sexta-feira, 28 de março de 2014

Finjamos durante a Copa




A Copa do Mundo do Brasil será o maior e mais importante evento realizado em território nacional em todos os tempos. Não porque o Brasil é o país do futebol, e é. Nem porque o povo brasileiro é um dos mais alegres do mundo, e é. Menos ainda porque nossas mulheres são objeto de desejo de dez em cada dez homens ao redor do globo, e são. A Copa do Brasil será o maior de todos os eventos para nós brasileiros, pois mostrará ao mundo um país sem rumo e, quem sabe, mudará a trajetória de uma morte há tanto tempo anunciada.
Faltando menos de três meses para o início do maior evento esportivo já realizado em solo tupiniquim, existe apenas uma certeza: a Presidente do Brasil não se fará presente na abertura do evento, com medo de que retumbe um sonoro coro de vaias em réplica ao seu discurso. Veja que absurdos nós brasileiros somos. A chefe de uma nação tão alegre, temendo vaias depreciativas.
Obras que andam a passo de formiga, estádios que em seu limitado percurso de execução quase dobraram de valor, estrutura viária reduzida e a certeza de um trânsito abarrotado de veículos, pedestres, discussões, nervosismo. Obras inacabadas, empurra-empurra de responsabilidade. O famoso jeitinho brasileiro será escrachado ao mundo, um jeitinho safardana, um jeitinho irresponsável, um jeitinho imoral. Que pena eu tenho de todos nós vexatórios brasileiros.
Haverá festa, haverá euforia, haverá futebol do mais alto nível e, mesmo com todos os problemas, não haverá ser vivo nascido em terra verde e amarela que não vá torcer para que a seleção Canarinho fature o hexa, contudo, as notícias sobre desigualdade social, sobre corrupção, desvio de dinheiro público, miséria, precariedade da saúde pública nos grandes centros, a ausência de um sistema educacional decente...todos os nossos problemas correrão o mundo como pólvora, mostrando até aos evoluídos orientais o quanto pode ser pobre um país tão rico.
Joguemos futebol, que a bola cura tudo, daremos então um chapeuzinho nas doenças, um drible da vaca no desemprego, metamos a bola no meio das canetas da miséria. Façamos um gol na gaveta (sem alusões) da corrupção, e enfiemos uma goleada na desorganização de um país eternamente subdesenvolvido. Pensemos assim que dói menos.
Que o Brasil ganhe para que, no momento em que a seleção estiver levantando o caneco, vibremos feito loucos, finjamos que estamos em um país de verdade: a Alemanha, talvez, e que somos um povo evoluído, um povo educado. Esqueçamos, ao menos por alguns instantes que naquele mesmo momento, haverá um sertanejo pobre morrendo de fome, haverá um professor verificando sua conta negativa no banco, haverá filas e mais filas nos hospitais das principais cidades do país. Enquanto estivermos levantando a taça, mesmo que tentemos esquecer, o Brasil seguirá sendo apenas o Brasil.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Ao som de Belchior




Na primeira vez ele não deu bola, afinal de contas mensagens erradas pipocam volta e meia no what's app, mas quando o segundo texto, em meio a madrugada chegou, a coisa começou a ficar estranha. O telefone vibrou alto no canto da cama e ele, ainda sonolento, tateou o colchão até encontrar o aparelho que ostentava a indicação de uma nova mensagem:

A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas
coisas novas pra dizer

De novo Belchior”, ele pensou. Quem haveria de estar lhe enviando trechos de canções de Belchior? Por certo alguém que o conhecia bem, afinal de contas, seus verdadeiros amigos sabiam o apreço que ele tinha por aquelas antigas músicas do poeta bigodudo, mas nem a todos ele declarava seu incontestável amor por Belchior.
Aquilo estava estranho, e além de deixá-lo intrigado, também havia lhe tirado o sono,e enquanto rolava no colchão de um lado pro outro, pensou que, afinal de contas aquilo era bonito. Belchior era, em qualquer circunstância bem-vindo, fosse de dia, fosse de noite...fosse de madrugada. Quisesse o que quisesse aquela pessoa, havia alegrado a madrugada de um homem triste.

Por si só aqueles que ouvem Belchior possuem inclinação à tristeza, mas ele estava triste por um motivo real. Ele estava triste, pois seu relacionamento de mais de quatro anos havia findado por uma simples implicância, uma simples escolha errada. Então, ele entregou-se à amargura do sofrimento passional, afinal de contas ainda gostava da ex-namorada.

Andava o tempo todo de cabeça baixa, esquivava-se do sol, temia as pessoas. Era um bicho, recluso e mal tratado pelo sofrimento que só um amor interrompido pode causar. E agora aquelas mensagens. Não haveria coisa mais alegre para ele do que saber que havia ali um Belchior, que não era Belchior, mas pensava Belchior. Uma nuance de sorriso desenhou-se no seu rosto e ele fez questão de ligar o Ipod no stereo da sala e ouvir “A Palo Seco” a um volume que só aqueles que sofrem por amor podem aguentar.

Enquanto o poeta declamava:
Tenho vinte e cinco anos
De sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força deste destino
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues

Ele lembrava, lembrava-se das coisas passadas. Lembrava-se dos momentos e chorava, chorava como um criança abandonada, como um miserável retirante nordestino rumando para o sul, e o sol nunca é tão bonito pra quem vem do norte.

Dançou com a vassoura, abraçou os travesseiros, e fez amor consigo mesmo. Ali estava ele, sozinho em sua própria companhia e imerso em seus próprios pensamentos, indeciso entre a dor e a alegria. Ali estava ele, um paradoxo de sentimentos, um alegre sujeito triste. Ali estava ele.

No dia seguinte, as profundas olheiras de uma noite mal dormida estampavam-lhe a cara e todos no escritório pensaram que aquele seria mais um dia de pouca produtividade, pois ele, outra vez havia desperdiçado uma noite bebendo vinho e chorando a ausência da amada.

A verdade é que aquele seria sim um dia improdutivo, ele não escreveria nada, mas não porque estava triste. Ele apenas queria chegar em casa para receber de novo aquelas mensagens. Queria chegar logo para que seu próprio Belchior lhe endereçasse o trecho de uma canção, e alegrasse assim o seu dia.
O dia passou e ele não fez título para campanha alguma, contando apenas o minutos que arrastavam-se no relógio do computador. Até que foi-se embora.

Jantou um gorduroso hamburguer com batatas fritas e tomou uma coca-cola e, quando deitou-se outra vez na cama ele ouviu aquela voz. Não podia ser. Aquela voz era de um anjo, aquela voz vinha direto do paraíso e ele, certamente, havia morrido.

Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia...
quando havia galos, noites e quintais.
Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
o mal que a força sempre faz.
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais

Era uma mulher, uma mulher linda, pois aquela voz não poderia jamais ser de qualquer mulher que não fosse linda. Aquela voz revelava-se a mais bela voz que ele já ouvira em toda a sua vida. Bonita e triste ela era. Como todo amor, ali estava uma voz bonita e triste.

De onde vinha, que não do paraíso? Sim, vinha do banheiro. Mas o que? Como assim, do banheiro. Ele rumou aos tropeços até o banheiro, estatelando-se no solo ao sair da cama. Quando chegou no banheiro, não havia ninguém. Havia apenas ele mesmo, outra vez, em sua própria solidão. Mas a voz seguia. E ele entendeu.
Havia um duto no banheiro, e aquela voz vinha do apartamento ao lado do seu. Vinha de sua vizinha, alguém que ele jamais havia visto, mas que agora, dava o mundo para ver. Aquela voz fizera com que se esquecesse da tristeza e pensasse no amor de novo. Aquela voz fez com seu coração batesse outra vez. Sentiu-se vivo.
Era definitivo. Levantou-se e, determinado (e de pantufas) rumou até o apartamento vizinho. Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo, nada. Tocou de novo, atendeu. Era o Belchior. Por Deus que era o Belchior, ostentando sua vasta bigodeira e seus cabelos já grisalhos. A aparência não era muito boa. Ele estava velho, mas era o próprio, Belchior ali, em carne, osso e bigode.

-O senhor é...Be...Be..Belchior?
- É o que parece, moleque. Entra, eu tenho uísque.

Sentados em um sofá de couro e marrom, eles falaram sobre muitas coisas, mas uma delas chamou mais a sua atenção:

- A idade me ensinou que a poesia sozinha não é nada. Com o tempo eu aprendi que não basta escrever, é preciso fazer. Eu falei tanto, eu amei tanto, eu cantei tanto, mas eu fiz tão pouco. É preciso fazer, rapaz. É preciso fazer.

Aquela frase abriu seus olhos de uma forma que tornou-o ainda mais fã daquele grande músico, e o aflorou sentimentos há muito reclusos.

    - Belchior! Quem estava cantando “Galos, Noites e Quintais” agora há pouco aqui?
    - Você não sabe mesmo? Não reconheceu a voz?
    - Eu conheço essa voz de algum lugar, mas é como se meu cérebro me privasse da informação. É como se minha mente me quisesse fazer esquecer.
    - Vá até aquela porta e veja, então.

    Era ela, mais linda do que nunca. Munida de um violão, seguia tocando e cantarolando:

    Quantas lágrimas sentidas e choradas
    Quase sempre às escondidas, pra nenhum dos dois saber
    Quantas dúvidas deixadas no momento, pra se resolver depois


- Resolvamos tudo agora, meu amor. Sejamos apenas nós dois. Vivamos somente agora. Entreguemo-nos a esse momento, e esqueçamos todos os pormenores, que nesse caso, são todas as outras coisas do mundo.
Amaram-se ali mesmo, no apartamento de Belchior. Reataram ali mesmo, e no seu casamento, todos comentavam:

- Que sujeito parecido com o Belchior aquele ali tocando violão.

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A triste história de Dias Passados



Aquele sujeito vivia ontem. Não que vivesse especificamente no dia de ontem, mas vivia sempre no que já passou. Caminhava na rua com a certeza de manhãs que já se foram, esperando por outro sol que não o de hoje. Pensava na beleza da chuva de outro dia e fugia sempre da chuva do presente.
Tinha por nome de batismo Dias Passados e fazia jus a tal graça.

Seu coração batia um tanto atrasado, e seus olhos desconjuntados jamais olhavam para frente; tinham, por hábito, estar sempre voltados para o lado esquerdo, com se quisessem ver algo que já passou. Tinha complicações em função disso, mas nunca podia ir ao médico, pois o maldito doutor atendia apenas no dia de hoje e hoje ele não queria.

Dias Passados era um sujeito pra lá de peculiar, pois pra ele nada poderia ser feito hoje, tudo deveria ter sido feito no que já passou e aí, quando ele olhava pra frente ou pro agora, nunca havia feito nada no ontem. Era óbvio para qualquer um – menos para Dias Passados – que quando não se vive o presente não se tem histórias para contar no futuro.

E ninguém pode dizer que ele não tentou. Dias Passados tentou, certa feita, olhar pro agora. Foi quando conheceu uma bela senhora, que o fez tentar esquecer do passado. Tentou o fazer viver no agora, porque decretou que ou era isso, ou ele não a teria. Dizem que mulheres mudam a cabeça de qualquer homem, pois qualquer homem no fim das contas apenas procura por uma bela mulher que o conforte em dias difíceis e que o afague e o esquente entre os seios nos dias de frio.

Durante uma semana, duas semanas e até três semanas deu certo. Até os olhos tortos voltavam de pouco em pouco para o lugar. Houve, contudo, um problema. Nos primeiros dias o sexo era fantástico, com direito a inúmeras variáveis e a um desempenho digno de filmes eróticos. Porém, o passar dos dias foi amuando Dias Passados, foi tornando-o incompetente, primeiro, insuficiente depois, e impotente por fim. Uma única explicação bastava para justificar o caso: para ele, o que acontecia ontem era sempre melhor.

A adorável senhora deixou Dias Passados, como todos deixam seus dias passados para trás, ou como todos deveriam deixar. No fim das contas, não foi só ela que o deixou. Seus amigos não aguentaram e o deixaram, seus colegas não aguentaram e o deixaram. Os parceiros do futebol não aguentaram mais o Dias Passados com sua camiseta de um clube que já passara, errando gols atrás de gols, sempre porque a bola chegava antes, e o deixaram.

O mundo não se preocupava mais com Dias Passados. Todos o esqueciam, mas ele seguia perdido em meio a um mar de pensamentos...pensamentos esses de coisas que já haviam passado, pois para aquele único sujeito, os dias que passaram seriam eternamente melhores dos que os que ainda virão.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A musa impressionista




O programa de ilustração já estava instalado há alguns meses em seu computador, mas ele ainda não tivera coragem. Vinha reunindo excitação, buscando inspiração nos mais diversos lugares até deparar-se com o momento certo. Esse momento chegara; era hoje, era agora.
Abriu o programa e iniciou os rabiscos na pequena mesa preta que transmitia sua arte da vida real para o computador. Um traço, dois, três, quatro...um esboço, uma forma, um rosto, um corpo, uma alma. Ali, em seu computador, algo se formou, e se formou saído de um lugar inimaginável, se formou ali uma vida oriunda diretamente de sua própria cabeça.
Inseriu naquele computador o desenho da mulher mais linda que já vira até hoje e surpreendeu-se ao terminar a obra  de arte. Ali estava um desenho de dar inveja à gênios impressionistas, ali estava uma obra capaz de arrancar suspiros de Michelangelo’s, Da Vinci’s e outros tantos renascentistas. Aquela era, por certo, uma obra prima em forma de arte; aquela era uma obra prima em forma de mulher.
O realismo era tão grande que ele podia ver seus belos lábios carnudos tremulando conforme sua frágil respiração. Podia perceber os fios de cabelo pretos e ondulados balançando e descobrindo sutilmente seu avantajado busto conforme o vento lhe atingia. Ele podia ver seus olhos grandes e castanhos piscando de segundos em segundos. Por Deus que aquele desenho parecia manifestar um anseio por vida própria, por Deus que aquela era uma obra tão real a ponto de ser...real.

“Puta que pariu, o meu desenho tá vivo!”, ele pensou ao perceber que não fora o efeito do uísque, nem do pequeno cigarro que acabara de enrolar em papel seda. Aquela mulher do desenho estava viva e manifestava toda sua vitalidade através de belas e singulares piscadas sensuais e objetivas.  
Ele perguntou, com receio e com voz trêmula:

- Tu...tu...está viva?
- O que mais tu esperava. Tu não me criou para ser uma companheira? Não me desenhou para ser mais real que qualquer obra impressionista? Voilá!, a tecnologia a teu favor, bebezão.
- Bebezão? O que é isso, eu criei uma obra de arte que se expressa em francês e me chama de bebezão?
- Eu sou o claro e manifesto desejo da tua mente. Vim para dar significado a tua vida e te encher de euforia. Vim para te mostrar que a vida é muito mais do que cinco dedos. Vim te mostrar que a vida é mais do que meia dúzia de sites pornôs que te alegram todos os dias. Vim ser teu gozo, vim ser teu sexo, vim ser tua musa...acima de tudo, vim ser tua mulher.
Ele não podia entender. Não era possível que aquilo estivesse realmente acontecendo. Um desenho não poderia derramar-se à vida assim e ele considerava-se insano ao conversar com a tela de seu próprio computador. Eis que, como num passe de mágica, ou numa obra de Gogol, ele não mais precisou falar com o computador. Aquela bela mulher desenhada saiu de dentro de seu pequeno lar como quem pula uma janela e, graciosamente, vai ao encontro do namorado de colégio.
Ela estava ali, virada em sensualidade, lábios e busto, bem na sua frente, pronta para dar a ele todo o prazer que em seus 25 anos de vida não tivera. Direto de sua mais cálida e terna imaginação...oriunda das profundezas mais libidinosas do seu ser, ali estava a ama do seu tesão.
A conversa não se estendeu por mais um segundo sequer, pois ela foi logo lhe abrindo o cinto, o zíper, e acalentando seu membro timidamente rijo entre os lábios, demonstrando o quanto entendia o que estava fazendo e dando-lhe prazer como só um personagem criado por ele mesmo poderia dar.
Foi a noite mais linda de sua vida. O prazer jorrou-lhe o corpo todo, uma, duas, três, quatro vezes. Depois de tudo, ela lhe tagarelou. Contou-lhe da vida curta, falou-lhe de seus problemas, contou da desgraça que era estar presa na imaginação, falou que por vezes estapeou-se com personagens de jogos de vídeo games que insistiam em roubar-lhe o lugar nos pensamentos dele. Falou-lhe do tanto que achava a mãe dele chata, falou – mal – sobre o time dele...falou, falou, falou...
Ela falou tanto que o fez entender que, por vezes, há desejos que não devem sair da mente. Ela falou tanto que o fez entender que mesmo a melhor (e única) noite de sexo de sua vida pode se fazer pequena ao lado da tranquilidade de sua mente. Ela falou tanto a ponto de deixar-lhe claro que há pensamentos que, por mais que estejam dentro de nossa cabeça, não devem jamais ser levados a cabo.
Enquanto ela falava, ele vagarosa e sorrateiramente esgueirou-se até o computador, iniciou o programa de ilustração, selecionou a borracha e pouco a pouco o silêncio se fez.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Um mar de aparências

O litoral gaúcho reserva surpresas inimagináveis. São centenas e centenas de quilômetros compondo algumas das menos favorecidas praias que esse mundo já viu. Há, é verdade, praias que possuem sua beleza peculiar, como Xangri-lá, outras são grandes centros, como Tramandaí, outras realmente são belas, como Torres, e há praias que não oferecem nenhuma dessas opções. Em especial, há uma praia que não oferece nenhuma dessas opções, e ela chama-se Arroio Teixeira.
A estória que segue fala sobre amigos, mas não amigos qualquer. Fala sobre amigos de Facebook, amigos de Instagram, daqueles que há hoje em dia, preocupados muito mais com as postagens na grande rede, do que em refestelar-se no Sereia's Bar, em Arroio Teixeira. Essa é uma história sobre o tempo que muda, e sobre as pessoas que, cada vez mais, mudam com o tempo.

Passava um pouco do meio-dia quando a Estrada do Mar levou-os diretamente para dentro de Arroio Teixeira, uma pequena praia do litoral gaúcho, pertencente a Capão da Canoa, essa sim, uma grande cidade. Em Arroio Teixeira as coisas são íntimas, as pessoas se conhecem, as ruas são ruelas, os amigos se encontram, os sentidos se aguçam. Vá lá que é uma praia feia, mas na companhia de amigos, todas as coisas se ajeitam e a vida sempre é mais bela.

-Puta que pariu que praia feia do caralho, Ramiro! - declarou solene, tão logo ingressaram na pequena praia, o Tamanduá.

- Não é feia, cara, só é pouco explorada – defendeu-se o Ramiro que, afinal de contas, havia sugerido o lugar aos amigos, e possuía uma singela casa na prainha.

- Cacete. Cadê as pessoas, cadê a galera, as festas, as músicas? Cadê a civilização? - emendou o Luís Pedro.

- Ah, meu. Arroio Teixeira tem seu charme. Não é muito bonita, mas a gente sempre acha o que fazer. Tem um monte de gente conhecida, e a gente pode comprar cerveja, assar uma carne, conversar. Há quanto tempo não nos reunimos? Quanto tempo que eu não converso com vocês? - seguiu Ramiro na defensiva.

- Mas tu tá muito veadinho, Ramiro. A gente quer muvuca. Como é que eu vou postar no Instragram que to numa merda dessas? - replicou o Luís Pedro.

-Nem tem check-in nessa porra de praia! - bradou o Tamanduá.

Ramiro, ao ouvir aquilo, silenciou. Não havia solução para o caso que se apresentava. A retórica praticamente não encontrava argumentos para convencer aqueles dois sujeitos de que Arroio Teixeira tinha algo a lhes oferecer. Ele conhecia os encantos de Arroio Teixeira, sabia que a praia fazia as pessoas felizes, porque era justamente uma praia onde as pessoas estavam felizes. Arroio Teixeira era uma praia de gente legal, mas não era uma praia de Facebook. Sendo assim, uma única alternativa plausível lhe restava; havia uma única saída para que seus amigos não o surrassem pela escolha da praia. Ramiro, mesmo reticente, com apenas um fio de voz, comentou:

- Atlântida é pertinho daqui.

Aquele comentário serviu para alvoroçar o ânimo dos presentes e lhes arrancar urros de contentamento. Atlântida sim era lugar para eles. Afinal de contas, não importa se o almoço é sardinha, o que importa é arrotar salmão. Assim, combinaram a estratégia: apenas dormiriam em Arroio Teixeira, e durante o dia, não arredariam pé da mais badalada praia do litoral gaúcho.

No primeiro dia de praia, as hashtags bombaram nas redes sociais, e cada foto dos amigos não tinha menos que 30 likes. #Atlantida #mulherada #loucuraematlantida #altonivel #ondeficaarroioteixeira?, manifestavam-se em cada legenda das milhares de fotos sem camisa que tiravam e postavam em redes sociais.
Aquilo sim era vida para Luís Pedro e para Tamanduá, porém, Ramiro não pensava assim. Logo no primeiro dia ele quase desabafou com os amigos. Quase lhes revelou que aquilo tudo era uma grande de uma putaria. Não era possível que para manter aparências preterissem Arroio Teixeira daquela forma. Não era possível que depois de tanta alegria vivida na popular Texa's Beach, ele simplesmente rumasse a uma praia vizinha para que suas postagens no Facebook fizessem mais sucesso, ou para fingirem que eram da elite social. Ramiro sabia que aquilo era fingimento. Sabia que essa elite social não lhes pertencia e pouco se importava com isso, porque a única coisa que importava a ele, era ser feliz. Era evidente que ele queria ganhar dinheiro, era sabido que ele trabalhava muito para buscar isso, mas enquanto isso não acontecia, ele colocava-se no seu lugar, e não era um mau lugar. Era um lugar de gente autêntica, gente que não negava o que era, que era feliz com o que tinha. Ramiro era um sujeito diferente.
Para evitar uma reação colérica diante daqueles dois babacas que Ramiro já não conhecia mais, levantou-se da mesa do bar de beira de praia que estavam, e com uma postura digna da mais alta nobreza, declarou a frase que jamais sairá da cabeça de Luís Pedro e Tamanduá:

- De nada adianta gozar com pinto dos outros!

Dito isso, Ramiro foi desfrutar de tudo aquilo que Arroio Teixeira tinha a oferecer. Luís Pedro e Tamanduá não tinham mais onde ficar e, assim sendo, retiraram-se do litoral gaúcho e voltaram para suas respectivas casas, afinal de contas, mentiras sempre duram pouco.



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Eu não escrevo romances




(Como seria um conto romântico escrito por Camus, Kerouac, Robbins, e outros daqueles que mostram que a vida é mais simples do que poética)

Teve um dia que eu saí de casa. Coloquei meus óculos escuros, tomei uma dose de Jack Daniel's cowboy, duas aspirinas e, sem me preocupar com figurino ou aparência, toquei-me porta afora. Saí determinado, até a primeira rajada de vento me trincar por dentro e me lembrar que frio do cacete fazia naquele dia. Voltei. Vesti um casaco de lã e aí sim saí, mais determinado do que antes.

Como eu sou homem e homem anda com verdade, anda demonstrando o quão seguro é, fiz isso. Andei batendo os pés no chão, com força, marcando meu território e mostrando a todos aqueles bunda-moles que desfilavam suas caras blasé ao meu redor o quanto aquilo me pertencia e o quanto eu estava pouco cagando pra eles.

Meus sentimentos me socavam a cara e só o que eu queria era poder chegar logo na porra daquele lugar e resolver aquela situação, porque é absolutamente medíocre e prosaico permanecer débil diante de algo que se pode resolver com um lance, com poucas palavras. Quem sabe eu resolvesse tudo com apenas um gesto.

Não era pra ser, mas um cara saiu correndo e se atravessou na minha frente. Babaca era aquele cara, porque me rodeava como um louco e balançava os braços e pernas freneticamente. “O que tu quer?”, perguntei pra ele. “Mim não querer nada”, ele disse.

Que diabos! Só me aparecem loucos. “Então 'mim' vá não querer nada pro lado de lá, rapaz”, eu disse e empurrei ele. Ele caiu e ficou lá, se balançando como um epilético. Eu não dei bola, porque sabia que ele não tava fazendo aquilo porque era epilético; fazia porque era louco, ou porque queria me incomodar.

Continuei andando e pouco me importando para aquele idiota, mas pensando também no porque de tanta gente louca me cercar sempre. Estou sempre perdido em meio aos loucos e àqueles que não sabem o que querem da vida. As pessoas são atraídas por atitudes, então eu me perguntava o que de errado eu estava fazendo? Como estava me comportando para aquele gente toda estar sempre em volta de mim. Que gente chata do caralho. Que me deixassem em paz, porque eu não aguento louco. Eu não quero aguentar loucos. Eu me basto.

E tem outra coisa. Eu li muito pouco Freud e consumi muito pouca filosofia pra saber o que eu tenho feito de errado. Eu sou um boca aberta e não tenho capacidade para saber se as pessoas loucas param perto de mim, porque eu sou louco, ou justamente porque não sou. Não cabe a mim decidir isso. Cabe a mim, sim, dizer a essa gente chata que eu não quero elas perto de mim. Não quero que elas fiquem me enchendo o saco, porque eu não gosto nem das pessoas legais, imagina então das chatas. Deem um tempo.

Em todo o caso eu já nem pensava mais isso quando cruzei por aquele chafariz lotado de pombos. Eu odeio pombos, porque eles não podem me ver sem cagar em mim. Todo pombo me vê como um alvo. Eu devo ser vermelho e deve estar escrito “100” na minha cabeça e o pombo de melhor mira, que me acertar, ganha um prêmio. “Pombos filhos-da-puta, me cagaram!”.

Dessa vez eles erraram a cabeça, mas acertaram a droga do meu casaco preto. Juntei um jornal velho do chão e limpei a porcaria que me fizeram os pombos. Não queria perder meu tempo com drogas como aquela, então segui adiante.

Agora sim eu estava chegando onde queria e já começava a pensar outras bobagens. Tava pensando no quanto de Stephen Dedalus cada um de nós tem. No quanto um dia pode ser uma odisseia como a de Ulysses, e como as pessoas podem fazer de situações ridículas e simplórias ocasiões formidavelmente orgásticas. É claro que eu não teria a resposta, mas parto do princípio que a vida, na maioria das vezes é uma grande bobagem totalmente sem graça, então, a não ser James Joyce, ninguém mais a deixaria divertida.


Mas aí, eu consegui chegar onde quis chegar desde o começo. E lá estava você, com a mesma cara que sempre teve, com os mesmos olhos claros, o mesmo cabelo loiro ondulado, com a mesma boca feita para ser beijada. Lá estava você com aquela cara de quem diz: “aqui estou eu, e sou toda sua”.

Caminhei ainda mais determinado até você, e quando cheguei, te beijei demoradamente, e apartei bem o teu corpo contra o meu. Depois disse que te amava e você concordou. Aí, a gente se deu as mãos e saímos caminhando como dois namorados, e não nos importamos se havia ou não gente idiota ao nosso redor; dali por diante, não haveria loucos...dali por diante haveria apenas nós dois.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

As melancias se ajeitam



Noutro dia, enquanto eu estava em Buenos Aires pensava no que muitos pensam quando estão em Buenos Aires: Jorge Luis Borges. Pensava no quão difícil é, para um sul-americano perpetuar seu nome nos anais da historia literária, valendo-se unicamente de talento, e enquanto pensava isso, bateu-me um desânimo por lembrar que mesmo os maiores autores brasileiros não têm sua obra vista como realmente influente ao redor do mundo. Aí pergunto-me: e eu?
É evidente que eu, em minha humilde insignificância, nem sequer almejo colocar minha obra literária (aqui há o espaço para risadas) nas estantes de livrarias do mundo todo e ter meu nome comparado ao dos maiores escritores que já existiram, por que a mim não falta uma coisa que falta a muitos: noção. O que acontece é que eu me sinto frágil quando percebo que, mesmo escasso, o dom da escrita é um dos únicos que tenho e ele não vai me levar a lugar nenhum. Entende o meu desespero?
Quando eu vejo, por exemplo, que o Fitzgerald escreveu o antológico “Great Gatsby”, com 28 anos, eu penso: “Deus do céu, o que esse mundo reserva pra mim?!”, aí preocupo-me exacerbadamente com o meu futuro, mas ao mesmo tempo me desgosto do presente, por que os anos doismil do Brasil são tão mais chatos do que devem ter sido os anos 1920 nos States, e me consolo um pouco.
Sabe o que? Eu me preocupo demais com o meu futuro por que essa é uma condição irrevogável do ser humano, e digo mais: há duas preocupações constantes na cabeça das pessoas; uma delas é com o passado e a outra é com o futuro. Por que o passado sempre foi bom e o futuro sempre precisa ser bom. Só que existe uma coisa chamada presente e é nele que vivemos. Que te parece?
A nostalgia do passado está tão entranhada no teu peito quanto está no meu, por que nós sempre olhamos pra trás e dizemos: “que tempo bom que não volta”, só que quando estávamos no tempo bom que não volta, olhávamos pra frente e pensávamos: “daqui cinco anos eu quero ser rico”, ou olhávamos mais pra trás ainda e dizíamos: “tempo bom que não volta”, outra vez. Ô coisa chata que nós somos.
Enquanto estamos olhando pra frente ou para trás, esquecemos que há uma ligação entre esses dois estados temporais, um momento no qual realmente podemos fazer as coisas, ou seja, um período de tempo no qual podemos saudar o passado e preocuparmos-nos com o que ainda está por vir. Chamamos isso de presente.

A vida é curta demais para que nos preocupemos com algo que já passou ou que ainda está por vir. O melhor é gozar o tempo todo, entendendo que com o passar do tempo e o andar da carruagem todas as melancias certamente se ajeitarão, e, mesmo que faça sentido, é por usar frases como essa das melancias que eu me preocupo cada vez mais com o meu futuro e me certifico que não chegarei aos pés de Fitzgerald, o que pouco me importa, afinal de contas, o Fitzgerald é passado, e eu, a partir de hoje, só vivo o presente.