segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A musa impressionista




O programa de ilustração já estava instalado há alguns meses em seu computador, mas ele ainda não tivera coragem. Vinha reunindo excitação, buscando inspiração nos mais diversos lugares até deparar-se com o momento certo. Esse momento chegara; era hoje, era agora.
Abriu o programa e iniciou os rabiscos na pequena mesa preta que transmitia sua arte da vida real para o computador. Um traço, dois, três, quatro...um esboço, uma forma, um rosto, um corpo, uma alma. Ali, em seu computador, algo se formou, e se formou saído de um lugar inimaginável, se formou ali uma vida oriunda diretamente de sua própria cabeça.
Inseriu naquele computador o desenho da mulher mais linda que já vira até hoje e surpreendeu-se ao terminar a obra  de arte. Ali estava um desenho de dar inveja à gênios impressionistas, ali estava uma obra capaz de arrancar suspiros de Michelangelo’s, Da Vinci’s e outros tantos renascentistas. Aquela era, por certo, uma obra prima em forma de arte; aquela era uma obra prima em forma de mulher.
O realismo era tão grande que ele podia ver seus belos lábios carnudos tremulando conforme sua frágil respiração. Podia perceber os fios de cabelo pretos e ondulados balançando e descobrindo sutilmente seu avantajado busto conforme o vento lhe atingia. Ele podia ver seus olhos grandes e castanhos piscando de segundos em segundos. Por Deus que aquele desenho parecia manifestar um anseio por vida própria, por Deus que aquela era uma obra tão real a ponto de ser...real.

“Puta que pariu, o meu desenho tá vivo!”, ele pensou ao perceber que não fora o efeito do uísque, nem do pequeno cigarro que acabara de enrolar em papel seda. Aquela mulher do desenho estava viva e manifestava toda sua vitalidade através de belas e singulares piscadas sensuais e objetivas.  
Ele perguntou, com receio e com voz trêmula:

- Tu...tu...está viva?
- O que mais tu esperava. Tu não me criou para ser uma companheira? Não me desenhou para ser mais real que qualquer obra impressionista? Voilá!, a tecnologia a teu favor, bebezão.
- Bebezão? O que é isso, eu criei uma obra de arte que se expressa em francês e me chama de bebezão?
- Eu sou o claro e manifesto desejo da tua mente. Vim para dar significado a tua vida e te encher de euforia. Vim para te mostrar que a vida é muito mais do que cinco dedos. Vim te mostrar que a vida é mais do que meia dúzia de sites pornôs que te alegram todos os dias. Vim ser teu gozo, vim ser teu sexo, vim ser tua musa...acima de tudo, vim ser tua mulher.
Ele não podia entender. Não era possível que aquilo estivesse realmente acontecendo. Um desenho não poderia derramar-se à vida assim e ele considerava-se insano ao conversar com a tela de seu próprio computador. Eis que, como num passe de mágica, ou numa obra de Gogol, ele não mais precisou falar com o computador. Aquela bela mulher desenhada saiu de dentro de seu pequeno lar como quem pula uma janela e, graciosamente, vai ao encontro do namorado de colégio.
Ela estava ali, virada em sensualidade, lábios e busto, bem na sua frente, pronta para dar a ele todo o prazer que em seus 25 anos de vida não tivera. Direto de sua mais cálida e terna imaginação...oriunda das profundezas mais libidinosas do seu ser, ali estava a ama do seu tesão.
A conversa não se estendeu por mais um segundo sequer, pois ela foi logo lhe abrindo o cinto, o zíper, e acalentando seu membro timidamente rijo entre os lábios, demonstrando o quanto entendia o que estava fazendo e dando-lhe prazer como só um personagem criado por ele mesmo poderia dar.
Foi a noite mais linda de sua vida. O prazer jorrou-lhe o corpo todo, uma, duas, três, quatro vezes. Depois de tudo, ela lhe tagarelou. Contou-lhe da vida curta, falou-lhe de seus problemas, contou da desgraça que era estar presa na imaginação, falou que por vezes estapeou-se com personagens de jogos de vídeo games que insistiam em roubar-lhe o lugar nos pensamentos dele. Falou-lhe do tanto que achava a mãe dele chata, falou – mal – sobre o time dele...falou, falou, falou...
Ela falou tanto que o fez entender que, por vezes, há desejos que não devem sair da mente. Ela falou tanto que o fez entender que mesmo a melhor (e única) noite de sexo de sua vida pode se fazer pequena ao lado da tranquilidade de sua mente. Ela falou tanto a ponto de deixar-lhe claro que há pensamentos que, por mais que estejam dentro de nossa cabeça, não devem jamais ser levados a cabo.
Enquanto ela falava, ele vagarosa e sorrateiramente esgueirou-se até o computador, iniciou o programa de ilustração, selecionou a borracha e pouco a pouco o silêncio se fez.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Um mar de aparências

O litoral gaúcho reserva surpresas inimagináveis. São centenas e centenas de quilômetros compondo algumas das menos favorecidas praias que esse mundo já viu. Há, é verdade, praias que possuem sua beleza peculiar, como Xangri-lá, outras são grandes centros, como Tramandaí, outras realmente são belas, como Torres, e há praias que não oferecem nenhuma dessas opções. Em especial, há uma praia que não oferece nenhuma dessas opções, e ela chama-se Arroio Teixeira.
A estória que segue fala sobre amigos, mas não amigos qualquer. Fala sobre amigos de Facebook, amigos de Instagram, daqueles que há hoje em dia, preocupados muito mais com as postagens na grande rede, do que em refestelar-se no Sereia's Bar, em Arroio Teixeira. Essa é uma história sobre o tempo que muda, e sobre as pessoas que, cada vez mais, mudam com o tempo.

Passava um pouco do meio-dia quando a Estrada do Mar levou-os diretamente para dentro de Arroio Teixeira, uma pequena praia do litoral gaúcho, pertencente a Capão da Canoa, essa sim, uma grande cidade. Em Arroio Teixeira as coisas são íntimas, as pessoas se conhecem, as ruas são ruelas, os amigos se encontram, os sentidos se aguçam. Vá lá que é uma praia feia, mas na companhia de amigos, todas as coisas se ajeitam e a vida sempre é mais bela.

-Puta que pariu que praia feia do caralho, Ramiro! - declarou solene, tão logo ingressaram na pequena praia, o Tamanduá.

- Não é feia, cara, só é pouco explorada – defendeu-se o Ramiro que, afinal de contas, havia sugerido o lugar aos amigos, e possuía uma singela casa na prainha.

- Cacete. Cadê as pessoas, cadê a galera, as festas, as músicas? Cadê a civilização? - emendou o Luís Pedro.

- Ah, meu. Arroio Teixeira tem seu charme. Não é muito bonita, mas a gente sempre acha o que fazer. Tem um monte de gente conhecida, e a gente pode comprar cerveja, assar uma carne, conversar. Há quanto tempo não nos reunimos? Quanto tempo que eu não converso com vocês? - seguiu Ramiro na defensiva.

- Mas tu tá muito veadinho, Ramiro. A gente quer muvuca. Como é que eu vou postar no Instragram que to numa merda dessas? - replicou o Luís Pedro.

-Nem tem check-in nessa porra de praia! - bradou o Tamanduá.

Ramiro, ao ouvir aquilo, silenciou. Não havia solução para o caso que se apresentava. A retórica praticamente não encontrava argumentos para convencer aqueles dois sujeitos de que Arroio Teixeira tinha algo a lhes oferecer. Ele conhecia os encantos de Arroio Teixeira, sabia que a praia fazia as pessoas felizes, porque era justamente uma praia onde as pessoas estavam felizes. Arroio Teixeira era uma praia de gente legal, mas não era uma praia de Facebook. Sendo assim, uma única alternativa plausível lhe restava; havia uma única saída para que seus amigos não o surrassem pela escolha da praia. Ramiro, mesmo reticente, com apenas um fio de voz, comentou:

- Atlântida é pertinho daqui.

Aquele comentário serviu para alvoroçar o ânimo dos presentes e lhes arrancar urros de contentamento. Atlântida sim era lugar para eles. Afinal de contas, não importa se o almoço é sardinha, o que importa é arrotar salmão. Assim, combinaram a estratégia: apenas dormiriam em Arroio Teixeira, e durante o dia, não arredariam pé da mais badalada praia do litoral gaúcho.

No primeiro dia de praia, as hashtags bombaram nas redes sociais, e cada foto dos amigos não tinha menos que 30 likes. #Atlantida #mulherada #loucuraematlantida #altonivel #ondeficaarroioteixeira?, manifestavam-se em cada legenda das milhares de fotos sem camisa que tiravam e postavam em redes sociais.
Aquilo sim era vida para Luís Pedro e para Tamanduá, porém, Ramiro não pensava assim. Logo no primeiro dia ele quase desabafou com os amigos. Quase lhes revelou que aquilo tudo era uma grande de uma putaria. Não era possível que para manter aparências preterissem Arroio Teixeira daquela forma. Não era possível que depois de tanta alegria vivida na popular Texa's Beach, ele simplesmente rumasse a uma praia vizinha para que suas postagens no Facebook fizessem mais sucesso, ou para fingirem que eram da elite social. Ramiro sabia que aquilo era fingimento. Sabia que essa elite social não lhes pertencia e pouco se importava com isso, porque a única coisa que importava a ele, era ser feliz. Era evidente que ele queria ganhar dinheiro, era sabido que ele trabalhava muito para buscar isso, mas enquanto isso não acontecia, ele colocava-se no seu lugar, e não era um mau lugar. Era um lugar de gente autêntica, gente que não negava o que era, que era feliz com o que tinha. Ramiro era um sujeito diferente.
Para evitar uma reação colérica diante daqueles dois babacas que Ramiro já não conhecia mais, levantou-se da mesa do bar de beira de praia que estavam, e com uma postura digna da mais alta nobreza, declarou a frase que jamais sairá da cabeça de Luís Pedro e Tamanduá:

- De nada adianta gozar com pinto dos outros!

Dito isso, Ramiro foi desfrutar de tudo aquilo que Arroio Teixeira tinha a oferecer. Luís Pedro e Tamanduá não tinham mais onde ficar e, assim sendo, retiraram-se do litoral gaúcho e voltaram para suas respectivas casas, afinal de contas, mentiras sempre duram pouco.



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Eu não escrevo romances




(Como seria um conto romântico escrito por Camus, Kerouac, Robbins, e outros daqueles que mostram que a vida é mais simples do que poética)

Teve um dia que eu saí de casa. Coloquei meus óculos escuros, tomei uma dose de Jack Daniel's cowboy, duas aspirinas e, sem me preocupar com figurino ou aparência, toquei-me porta afora. Saí determinado, até a primeira rajada de vento me trincar por dentro e me lembrar que frio do cacete fazia naquele dia. Voltei. Vesti um casaco de lã e aí sim saí, mais determinado do que antes.

Como eu sou homem e homem anda com verdade, anda demonstrando o quão seguro é, fiz isso. Andei batendo os pés no chão, com força, marcando meu território e mostrando a todos aqueles bunda-moles que desfilavam suas caras blasé ao meu redor o quanto aquilo me pertencia e o quanto eu estava pouco cagando pra eles.

Meus sentimentos me socavam a cara e só o que eu queria era poder chegar logo na porra daquele lugar e resolver aquela situação, porque é absolutamente medíocre e prosaico permanecer débil diante de algo que se pode resolver com um lance, com poucas palavras. Quem sabe eu resolvesse tudo com apenas um gesto.

Não era pra ser, mas um cara saiu correndo e se atravessou na minha frente. Babaca era aquele cara, porque me rodeava como um louco e balançava os braços e pernas freneticamente. “O que tu quer?”, perguntei pra ele. “Mim não querer nada”, ele disse.

Que diabos! Só me aparecem loucos. “Então 'mim' vá não querer nada pro lado de lá, rapaz”, eu disse e empurrei ele. Ele caiu e ficou lá, se balançando como um epilético. Eu não dei bola, porque sabia que ele não tava fazendo aquilo porque era epilético; fazia porque era louco, ou porque queria me incomodar.

Continuei andando e pouco me importando para aquele idiota, mas pensando também no porque de tanta gente louca me cercar sempre. Estou sempre perdido em meio aos loucos e àqueles que não sabem o que querem da vida. As pessoas são atraídas por atitudes, então eu me perguntava o que de errado eu estava fazendo? Como estava me comportando para aquele gente toda estar sempre em volta de mim. Que gente chata do caralho. Que me deixassem em paz, porque eu não aguento louco. Eu não quero aguentar loucos. Eu me basto.

E tem outra coisa. Eu li muito pouco Freud e consumi muito pouca filosofia pra saber o que eu tenho feito de errado. Eu sou um boca aberta e não tenho capacidade para saber se as pessoas loucas param perto de mim, porque eu sou louco, ou justamente porque não sou. Não cabe a mim decidir isso. Cabe a mim, sim, dizer a essa gente chata que eu não quero elas perto de mim. Não quero que elas fiquem me enchendo o saco, porque eu não gosto nem das pessoas legais, imagina então das chatas. Deem um tempo.

Em todo o caso eu já nem pensava mais isso quando cruzei por aquele chafariz lotado de pombos. Eu odeio pombos, porque eles não podem me ver sem cagar em mim. Todo pombo me vê como um alvo. Eu devo ser vermelho e deve estar escrito “100” na minha cabeça e o pombo de melhor mira, que me acertar, ganha um prêmio. “Pombos filhos-da-puta, me cagaram!”.

Dessa vez eles erraram a cabeça, mas acertaram a droga do meu casaco preto. Juntei um jornal velho do chão e limpei a porcaria que me fizeram os pombos. Não queria perder meu tempo com drogas como aquela, então segui adiante.

Agora sim eu estava chegando onde queria e já começava a pensar outras bobagens. Tava pensando no quanto de Stephen Dedalus cada um de nós tem. No quanto um dia pode ser uma odisseia como a de Ulysses, e como as pessoas podem fazer de situações ridículas e simplórias ocasiões formidavelmente orgásticas. É claro que eu não teria a resposta, mas parto do princípio que a vida, na maioria das vezes é uma grande bobagem totalmente sem graça, então, a não ser James Joyce, ninguém mais a deixaria divertida.


Mas aí, eu consegui chegar onde quis chegar desde o começo. E lá estava você, com a mesma cara que sempre teve, com os mesmos olhos claros, o mesmo cabelo loiro ondulado, com a mesma boca feita para ser beijada. Lá estava você com aquela cara de quem diz: “aqui estou eu, e sou toda sua”.

Caminhei ainda mais determinado até você, e quando cheguei, te beijei demoradamente, e apartei bem o teu corpo contra o meu. Depois disse que te amava e você concordou. Aí, a gente se deu as mãos e saímos caminhando como dois namorados, e não nos importamos se havia ou não gente idiota ao nosso redor; dali por diante, não haveria loucos...dali por diante haveria apenas nós dois.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

As melancias se ajeitam



Noutro dia, enquanto eu estava em Buenos Aires pensava no que muitos pensam quando estão em Buenos Aires: Jorge Luis Borges. Pensava no quão difícil é, para um sul-americano perpetuar seu nome nos anais da historia literária, valendo-se unicamente de talento, e enquanto pensava isso, bateu-me um desânimo por lembrar que mesmo os maiores autores brasileiros não têm sua obra vista como realmente influente ao redor do mundo. Aí pergunto-me: e eu?
É evidente que eu, em minha humilde insignificância, nem sequer almejo colocar minha obra literária (aqui há o espaço para risadas) nas estantes de livrarias do mundo todo e ter meu nome comparado ao dos maiores escritores que já existiram, por que a mim não falta uma coisa que falta a muitos: noção. O que acontece é que eu me sinto frágil quando percebo que, mesmo escasso, o dom da escrita é um dos únicos que tenho e ele não vai me levar a lugar nenhum. Entende o meu desespero?
Quando eu vejo, por exemplo, que o Fitzgerald escreveu o antológico “Great Gatsby”, com 28 anos, eu penso: “Deus do céu, o que esse mundo reserva pra mim?!”, aí preocupo-me exacerbadamente com o meu futuro, mas ao mesmo tempo me desgosto do presente, por que os anos doismil do Brasil são tão mais chatos do que devem ter sido os anos 1920 nos States, e me consolo um pouco.
Sabe o que? Eu me preocupo demais com o meu futuro por que essa é uma condição irrevogável do ser humano, e digo mais: há duas preocupações constantes na cabeça das pessoas; uma delas é com o passado e a outra é com o futuro. Por que o passado sempre foi bom e o futuro sempre precisa ser bom. Só que existe uma coisa chamada presente e é nele que vivemos. Que te parece?
A nostalgia do passado está tão entranhada no teu peito quanto está no meu, por que nós sempre olhamos pra trás e dizemos: “que tempo bom que não volta”, só que quando estávamos no tempo bom que não volta, olhávamos pra frente e pensávamos: “daqui cinco anos eu quero ser rico”, ou olhávamos mais pra trás ainda e dizíamos: “tempo bom que não volta”, outra vez. Ô coisa chata que nós somos.
Enquanto estamos olhando pra frente ou para trás, esquecemos que há uma ligação entre esses dois estados temporais, um momento no qual realmente podemos fazer as coisas, ou seja, um período de tempo no qual podemos saudar o passado e preocuparmos-nos com o que ainda está por vir. Chamamos isso de presente.

A vida é curta demais para que nos preocupemos com algo que já passou ou que ainda está por vir. O melhor é gozar o tempo todo, entendendo que com o passar do tempo e o andar da carruagem todas as melancias certamente se ajeitarão, e, mesmo que faça sentido, é por usar frases como essa das melancias que eu me preocupo cada vez mais com o meu futuro e me certifico que não chegarei aos pés de Fitzgerald, o que pouco me importa, afinal de contas, o Fitzgerald é passado, e eu, a partir de hoje, só vivo o presente.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O Fabuloso Mundo do Eumesmo

Na tentativa de livrar-se daquilo, ela vivia em terceira pessoa, deixando sua alma vagar pelos mais diversos confins, pensando que, ao imaginar-se Emma Bovary esconder-se-ia de si mesma dentro do único refúgio disponível e que jamais seria penetrado: sua mente.
Aquela mente imaginativa, toda cheia de muros, barreiras e portadora de um mundo único, impenetrável, o mundo do eumesmo. “Eis aí um lugar bom para se estar, o fabuloso mundo do eumesmo”, pensava enquanto violavam-na, enquanto execram-na de maneira débil, frívola e libidinosa.
Queria estar a vida toda naquele mundo alegre de seus próprios pensamentos, da sua própria concentração, seu mundo singular. Ali, dirimiam-se dúvidas, esvaíam-se sentimentos de ódio, de dor...a dor que lhe fulgurava o corpo, ali nem sequer existia. Estava sozinha ali, ou acompanhada por seres mágicos, seres que, diferentemente de todos os humanos que conhecia, eram bons.


sábado, 5 de outubro de 2013

A perseguição




Outro dia resolvemos passear, minha cachorra e eu. Preparamos todos os paramentos necessários e fomo-nos desbravar duas quadras além da nossa. Era um dia como todos os outros, o sol brilhava longe, fazendo com que o frio se espalhasse pelo corpo, e os dentes levemente tilintassem, o que não era o bastante para impedir-nos, a mim e à Ágata, que é o nome da minha cachorra, de sairmos de casa buscando os prazeres que nos aguardavam um tanto mais pra lá.
Tão logo nossa jornada iniciou, ao que saímos de casa e subimos uma primeira lomba forte, buscando dessa forma o fortalecimento de nossas panturrilhas e o preparo para o que ainda estaria por vir, avistamos aquele que, sorrateiramente, seria o algoz de nosso passeio, de forma ameaçadora e fugaz. Percebi, através de um olhar apurado que estávamos sendo seguidos, por aquele exemplar masculino.
Surpreendeu-me ter meus passos seguidos por ele, com aquela envergadura um tanto miúda e atarracada, preto, certamente, e usando uma camisa xadrez, uma vez que aquela região sempre fora segura e tranquila. Contudo, aquela não era ocasião para surpresa e sim para ação.
Discretamente andando, tendo minha pequena cachorrinha ao lado, tramávamos um plano para evitá-lo, ou melhor dizendo, despistá-lo nas curvas que seguir-se-iam. Não houve tempo.
Quando demos os passos seguintes, percebemos que ele, com sua furtividade, aproximava-se rapidamente, ameaçando-nos através de sua assustadora presença. Era tarde e eu sabia que seríamos alcançados.
A Ágata tremia e procurava disfarçar, como sem nem tivesse visto o vilão dessa história, mas agora nada mais poderia ser feito, a não ser o que eu fiz:
Bati meus pés nos chão de forma frenética e esbravejei: “sai pra lá, jaguara”. Ao que aquele atarracado linguicinha macho, escapou-se, veloz, voltando para sua casa, cujo portão do terreno ainda estava aberto, aguardando o seu retorno.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A mentalmorfose?


E se eu esfregasse uma lâmpada mágica e um daqueles gênios azuis e de barbicha, que é como eles são, os gênios, me dissesse, de forma pausada, versada e rimada, que é como falam os gênios:

Acordaste-me vossa mercê por motivo qualquer
saibas então que um desejo lhe realizarei
contanto apenas que não lhe transforme em mulher
em qualquer outra pessoa o transformarei

Contudo é preciso que entendas
que não mais que dois dias dura o encanto
e que desde já não pague a prenda
quando o vinho não mais passar por decanto


“Caramba!”, pensaria eu, “Um gênio da lâmpada está propondo me transformar em quem quer que seja, desde que não seja numa mulher, por dois dias”. Que situação inusitada, que glória, que manifestação terrena de todos os encantos divinos. Puta que pariu!
Contudo, passados os dois minutos de êxtase, uma dúvida cairia como pedra sobre minha animação incandescente: em quem eu vou me transformar?

É evidente que, se o feitiço durasse a vida toda, ficaria mais fácil de saber em quem eu me transformaria. Se quisesse falar inglês, me parece evidente que eu escolheria um galã como Brad Pitt, Tom Cruise, Leonardo Di Caprio ou Hugh Jackman. Não quisesse sair das terras tupiniquins, poderia eu aprazer-me em me tornar Tiago Lacerda, Caio Castro ou Kauâ Raymond. O problema seria quando acabasse o encanto. O tamanho da frustração de ter sido um galã com grande fama durante dois dias e, num dia cinza, acordar espreguiçando-me tranquilamente, rumar até o banheiro, ainda embrulhado no meu pijama, deparar-me com o espelho, pensando nele encontrar o meu belo rosto de galã e encontrar apenas a mim mesmo. Que desgraça!
Não, galã de cinema não. Um pensador de repente: um filósofo! Que belo seria que eu fosse Platão, Aristóteles, Sócrates, ou até mesmo alguém um pouco mais jovem como Nietzsche ou Schoenhauer, ostentando então não mais do que 220 anos. É, me parece que com 220 anos eu já não estaria na flor da idade e, é possível que nesses dois dias de encanto eu morresse.
Nada de filósofo antigo. E um escritor desses que eu tanto gosto. Se eu fosse Orwell? Ou Hemingway, ou Fitzgerald? Ou Joyce? Ou London? Uau, que excitação. Excitação é o caralho, que em dois dias eu não conseguiria escrever nem um conto qualquer, então de nada me valeria mesmo.

E um músico? Ser o Lobão por dois dias seria legal, ou numa euforia mais entusiasmada, o Ozzy Osborune. Seria bacana ser o Ozzy por dois dias, para saber como é ser uma estrela do heavy metal mundial, e depois não ser mais, por que ser o Ozzy deve ser legal, mas ser o Ozzy pra sempre deve ser cansativo pra caralho, por que quanto menos neurônios há na cabeça de alguém, mais ele deve se esforçar pra pensar, e pensar dá um trabalho do cão.
Devo estar chegando a um denominador comum. Ozzy é uma boa escolha, mas... e se eu morrer? Todo mundo que vê o Ozzy tem a impressão que ele vai cair duro a qualquer instante. É certo que até agora o cara não se entregou, mas vá que bem na minha vez isso aconteça? Ozzy out.
Puta que pariu, está cada vez mais difícil escolher quem eu quero ser. Meu maior medo é que a mim aconteça o que houve com Gregor Samsa, na famosa Metamorfose de Kafka. Ser um dos personagens que eu citei acima por dois dias e acordar sendo eu de novo, deve ser pior do que acordar e ver-se transformado num Besouro. Assim sendo, me decidi:


- O da barbicha, me transforma naquele guri metido a escritor, com 1,83 cm de altura, 76 kg, cujo nome é Ricardo e que, mesmo feio, desengonçado e meio tabacudo, é o melhor que eu posso ser.