domingo, 18 de novembro de 2012

Amarelo






Quando ele acordou não tinha bem certeza de onde estava. Não lembrava de nada da noite anterior e a única certeza que tinha era de que tinha bebido mais do que em toda sua vida. Seu corpo doía e teve até receio de que pudesse ter levado uma considerável surra há poucas horas, ou de algum bruto selvagem ou de alguns copos de uísque.

Com alguma dificuldade levantou-se da cama e deu-se conta de que estava em um motel barato no centro da cidade. Com quem dormira ali? Sentou-se na cama e sua bunda não doía, o que lhe trazia um certo conforto. Sem muito esforço pegou uma garrafa d'água que estava no criado mudo ao lado da cama. Até aquela água tinha um gosto pútrido que o remetia ao álcool. Ali fizera a promessa de que jamais voltaria a beber – pela décima quinta vez.
Levantou-se e foi até o banheiro lavar o rosto e esvaziar a bexiga que o estava atordoando. Depois de feita sua necessidade, encaminhou-se à pia e só então viu o que deveria estar claro desde que acordou, estava amarelo. PUTA QUE PARIU, estava amarelo.
Que diabos de doença era aquela? Amarelão, hepatite, estava ficando japonês? Que merda era aquela?
Puxou no fundo da memória e nada, não conseguia lembrar o que acontecera na noite anterior, mas era inegável que o que quer que tivesse acontecido era o responsável por lhe deixar estupidamente amarelo.
Bom, fosse o que fosse, precisava achar um médico. Resolveu que não iria sequer lavar o rosto que vai que aquilo piorasse. Olhou para as mãos e adivinha só? Amarelas. Os pés? Amarelos. Todo amarelo, até as bolas.

Como não encontrou suas roupas, vestiu-se com um roupão esfarrapado do motel, pegara sua carteira e foi-se em busca de um desgraçado de um médico.

Continua.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O Treinador do Sofá


Diziam que o Figueira era esquentado demais, que não podia ver um jogo de futebol sem xingar juiz, jogadores adversários e até do seu time. Ele gritava e gritava e gritava. A esposa evitava ficar na sala na hora do jogo e vez que outra debochava: “Fala mais alto, amor, que eles não estão ouvindo”.
O futebol era sua paixão. Desde muito moço ele inseriu-se no meio, chegou até a trocar alguns passes no São José, mas lá pelas tantas desistiu. Foi ser Professor. Que desgraça na vida do figueira, poderia ser jogador e ganhar uma fortuna; preferiu ser professor e ganhar...deixemos assim.

Só que com quase 60 anos, a vida lhe ensinara muitas coisas e uma delas era quase todos os macetes do futebol. Outra coisa ensinada pela própria vida é que pode-se esperar tudo, até o que é estritamente inesperado, e foi isso que aconteceu.

Certo dia, sentado na poltrona de casa, o treinador do time falou com o Figueira.
O jogo era duro e o adversário era cascudo. O primeiro colocado do campeonato, forte postulante ao título e o empate arrastava-se até o início do segundo tempo. Quando ele gritou do sofá: “Coloca o Novalgina, seu burro!”. O treinador ouviu. Estampou sua face no retângulo da TV ( que agora TV é em retângulo e de plasma) e retrucou: “Se tu fosse um técnico tão bom, tu saberia que o Novalgina tá com dor de cabeça e foi poupado”.


Ele não entendeu. Como assim que o treinador estava falando com ele. Gritou para o filho mais moço: “o guri, essa TV é daquelas 3D?”. Não, a TV não era 3D e o treinador realmente falara com ele, pois lá pelas tantas falou de novo: “É contigo mesmo. Qual a sugestão que tu me dá? Tenho que tirar aquele Adalto do time, ele tá com a cabeça na ex-mulher, que terminou com ele semana passada e levou metade da grana.”

A partir daí começou um diálogo surreal:

- O Tomás tá no banco. Esse guri tem futuro. Vi uns jogos dele no sub-20.
- Mas vou colocar ele na fogueira? Precisamos ganhar o jogo, e o torcedor tá impaciente. Se eu colocar ele, vai ter que ser pra resolver.

- Coloca ele. Essa gurizada nova precisa ter responsabilidade
- É por tua conta e risco?
- Sim.
- Vou colocar, então.


E o Tomás entrou. No primeiro lance, recebeu a bola no meio campo, deu uma meia lua no volante, driblou o zagueiro da sobra e acertou um chute na gaveta. Golaço! 

O jogo terminou com aquele petardo do Tomás e o treinador foi ovacionado, enquanto o comentarista esportivo dizia que ele tinha estrela. Em casa, o Figueira atordoado perguntava-se como aquilo havia de ter acontecido? Que tecnologia era aquela que fazia dois seres humanos conversarem assim?

Uma coisa, porém, era certa. O Figueira entendia de futebol. O Tomás entrara, dera conta do recado, e agora, enquanto o treinador era festejado, ele percebeu que também em casa lhe agarravam o braço em comemoração. Quando olhou para o lado percebeu o motivo daquela entusiasmada chacoalhada. Viu o amável rosto da ordinária da sua esposa, com aquela maldita e estraga prazeres boca falando:“Acorda Figueira, acorda!”.

Figueira olhou para a TV e viu que o jogo terminara 1 a 0 pro time adversário. O Tomás entrara em campo e no primeiro lance foi expulso. Aliviado por não ser o responsável pela derrota, levantou do sofá, limpou a baba que escorria ao lado da boca, e foi dormir na cama.


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Só depois de crescer, pude entender o quão pequeno eu sou.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O discurso



O discurso dele era sempre ao contrário, começava no fim, e terminava no começo, invariavelmente. Alguns o diziam obtuso, outros louco, a maioria o considerava um gênio da retórica, e o era. Sem qualquer demonstração de humildade, subia ao palanque gritando, entusiasmado:


- Por que é assim que eu vou, meu amigo eleitor, salvar a nossa cidade. É assim que eu vou terminar com a corrupção, exterminando a raça de bandidos que hoje ocupa nosso paço.

As pessoas olhavam-se desconfiadas, ao que ele continuava:

- É assim que vou fazer com que todos sejam mais felizes, mais ricos, paguem menos impostos. É dessa forma que eu mostrarei ao mundo as belezas da nossa linda Bela Capivara do Sul!

Os olhares seguiam desentendidos, porém, alguns brados já começavam a surgir na multidão.

- Tenham certeza, que só assim poderemos viver em paz, e só assim teremos empregos, teremos saúde e só assim teremos educação de qualidade.

Pequenos aplausos na multidão.

- E digo mais. Essa é a maneira mais fácil de você, amigo eleitor, conseguir comprar sua casa própria, conseguir pagar suas contas, conseguir comprar os remédios para o parente doente. É assim que nós vamos mudar essa cidade, e Bela Capivara do Sul vai tornar-se o que há de melhor infraestruturado em todo o nosso Planeta!

O incentivo começou a tomar conta. Gritos de apoio e aplausos já eram a maioria. As pessoas entenderam que aquele era o candidato correto. Era nele que votariam para uma Bela Capivara do Sul melhor.

- Não há, na história dessa cidade, outra forma. Nós vamos mudar tudo o que está errado, vamos acelerar o desenvolvimento, vamos pujar os negócios e apostar no turismo. Bela Capivara do Sul será a nova Gramado. E é só assim que conseguiremos fazer com que isso aconteça.

A multidão enlouqueceu. Gritos ensandecidos de apoio, misturados a assobios e estrondosos brados, o fizeram entender que aquele era o momento. Seu discurso estava prestes a terminar, e ele precisava termina-lo onde era mais adequado, no começo.

Quando alguém, certamente instruído a fazer aquilo, gritou em meio à multidão:

-E qual é essa solução mágica que fará com que Bela Capivara do Sul se transforme?

O candidato encheu seus pulmões e declarou:

- A mentira, caros eleitores, a mentira!

O candidato saiu do palco, e seus cabos eleitorais entregaram o santinho à multidão: “Afonso da Silva. Vote em quem fala a verdade, mesmo que seja mentira”.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Que Samuel?



Foi num almoço qualquer, de um dia qualquer, em uma ocasião qualquer. O que se sabe apenas é que aconteceu em uma cidade de interior, onde quase todos se conhecem e onde todos sabem da vida de todos, antes mesmo dos respectivos donos de suas próprias vidas saberem.
         
          - Sabe o Geraldo?
    - Qual Geraldo? O filho da Dionete?

    - Não, não. O Geraldo casado com a Taís, que é irmã do Tomás.

    - Mas então, a mãe do Geraldo é a Dionete.

    - Não, a mãe do Geraldo é a Janete. A Dionete é irmã dela, mãe da Samara e do Felipe, sabe?

    - Ah sim, a Samara casada com o Tadeu?

    - Não, a Samara tem cinco anos.

    - Ah é. Mas e o Geraldo?

    - Que Geraldo?

    - O Geraldo filho da Janete, casado com a Taís.

    - Ah sim. Pois é, encontrei ele outro dia, e sabe o que ele me falou?

    - O que?

    - Que a Dominique, sabe a Dominique?

    - Não.

    - A que mora ali do lado do Jorge que arruma as máquinas de lavar roupa. Acho que a mãe dela era casada com o Cirilo, da van.

    - Ah sim. Sei sim, ela é meio prima daquele tiozinho do bigode que veio lá de Alegrete.

    - Isso!

    - Tá, e o que tem a Dominique?

    - Que Dominique?

    - A Dominique que o Geraldo te falou.

    - Ah sim, pois é, ele comentou que ela tá grávida do Samuel.

    - Que Samuel?

    - O Samuel que era casado com a Diana. Filho da Clotilde. Ele tem uns 30 anos e mora com ela ainda. Moram ali perto do cemitério, sabe?

    - Samuel, Samuel...não sei se to lembrado.
    - Tu deves conhecer. Ele é um baixinho, meio gordinho, tem um carro preto, bem novinho.

    - Sabe o que eu tava pensando, mãe?

    - O que, Samuel?

    - Que eu acho que eu me lembrei bem da Dominique.

    - Que Dominique? - pergunta dona Clotilde, mãe do Samuel que engravidou a Dominique, cuja mãe era casada com o Cirilo dono da van.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Tenha Orgulho Você Também


Foi ali, dividindo o diminuto espaço do meu assento no ônibus, com um senhor que dormia fervorosamente e espalhava seu corpanzil por sobre a área que deveria ser destinada ao meu pobre ser, que percebi uma coisa que já me deveria ser clara: as pessoas amam Gramado.
Estive em Porto Alegre outro dia, o que não é lá grandes coisas. Gosto da capital riograndense, gosto de ir ao Redenção, de passear pelo Moinhos de Ventos, ou até pelo Menino Deus. Gosto acima de tudo de ir ao Olímpico Monumental, mas isso não vem ao caso agora. O que acontece é que não estou preparado para ir a Porto Alegre. Sou um colono convicto, e a cidade grande me atordoa. Fico zonzo com aquele burburinho todo, com aquelas sinaleiras, aqueles táxis, Deus, há um táxi a cada oito passos, e eles surgem de algum lugar no infinito, onde deve haver milhões de táxis esperando a hora certa para cruzar ensandecidamente as ruas da capital do rincão. Passei uma noite, uma manhã e um começo de tarde em Porto Alegre e já queria voltar correndo para Gramado, e sabe o que eu fiz? Voltei correndo para Gramado.
Fui de ônibus para Porto Alegre, por que é sabido que o trânsito da capital é um inferno e eu, como deve ser contigo, quero distância do inferno, mas quando vou até ele, vou de lotação que é mais seguro. Aí, tendo ido de ônibus, me restou também regressar para minha terra natal de ônibus, justo né?
Depois de reunir minhas moedinhas e comprar a passagem de volta resolvi fazer o que se esperava que eu fizesse: procurei o box de partida, e por diabos que não achei! Ou a rodoviária ou eu, alguém estava obtuso de informação, e tenho a impressão de que era eu. Fato é que por sorte encontrei um amigo zanzando por lá e adivinha só, ele ia para Gramado.
Achado o box, embarcar no ônibus eu consegui sozinho, só que percebi que já havia alguém sentado na poltrona ao lado da minha, e todos sabemos que é deveras inconveniente dividir espaços no ônibus, sendo assim, resolvi aplicar um golpe, sentei-me na poltrona de trás, que estava vazia e sem ninguém ao lado. Minha alegria e meu conforto terminaram no aeroporto, quando um simpático casal pediu-me licença, pois afinal de contas, compraram passagens cujas poltronas eram aquelas. Educado que sou, saí e me desculpei pelo “erro”.
Pois bem, aquela viagem não terminava nunca e o senhor do meu lado era gordo e roncava enquanto dormia. Veja bem, não tenho nada contra gordos, acho até que eu gostaria de ser gordo, só que dividir o espaço do ônibus com um gordo é algo lamentável, por que eu saio perdendo entende? Acabo sendo esmagado no meu pequeno espaço, por que ele precisa de mais espaço que eu.
Quando chegamos no pedágio de Três Coroas eu senti o entusiasmo tomar conta de mim, e da mesma forma percebi que tomava conta do resto do ônibus inteiro. Os comentários começaram a aumentar de tom, as pessoas começaram a se mexer em suas poltronas como se fossem atacadas por um exército de pulgas. Finalmente estava ali o pórtico que decreta que se chegou em Gramado, o ônibus explodiu de excitação. As pessoas empolgaram-se de forma vigorosa. Máquinas fotográficas foram sacadas como que em passe de mágica e lá estavam meus colegas de ônibus com seus flashes e registrando o que viam pelas janelas do coletivo.
Eles eram turistas, percebe? Turistas que embarcaram na parada do aeroporto e que estavam conhecendo uma nova cidade, e uma cidade que sem dúvida é diferente da deles. Eu prestava atenção nos comentários e na forma como as pessoas demonstravam estar embasbacadas com o que viam. A organização da cidade, a limpeza das ruas, a arquitetura arrojada. Juro que vi uma senhora com o rosto grudado na janela e cutucando seu marido, que estava ao lado, urrando para ele: “olha amor, olha, olha, eles param na faixa de segurança mesmo”.
Até eu, que passara poucas horas em Porto Alegre sentia-me aliviado, estava voltando para a minha cidade. Posso ter poucas qualidades, posso ser chato, ser feio, ser pouco esperto...posso ser qualquer coisa, mas sou gramadense, e fazer parte dessa cidade é um orgulho dos maiores que se pode ter.
O ônibus chegou, estufei o peito e desci na frente de todos, apontando para alguns dos visitantes, “ali vocês encontrarão táxis e para lá fica o centro”. Não perderia a oportunidade de mostrar para eles que eu sou de Gramado. Que orgulho, Santo Deus, que orgulho!