria naquele shortinho jeans de antigamente. Eu vibrei.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Falta de sentimentos

Por que me falta capacidade para escrever sentimentos? Mesmo que haja uma infinidade de tempo, uma folha vazia, um bom teclado e uma xícara de café quente, não consigo escrever sentimentos.
Logo eu, tão intenso em tudo, tão efusivo em minhas manifestações, tão eloquente em minhas declarações. Sou isso, ou penso que sou. Por que então, não consigo falar de sentimentos?
Minhas letras, ao que parece, não se deixam levar pela raiva, nem pela angústia. Não se levam pelo bem, pelo mal – mesmo que esses não sejam sentimentos -, nem ao menos o ódio me faz escrever. O amor já me fez. Segue me fazendo, o que me falta, é talento. Um texto que fala sobre amor deve ser tão peremptório quanto o próprio amor, e talvez aí esteja minha maior frustração, tenho opiniões, mas falta-me o poderio do convencimento. Diz lá no topo do blog, a retórica do não convencimento. Não sei convencer alguém a ler meus textos. Não sei convencer alguém a vender mais barato, não sei convencer a comprar. Não sei fazer alguém me odiar – mesmo assim as vezes consigo –, também não sei fazer alguém me amar. Não sei fazer ninguém chorar, e só as vezes faço alguém sorrir. Resumidamente eu não sei. Não sei o por que não sei e não sei se um dia saberei.
Um poema! Quem dera eu escrevesse um poema, e que esse poema fosse tocante, daqueles que congelam a alma, e afloram o sentimentos.
SENTIMENTOS! Sentimentosdemerdaquevãotomarnocu. Se eu escrevesse um poema, intitular-se-ia: “Não leia”. Aliás, não poria título algum, pois sabedores que todos são de que não sei falar de sentimentos, nem sequer leriam, quando vissem minha assinatura em um poema, e se, por ventura lessem, logo pensariam: “lá vem mais merda”.
Chego ao fim de mais um texto sem expressão, sem persuasão, sem característica, sem fundamento. Deparem-se e surpreendam-se com mais um texto sem sentimentos.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Contra provas sempre haverá argumentação

- Então é assim? Vais continuar me ameaçando com essa história, Maria Emília?
- Ah, pode apostar que vou, Jorge Henrique.
- Quantas vezes vou ter que te dizer que eu não dormi com ela?
- Quantas vezes for preciso pra me fazer acreditar.
- Tu já me disse que não acredita e nem vai.
- Então tu vai ter que falar pra sempre. Ou para de falar.
- Assim não dá!
- Ah não dou mesmo.
- Ah, sem sexo eu não fico!
- Tá vendo, vai procurar ela de novo.
- Maria Emília, eu não dormi com ela.
- Não dormiu ainda, mas do jeito que as coisas vão...
- Ah, então partimos do princípio que eu não dormi com ela mesmo?
- Partimos do princípio que a única coisa que vocês não fizeram foi dormir.
- Não dormimos e nem nada.
- Jorge Henrique, senta aí.
- O que é isso?
- É o teu vídeo com ela, eu mandei alguém gravar.
- V...v...vídeo? Isso tá errado.
- Ah tá errado mesmo.
- Não sou eu esse ai. Tá bem claro.
- E a tatuagem na nádega, Jorge Henrique? Quantas pessoas escrevem só mamãe pôs a mão, na bunda?
- É montagem. É claro que é. Minha masculinidade é maior que a desse cara.
- Ah não é mesmo! Até parece maior na TV.
- Mesmo?
- Mesmo.
- Mas é pequeno ali.
- É pequeno ali...mas não muda de assunto, é tu ali com a sem vergonha da Carolina.
- Ela me seduziu....me ameaçou, disse que se não saísse com ela o pai dela me demitiria da empresa. O que é isso, Maria Emília?
- Um gravador. “Clic”- E nessa fita, estão gravadas as tuas conversas com ela. Desde a parte que tu diz que ama ela, até o pedido de desculpa do dia seguinte por ter durado só 16 segundos.
- 18!
- 18 o que?
- Segundos. Durou 18 segundos.
- Pronto, admitiu.
- Tu me obrigou.
- Maria Emília! Eu não quero mais nada contigo, acabou.

E assim, o Jorge Henrique virou as coisas foi-se embora, mostrando como é o homem. Há provas, há argumentos, mas jamais haverá razão. Não enquanto houver tatuagens de rena!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O maior pinto da rua

Tudo sempre acontecia no final da tarde, antes que a noite chegasse, visto que eram todos muito pequenos para perambular na rua mal iluminada apenas à luz do luar. Era em frente às casas, sim, pois só assim, os gritos das mães poderiam ser ouvidos quando fosse a hora de retornar para seus estimados e quentes lares.
Fábio, Igor, Renato, Henrique. Aí estão, eram quatro. Dois para cada lado.

A rua, pouco movimentada, servia de quadra, ao passo que dois chinelos havaianas, postados simetricamente a um passo do outro serviam de goleira de um lado, e a alguns metros além a outra goleira era formada. Ali, limitados pelas linhas laterais (os meio-fios), os quatro atletas digladiavam-se freneticamente sempre em busca da vitória.
Não que garotos de nove anos protagonizassem lances dignos de aplausos e gritos da torcida, mas eles se esforçavam ao máximo e dentro da mente de cada um, era notável que eram craques. Sem dúvidas o futuro do esporte mundial passava por aqueles pés.
Tudo bem, não eram lá grandes atletas, mas foi em um dia qualquer, que um deles soube que era mais afortunado do que os outros três. Sim, um deles nascera predestinado, e só descobriu isso, quando a bola parou de rolar.
Em uma brecha qualquer do jogo, houve uma pausa, um intervalo, onde todos os quatro atletas, mesmo os rivais, postaram-se lado a lado, em frente a cerca de uma casa, e ali esvaziaram suas bexigas. É bem verdade que guris de nove anos não são lá muito pudorosos, mas de qualquer forma ali mijavam, inocentemente.
Acontece que em qualquer data da vida de um homem, após ele começar a entender a vida, existe o pensamento libidinoso. Ah, pode acreditar que isso está presente até nas mentes juvenis. Por vezes não expressamente, mas sempre acontece, é instinto, saca?
Em meio ao momento do xixi, Fábio, Igor, Henrique e Renato conversavam, e não prestaram atenção no que estava acontecendo bem à sua frente. A conversa rolava e todos se chamavam pelo nome, o que proporcionou o que viria a acontecer.
No fim do ato, a janela da casa da frente se abre, e em um ato reflexo, todos os quatro amigos guardam o pinto que lhe pertence. Mas, já era tarde. Uma senhora, cuja idade não lhes foi revelada, já os havia visto com o pistolim na mão.

-Vi o pinto de vocês, e até sei qual é o maior! - disse e velha sem vergonha.
Atônitos, os jovens não sabiam como reagir. E agora, o que seria? Eis que um deles tomou coragem e perguntou:
- É mesmo? E qual é?
- Não posso dizer, por que assim, um de vocês vai ficar constrangido.
Os quatro guris decepcionaram-se. Por que ficaria um deles constrangido, se o que mais queriam era saber qual era o mais ticudo?
A velha continuava ali, dependurada no parapeito da janela, e enquanto isso, os jovens conversavam. De repente a velha comentou:
- Henrique, era tu que estava bem ao lado esquerdo né?
- Sim – disse Henrique, sem que os outros entendessem. Era uma indireta, a velha queria dizer nas entrelinhas, que era ele o dono do maior pinto. Um sorrisinho sacana surgiu nos lábios do Henrique, enquanto ele olhava para os outros três.
Quando empinou o queixo, estufou o peito e disse que não queria mais jogar, os outros todos entenderam, era ele o dono do maior pinto do joguinho da rua.
Pela primeira vez na vida de Henrique, seu ego foi inflado por uma mulher. Mal sabia Henrique, que na verdade, os outros três é que de fato estavam sendo preparados para a vida.
Uma mulher quase nunca infla teu ego, e saibam Fábio, Igor e Renato, essa foi só a primeira vez que uma delas te frustrou...só a primeira!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

As indiretas para Alice

Um ponto de exclamação. Era evidente que a frase terminara com um ponto de exclamação. Pro Paulo Roberto, aquele ponto fazia toda a diferença. Do alto do metro e dez de pernas torneadas, da fina cintura, do busto farto e despejado daquela linda boca carnuda, aquele ponto de exclamação só poderia conter segundas intenções.
- Me dá uma carona, Paulinho?, ela perguntara.
- Claro, Alice. Vais pra onde?
- Como pra onde, vou para o Botafogo, claro!
“Pro Botafogo, claro!”, ali estava ele, o ponto de exclamação, no final do Botafogo. Se fosse o bairro, pura e simplesmente, ela não teria exclamado, teria quando muito afirmado que queria uma carona, homens não negam pedidos para donas de pernas de um metro e dez. Mas o ponto de exclamação continha um algo mais.
Todos sabem, há o Motel Botafogo, é consagrado é um bonito motel. Alice só poderia estar finalmente cedendo às tentativas até então frustradas do Paulo Roberto. Era a explicação mais plausível.
O destino era incerto, bairro ou motel, mas de qualquer forma o motel Botafogo fica no bairro Botafogo e para lá que Paulo Roberto rumaria, levando em seu carro aquela exuberante loira dourada, das pernas torneadas e da cintura fina e...enfim, aquela loira pra lá de adjetivada.
O percurso não era lá dos maiores, e Paulo tinha pouco tempo para sanar as dúvidas que aquele ponto continha. Era tudo ou nada, partiria para cima da Alice ainda hoje.
Ainda no escritório, quando deu 18h, Paulo procurou Alice, pois ambos teriam que rumar estacionamento, que era no subsolo do prédio, e carinhosamente chamado pelos funcionários como “buraco”. Paulo proferiu, tateando Alice, claro:
- E ai, te pego no buraco?
- Sim, Paulinho, acho que vamos juntos, né!?
- Isso, vamos juntos.
Pronto, o primeiro tiro acertou o alvo, mas a dúvida ainda era frenética no âmago de Paulo. Precisaria de mais do que aquilo para não errar o pulo ao encaminhar-se ao Motel Botafogo.
Foram até o “buraco” de elevador, então Paulo teve outra ideia.
- Não gosto de descer no elevador. Prefiro subir. Tudo gosta quando sobe, Alice?
- Ain, Paulinho, pra mim tanto faz. Gosto de qualquer jeito.
E agora! Essa frase deixava tudo no ar. Seria um joguinho de palavras da Alice, ou ela nem ao menos teria entendido a indireta? Mais perguntas deveriam ser feitas.
Chegaram ao “buraco” e foram adentrando no carro de Paulo, um Xsara Picasso. O carro jogava no mesmo time de Paulo. Picasso.
- Gostou do meu carro novo, Alice? Comprei zero quilômetro.
- Muito bonito, Paulo. É grande, gosto de carro grande.
- É, realmente o Picasso é grande.
- Sim, eu percebi. Queria ter um assim pra mim.
Bola dentro. Ela estava dando indícios de que o caminho era o Motel.
Agora era tudo ou nada, três chutes, dois gols e uma bola na trave, o Paulo Roberto precisava ter certeza do interesse de Alice em desfrutar de seu corpo, mas a última atirada de Paulo Roberto desmoronou tudo.
- Onde mesmo temos que ir no Botafogo?
- Ué, eu moro lá, Paulinho. Quero ir para a minha casa.
Acabou tudo. Paulo fora vencido pela loira das altas pernas, do corpo dourado, da cintura fina, do busto farto, dos adjetivos, enfim...fora derrotado por Alice. Ela morava com os pais e se queria ir para casa, isso significava o fim.
Ele pensara em largar da mulher, deixar os filhos, só para viver um romance no qual tivesse como par a Alice. Tudo fora abaixo. Seus sonhos de viver essa aventura foram jogados ao vento com essa simples frase.
Concentrou-se na pista e apenas ouviu as instruções de Alice sobre como chegar na sua casa.
Enfim chegaram, e um desolado Paulo Roberto apenas olhou para Alice e balançou positivamente a cabeça como quem diz “está entregue”.
Ela fitou-o do banco do carona. Olhou-o como olha uma cadelinha no cio para o cão que a corteja. Paulo não deu bola.
Antes de sair do carro, ela disse:
- Obrigado, Paulinho. Agora que já sabe onde é minha casa, pode vir mais vezes. Beijinhos.
Ao fim do encontro, o pensamento de cada um:
Paulo:
“Como assim visitar mais vezes?”, “ela quer que eu volte?”, “mas e os pais dela?”. “Ai céus, que mulher complicada”.
Pensamento da Alice:
“Ai, odeio homem que não se dá conta!”. “Será que eu deveria ter dito que não moro mais com os meus pais?”.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Algo errado com Lígia

Lígia sentia, alguma coisa estava errada em seu corpo. Sentia-se enjoada, pesada, até a depressão parecia atingi-la naquela manhã. Já sabia o que estava acontecendo.

Tinha preguiça, a Lígia, de sair da cama, mas era necessário fazer a constatação final. Errara e agora, tinha certeza, era tarde demais para reparar o fato sucedido. Encontrou forças extraídas dos escaninhos de sua alma e debruçou-se na cama. Sentou-se logo em seguida.

A alguns metros dali, jazia um espelho e era até ele que Lígia almejava chegar. Concentrou os esforços, o enjoo só poderia ter um significado, não costumava ter aquele tipo de acesso. Pé por pé arrastou-se até a frente do espelho e mesmo antes de chegar lá, teve como intuito levar a mão a barriga, ali fez a constatação final, nem precisaria do espelho. Era o seu corpo, sua vida, seu enjoo, e o pequeno calombo que formava-se em sua barriga deixava claro o sinal do havia acontecido.

Em frente ao espelho parou, analisou-se, tal qual as mulheres sensíveis sempre fazem. Achou-se feia, tal qual as mulheres fazem. Achou-se gorda, tal qual as mulheres sempre fazem. A constatação estava feita. Assim que levantou um pouco a blusa do pijama e viu que de fato, aquele calombo resumia-se a sua barriga.

Voltou à cama, alguma coisa precisava ser feita. Sentou-se mais uma vez. Procurou o celular que deveria estar em algum lugar em meio às cobertas. Revirou a cama e o achou embaixo do travesseiro. Segurou o aparelho na mão e antes de abri-lo. Pensou no que faria, para quem ligaria. Um médico!, claro, um médico era o ideal. Precisava de uma consulta com um especialista, mas antes era necessário ligar para o seu namorado, afinal a culpa era dele. Ele fora o responsável por aquilo.

Ligou para ele, o namorado, o grande culpado. Ele que insistira em fazer aquilo que ela não queria e sempre havia dito a ele. O telefone chamou uma, duas, três vezes e ele atendeu:

- Oi Lígia. Como tu está meu amor?
- Olha aqui, Carlos Alberto, e nunca mais, ouviu bem, nunca mais volto a comer esses malditos bolinhos de batata que a tua mãe faz.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Pobre Isaias

Sentado ali, na mesma cadeira, apoiado na mesma mesa, digitando no mesmo teclado de sempre, usando os mesmos óculos e o mesmo suéter de caximir vermelho que sempre usou, ele via a vida passar. Via a vida passar por detrás das grossas lentes dos óculos que o protegiam do astigmatismo em grau baixo, miscigenado à miopia elevada. Atrás do mesmo guichê, digitava todos os dias, exaustivamente os números de códigos de barras das contas que as milhares de pessoas que iam ao banco onde trabalhava insistiam em pagar.

Eis que um dia uma frase mudou toda a vida de Isaias. Frase essa proferida pelas cordas vocais de quem ele menos esperava, daquele que fora seu carrasco de uma vida, seu gerente geral, o Vladimir:

- Isaias, tu não é mais caixa. Amanhã ruma pra mesinha do lado, vai pro atendimento de pessoa física. Será responsável pelos empréstimos.

Em-prés-ti-mos – Isaias digeriu vagarosamente o que aquela palavra significava para ele. Morfologicamente a palavra empréstimo não é lá de grande valia, mas ali, dentro do banco, significava ter poder sobre as pessoas. Ninguém vai pedir empréstimo com face fechada e cara de bunda. As pessoas que querem um empréstimo sabem que precisarão do Isaias, pois do contrário não contarão com seu dinheirinho na conta.
No dia seguinte, não mais ouviria as reclamações dos geriatras, ou as intimidações dos office boys. No dia seguinte, planaria como uma pluma carregada pelo vento rumo ao poder.

Terno e gravata! Sim, essa sim é a vestimenta adequada para quem concede empréstimos. Empertigou-se todo o Isaias, tirou as bolinhas de naftalina dos bolsos de seu terno preto e o vestiu. Rumou ao banco, sentou-se na cadeira deixada pelo Vargas, que fora transferido para outra agência, tirou a caneta da lapela – caneta nova, é bom que se diga – apertou no botão de sua extremidade e fez saltar do outro lado a ponta da caneta. Arrumou a gravata e aguardou. Dali a minutos o banco abriria e todos veriam quem era o novo responsável pelos empréstimos.

Assim foi, e uma fila formou-se ante o Isaias que substituíra as espessas lentes dos óculos por duas de contato azuis – sempre quis olhos azuis – e agora, com um sorriso quase obsceno assinava displicentemente os contratos de empréstimo. “Fui com a tua cara, tá aqui teu crédito”, pensava.
No mais das vezes aprovava os empréstimos, mas vez que outra lhe chegavam com um ar tão prepotente quanto o dele próprio e Isaias sem pestanejar dava-lhe um não.
Essa vida era o que pedira a Deus.

Até que um dia ela chegou. Chegou como só ela poderia chegar, prepotente. Sem dar-lhe bom dia, sem olhar-lhe no olho, apenas com a sua minissaia curta, muito curta, sua miniblusa curta, muito curta, suas coxas firmes, muito firmes, seus seios fartos, muito fartos. Tudo muito, tudo bom, essa era ela. “Quero ver os olhos” - pensou Isaias, mas a desgraçada nem sequer deu-se o trabalho de tirar os óculos de sol.

- Quero 20 mil, tio. Preciso comprar meu carroum – pediu e argumentou mascando um chiclete que de longe Isaias conseguia ver, era amarelo.

“Tio”, pensou Isaias. Tudo bem que ela tivesse os seus 20 anos e ele passara disso há no mínimo três décadas, mas “tio” era pejorativo demais. “Não vou dar”, pensou.

Pensou, mas na hora de responder não foi capaz. Tremeu, travou, engasgou, suou, e só conseguiu proferir:

- T-t-ta bem, qual teu nome?
- Isamiiiiim! - disse ela com um sorrisinho malicioso.

Ela sabia que tinha conseguido. Sabia que o desarmara, como sempre. Jamais perdera para um homem em seus 20 anos de experiência e não seria dessa vez.

Isaias, no dia seguinte voltou ao caixa do banco por vontade própria. Era um derrotado, deixara uma moça de 20 anos sobressair-se à sua vontade. Sentia-se mal.

Mal sabe Isaias, que todos os homens do mundo se deixam perder para uma moça de 20 anos. Todos os homens, Isaias!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Antítese do amor


Antítese! Vá lá, procure no dicionário ou puxe lá no fundo de sua memória
juvenil, desde lá dos tempos do colégio, o que significa. Farei melhor e
direi que basicamente antítese é o contrário, o oposto de alguma coisa é
a antítese. Agora que já sabe e que todos sabemos o que é, vou contar uma
história de antítese. Uma antítese do amor.


Tudo começou às avessas, quando não se esperava que começasse e chego a
admitir que quando nem se queria que algo começasse. Tão bem estavam os
dois, sós, sem ninguém para cobra-los, para vigiá-los, ou para
controlá-los. Mas valho-me aqui de uma frase que sem dúvidas há você de
conhecer: o destino é inexorável.
Por que a antítese? Por que além de começar quando não se queria que
começasse, eles não eram do tipo carinhoso, ah não eram mesmo.
Estapeavam-se, de brincadeira, claro. Declaravam-se ambos aversos um ao
outro. Faziam o que os casais não fazem. Eram o contrário do amor.
Entendeu agora o por que da antítese?
Bem, era de se esperar que esse convívio lhes despertasse a raiva e lhes
saturasse a paciência em poucos dias ou meses, mas do que falamos nesse
texto mesmo? Antítese! Antítese do amor, e antítese do lógico. Há exatos
onze meses, os dois se amaram.
Calendário, procurando no calendário, ver-se-á que há exatos onze meses
estávamos em uma sexta-feira Santa, dia 02 de abril, um dia, portanto,
especial, presume-se. Sim, um dia especial, o dia em que ele, posso
afirmar, conheceu pela primeira vez o amor. E o dia em que ela, sentiu-se
verdadeiramente amada, também pela primeira vez.
Desde então, aquele sentimento dispendioso do início, tornou-se o mais
puro, verdadeiro e irrestrito amor. Aqui esqueço a antítese, esqueço a
terceira pessoa e afirmo que no decorrer desse amor, eu encontrei-me e
encontrei o significado de uma palavra que sempre me foi familiar, ainda
que me parecesse incompleta: felicidade.