terça-feira, 26 de maio de 2009

As torres, meu vinho...aos Gaúchos



Meu pai, vez que outra me convoca para uma comedida, analisada e derradeira partida de xadrez. Enxadrista que sou, aceito, e a jogatina começa. A partida é um plano de fundo para debates, assuntos das mais diversas estirpes são discutidos e analisados sob o embalo um bom vinho seco.
Em geral, os peões se digladiam enquanto falamos sobre o futebol. É claro, qual seria o assunto senão futebol: - Pra mim, o Tcheco é volante. Tem habilidade pra passar a bola, inteligência, e não é afoito – digo eu após os primeiros combates no tabuleiro.
-É filho, agora me diz, quem vai dar velocidade ao nosso contra-ataque? Quem vai pensar a jogada ali na frente, se o Tcheco ta na volância?
- Ta certo, Tcheco é meia. Tudo ficou claro.
Perco meu peão.
O futebol decorre, até dos peões sobrarem cinzas, e entrarmos definitivamente na zona de combate, na área de perigo, o jogo centraliza-se e cada erro pode custar uma vida. A conversa não é diferente, conforme aumenta o grau hierárquico do jogo, aumenta o tom e a importância da discussão.
Entramos na política, e mais vinho!
- O Lula! Esse sim tem me decepcionado, onde está aquele trabalhista? Onde foi que ele escondeu o metalúrgico que ele tinha em si? Pra mim, virou um humanista- vocifera meu pai.
- Eu já tinha te alertado quanto á isso. Pra mim, quem não investe em educação e quer dar tudo pronto ao povo, não merece muitas honras.
- Saudade do Brizola! (meu pai)
- Saudade do Brizola! (eu)

Ai, perdi minha torre. Meu hoque se foi, sem minha torre, meu tradicional sistema de defesa, meus três zagueiros, foi destruído. A raiva começa a irromper no meu ser, o clima começa a se alterar. Meu pai, olha-me com o queixo ereto, um sinal de superioridade, ele sabe que está em vantagem, e deve pensar: “eu que te ensinei a jogar isso, vou ser teu eterno carrasco”.
O jogo segue, eu já nem dou muita bola para a conversa, quero ganhar, porém, meu pai, puxa outra vez um assunto interessante:
- Se Bento não tivesse feito o que fez, seríamos um povo sem caráter.
- Nem ele acreditava na revolução,pai.
- Mas a fez, o que comprova a fibra do nosso povo.
Levantamo-nos e em uníssono cantamos: “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. As taças tilintam no ar. UM BRINDE AOS GAÙCHOS!
Surpreendi meu pai, levei o bispo dele. A-ráá, as coisas estão começando a mudar, hein?!
Não lembro-me se fiz essa pergunta á ele, sei que se não à fiz, ele deve ter decifrado meu olhar, por que ao mesmo instante ele derrubou meu cavalo, e olhou-me, desafiador.
A conversa era interessante, o jogo derradeiro, e o vinho... “mais vinho, pai”...era ótimo.
Tudo conspirava para um bela noite entre pai e filho. Mas não, eu não pretendia perder. Sabia que a derrota era eminente, mas não sou assim de me entregar, ta na minha história, se desistisse tão fácil das coisas, não seria do povo que sou, muito menos torceria para o time que torço.
-Aos gregos – diz meu pai, mais uma vez levantado a taça para um brinde, quando começamos a debater as teorias de Platão.
- Aos gregos- eu repito, com o mesmo movimento.
Minha rainha se foi, estou de luto. Meu pai me deixou apenas o Rei. Sou bravo, não vou desistir. Corro com o rei para um lado, para o outro. Enfim, ele me olha, com a expressão de quem me ensinou, e diz: - Xeque...mate.
Realmente, meu pai me ensinou.
Conversas assim, são agradabilíssimas. As tenho com a minha mãe também, mas sem o xadrez, que ela não gosta de jogos, e sem o Tcheco, que ela nem sabe quem é. Porém, conversamos. E como é bom conversarmos com quem sabe mais da vida do que a gente.
Todo e qualquer ser humano tem uma história pra contar, do catador de papel, do porteiro do teu prédio ao prefeito da cidade, ao mais importante empresário do município. Cabe a nós ouvir, com sabedoria, criando assim, um infinito leque de possibilidades e conhecimento.
Espero, que com tudo o que já aprendi, e com tudo que tenho certeza que vou aprender, eu vença a partida de xadrez da minha vida. Que eu perca as peças pelo caminho, por que isso a isso já me acostumei. Agora, o xeque-mate, esse quem me dá, é só o meu pai.

3 comentários:

Guilherme "Pitt" disse...

Há... eu sou o primeirooo \o/

Ricardinho e seus textos... muito bom de novo véi... até parece eu jogando xadrez com meu pai... auehauehuahe... e eu nunca venço ¬¬... continue assim!

E te lembra...não te mixa bagual tricolor...!

Fredi_Bazzan disse...

Quem te viu quem te ve texto véio... nem parece o mesmo que tu leu no onibus... hehehe... muito bom cara... ficou mt afude m mesmo... Um final mt massa... e diz pra tua mae que o tcheco eh um peladero que tem por ai num timezinho que veste pijama... hehehe

Marco H. Strauss disse...

Acho que nem preciso fala: TEXTO MUITO BOM! Tá cada vez melhor!
Realmente é bem bom escutar aqueles que entendem mais da vida do que nós.

Abraços