quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Que Samuel?



Foi num almoço qualquer, de um dia qualquer, em uma ocasião qualquer. O que se sabe apenas é que aconteceu em uma cidade de interior, onde quase todos se conhecem e onde todos sabem da vida de todos, antes mesmo dos respectivos donos de suas próprias vidas saberem.
         
          - Sabe o Geraldo?
    - Qual Geraldo? O filho da Dionete?

    - Não, não. O Geraldo casado com a Taís, que é irmã do Tomás.

    - Mas então, a mãe do Geraldo é a Dionete.

    - Não, a mãe do Geraldo é a Janete. A Dionete é irmã dela, mãe da Samara e do Felipe, sabe?

    - Ah sim, a Samara casada com o Tadeu?

    - Não, a Samara tem cinco anos.

    - Ah é. Mas e o Geraldo?

    - Que Geraldo?

    - O Geraldo filho da Janete, casado com a Taís.

    - Ah sim. Pois é, encontrei ele outro dia, e sabe o que ele me falou?

    - O que?

    - Que a Dominique, sabe a Dominique?

    - Não.

    - A que mora ali do lado do Jorge que arruma as máquinas de lavar roupa. Acho que a mãe dela era casada com o Cirilo, da van.

    - Ah sim. Sei sim, ela é meio prima daquele tiozinho do bigode que veio lá de Alegrete.

    - Isso!

    - Tá, e o que tem a Dominique?

    - Que Dominique?

    - A Dominique que o Geraldo te falou.

    - Ah sim, pois é, ele comentou que ela tá grávida do Samuel.

    - Que Samuel?

    - O Samuel que era casado com a Diana. Filho da Clotilde. Ele tem uns 30 anos e mora com ela ainda. Moram ali perto do cemitério, sabe?

    - Samuel, Samuel...não sei se to lembrado.
    - Tu deves conhecer. Ele é um baixinho, meio gordinho, tem um carro preto, bem novinho.

    - Sabe o que eu tava pensando, mãe?

    - O que, Samuel?

    - Que eu acho que eu me lembrei bem da Dominique.

    - Que Dominique? - pergunta dona Clotilde, mãe do Samuel que engravidou a Dominique, cuja mãe era casada com o Cirilo dono da van.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Tenha Orgulho Você Também


Foi ali, dividindo o diminuto espaço do meu assento no ônibus, com um senhor que dormia fervorosamente e espalhava seu corpanzil por sobre a área que deveria ser destinada ao meu pobre ser, que percebi uma coisa que já me deveria ser clara: as pessoas amam Gramado.
Estive em Porto Alegre outro dia, o que não é lá grandes coisas. Gosto da capital riograndense, gosto de ir ao Redenção, de passear pelo Moinhos de Ventos, ou até pelo Menino Deus. Gosto acima de tudo de ir ao Olímpico Monumental, mas isso não vem ao caso agora. O que acontece é que não estou preparado para ir a Porto Alegre. Sou um colono convicto, e a cidade grande me atordoa. Fico zonzo com aquele burburinho todo, com aquelas sinaleiras, aqueles táxis, Deus, há um táxi a cada oito passos, e eles surgem de algum lugar no infinito, onde deve haver milhões de táxis esperando a hora certa para cruzar ensandecidamente as ruas da capital do rincão. Passei uma noite, uma manhã e um começo de tarde em Porto Alegre e já queria voltar correndo para Gramado, e sabe o que eu fiz? Voltei correndo para Gramado.
Fui de ônibus para Porto Alegre, por que é sabido que o trânsito da capital é um inferno e eu, como deve ser contigo, quero distância do inferno, mas quando vou até ele, vou de lotação que é mais seguro. Aí, tendo ido de ônibus, me restou também regressar para minha terra natal de ônibus, justo né?
Depois de reunir minhas moedinhas e comprar a passagem de volta resolvi fazer o que se esperava que eu fizesse: procurei o box de partida, e por diabos que não achei! Ou a rodoviária ou eu, alguém estava obtuso de informação, e tenho a impressão de que era eu. Fato é que por sorte encontrei um amigo zanzando por lá e adivinha só, ele ia para Gramado.
Achado o box, embarcar no ônibus eu consegui sozinho, só que percebi que já havia alguém sentado na poltrona ao lado da minha, e todos sabemos que é deveras inconveniente dividir espaços no ônibus, sendo assim, resolvi aplicar um golpe, sentei-me na poltrona de trás, que estava vazia e sem ninguém ao lado. Minha alegria e meu conforto terminaram no aeroporto, quando um simpático casal pediu-me licença, pois afinal de contas, compraram passagens cujas poltronas eram aquelas. Educado que sou, saí e me desculpei pelo “erro”.
Pois bem, aquela viagem não terminava nunca e o senhor do meu lado era gordo e roncava enquanto dormia. Veja bem, não tenho nada contra gordos, acho até que eu gostaria de ser gordo, só que dividir o espaço do ônibus com um gordo é algo lamentável, por que eu saio perdendo entende? Acabo sendo esmagado no meu pequeno espaço, por que ele precisa de mais espaço que eu.
Quando chegamos no pedágio de Três Coroas eu senti o entusiasmo tomar conta de mim, e da mesma forma percebi que tomava conta do resto do ônibus inteiro. Os comentários começaram a aumentar de tom, as pessoas começaram a se mexer em suas poltronas como se fossem atacadas por um exército de pulgas. Finalmente estava ali o pórtico que decreta que se chegou em Gramado, o ônibus explodiu de excitação. As pessoas empolgaram-se de forma vigorosa. Máquinas fotográficas foram sacadas como que em passe de mágica e lá estavam meus colegas de ônibus com seus flashes e registrando o que viam pelas janelas do coletivo.
Eles eram turistas, percebe? Turistas que embarcaram na parada do aeroporto e que estavam conhecendo uma nova cidade, e uma cidade que sem dúvida é diferente da deles. Eu prestava atenção nos comentários e na forma como as pessoas demonstravam estar embasbacadas com o que viam. A organização da cidade, a limpeza das ruas, a arquitetura arrojada. Juro que vi uma senhora com o rosto grudado na janela e cutucando seu marido, que estava ao lado, urrando para ele: “olha amor, olha, olha, eles param na faixa de segurança mesmo”.
Até eu, que passara poucas horas em Porto Alegre sentia-me aliviado, estava voltando para a minha cidade. Posso ter poucas qualidades, posso ser chato, ser feio, ser pouco esperto...posso ser qualquer coisa, mas sou gramadense, e fazer parte dessa cidade é um orgulho dos maiores que se pode ter.
O ônibus chegou, estufei o peito e desci na frente de todos, apontando para alguns dos visitantes, “ali vocês encontrarão táxis e para lá fica o centro”. Não perderia a oportunidade de mostrar para eles que eu sou de Gramado. Que orgulho, Santo Deus, que orgulho!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A Culpa é da Física


É por isso que eu gosto de história. Há para tudo, ao longo da história, uma explicação ou uma fundamentação. Como a história já nos contou, por exemplo, havia, certa feita, uma tribo germânica que varou o império romano, saqueando a maior potência mundial daqueles tempos. Era famosa aquela tribo e eu quase consigo imaginar aqueles polacos enormes destruindo coisas, incendiando casas, saqueando lugares e estuprando inocentes italianinhas. Outra coisa absurda, que jamais pode-se imaginar, é que esses germanos ensandecidos destruíram obras primas romanas, e é possível que tenham privado a humanidade de maravilhas sem igual. Sabe o nome dessa tribo? Vândalos.

Entende agora, né? É por isso que chamamos de vândalos aqueles que sem qualquer pensamento racional destroem coisas, sejam elas públicas ou privadas. É uma póstuma homenagem prestada aqueles alemães bárbaros.

Como eu vinha falando, a história nos apresenta uma fundamentação para o nome vândalo, porém, não consegue justificar atos esdrúxulos como esse de botar fogo na decoração do Natal Luz de Gramado e por conseguinte em um dos pavilhões do ExpoGramado. Por sinal, eu duvido que haja uma mente gramadense sequer que não esteja tentando entender o por que desse ato absurdo contra o maior evento natalino que o Brasil já viu, e que gera lucros para 80 por cento da comunidade.
Eu sou um desses tantos gramadenses que tenta entender, tenta com todas as forças colocar-se no lugar daquelas três crianças, que “brincavam” com tíner e fósforos. E foi assim que cheguei a uma conclusão lógica: a escola é responsável por esse incêndio. Digo mais, o responsável verdadeiro por esse incêndio desolador é o professor de química desses três jovens. Ele não os ensinou que há uma reação entre tíner e fósforo, chamada de combustão.

Pobre professor, esqueceu-se de explicar para os imaculados jovens o que é a combustão, mas é difícil condená-lo, é dura a vida do mestre, afinal de contas, estamos vivendo numa época tão selvagem, uma época na qual ouve-se que alunos agrediram professoras, que alunos balearam professoras, que alunos ofenderam, cuspiram, pisaram e humilharam professoras e professores. Deve ser difícil dar aulas hoje em dia, e ganhar a fortuna de R$1,4 mil mensais. E tu sabe por que é tão difícil para o professor dar aulas atualmente? Por causa da globalização.

Não fosse a globalização, os pais estariam mais presentes na vida de seus filhos, não fosse a globalização, os filhos receberiam mais carinho dos pais. Não fosse a globalização, de repente os filhos até poderiam jogar vídeo game com seus pais duas vezes por semana. Mas há a globalização e ela impede que pais e filhos tenham uma relação próxima a de pais e filhos. Pais trabalham demais, o que é compreensível e deixam seus filhos ociosos tempo demais, o que também é compreensível. O problema todo é que um pai - e veja bem, não me refiro às famílias dos jovens ateadores de fogo, que eu sequer conheço e não as posso julgar -, acaba dando prioridade ao trabalho para sustentar o filho, o que é fundamental, porém, esquece-se de que é fundamental também que seu filho receba educação. A educação que me refiro não é a da sabedoria, não é a do conhecimento, é a boa educação. Os bons modos, as boas maneiras, o ensinamento do que é correto, do que é de bom tom e do que não se deve fazer. Havaianas, talvez falte marcas vermelhas de havaianas estampadas nas bundas da juventude.

Acontece que com a tal globalização, entende-se que é de função da escola criar indivíduos do bem e de boa índole e educação, só que não é. A escola precisa ensinar conteúdo e não boa educação aos nossos jovens. A função do pai é criar cidadãos descentes que não humilharão professores, nem sequer os balearão, ou qualquer coisa assim.

A criação de um bom homem passa diretamente pelos seus pais, mas a coisa toda de entender como funciona a reação entre tíner e fósforos, é responsabilidade do professor de química. Às favas com os direitos humanos, a culpa é toda do professor de química e o professor de física também tem participação nessa história. Não fosse ele esse incêndio jamais teria acontecido. Esse professor de física nunca me enganou, ele é responsável por muitas das tragédias do mundo, ele que disse que 'dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço'. O mundo globalizado levou isso a sério demais, e agora pais, filhos, amigos e amigas estão cada vez mais distantes.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Onde estão as minhas calças?


Era impossível que as calças pudessem ter sumido. Ninguém entrara ali, e ninguém sabia que estariam ali naquela hora. O que tinha acontecido? Uma sabotagem, é claro que fora uma sabotagem.
Como sairia dali com suas cuecas samba canção branca com coraçõezinhos vermelhos, meias a camisa azul claro e a gravata preta? O escritório inteiro riria dele? Aliás, o escritório inteiro não, a empresa toda, o prédio todo logo saberia do acontecido e ele seria o alvo das piadas mais infames que alguém poderia suportar.
Colocou a cabeça pra fora do arquivo morto e sussurrou:
- Mariana!?
Nada ouviu além do barulho ambiental, e um ou outro espirro a mais. Insistiu:
- Mariana!? Onde estão as minhas calças?
Nada.
Um plano, o Arnaldo teria que ter um plano, do contrário estaria arruinado, bem como o seu casamento que iria por água abaixo, junto com as malditas calças.
Depois de bater a cabeça oito vezes na parede, o Arnaldo resolveu apelar para a arma dos fracos: a espera. Sentou-se no chão, entre algumas caixas empoeiradas e lembrou-se que se tudo desse errado ainda teria a lembrança dos bons momentos com a Mariana. Aqueles beijos que lhe desceram o peito, dirigiram-se para a barriga que já estava nua e tão logo ela abriu seu cinto e baixou suas calças acomodou-se no lugar que ele esperava desde o começo. Que boca!
Melhor seria não imaginar aquele momento, pois como você sabe, as cuecas samba canção são como nada, e quando a libido aumenta, é como se nem o ar impedisse o amigão lá de baixo de se manifestar.
Só que tinha alguma coisa naquela lembrança que cheirava mal, e com certeza não era a Mariana, com aqueles cabelos dourados, e aquela pele de tez suave a aveludada, nem sequer aquelas pernas firmes sem qualquer adorno ou indicativo de musculação. Os seios fartos se acomodavam placidamente onde deveriam estar e até um pouco mais abaixo. Era uma mulher de verdade, não dessas que se vê na televisão. Era uma mulher daquelas que dá vontade de passar mais do que uma transa, e sim o dia inteiro.
O que cheirava mal era o Arnaldo lembrar que não fora ele quem tirara suas próprias calças e sim a Mariana. DESGRAÇADA! Levara suas calças consigo, sem dúvida de propósito, já fazia tempo que ela queria que ele terminasse o casamento, e essa foi mais uma de suas artimanhas para antecipar o divórcio do amante.
Com o sangue fervendo o Arnaldo lembrou-se do seu celular. Era claro, ligaria para a Mariana e ela devolveria a calça, ou ligaria para o Gonçalves, que sempre tinha uma calça sobrando no carro. Pronto, estava salvo, estava sal... puta que o pariu. O celular estava no bolso da calça.
- Eu mato a Mariana!
Já sem qualquer perspectiva de vitória, Arnaldo resolveu que faria a última coisa que lhe restava: sairia de lá, com suas cuecas de coração e com o coração na mão (que baita trocadilho). O Arnaldo poderia sair correndo, colocar um balde na cabeça, chegar até seu carro e sair como quem não quer nada, só que daí seria uma dupla vergonha, a de estar de cueca e de estar constrangido por estar de cuecas. Se era para ser o fim, ele assumiria o fim com ares de empáfia.
Abotoou a camisa, arrumou a gravata no pescoço, estufou o peito, puxou as cuecas um pouco mais para cima, baixou as meias pretas, enfiou o sapato, abriu a porta do arquivo e botou o primeiro pé na rua. Não havia ninguém. Quando colocou o segundo pé na rua, lembrou-se que havia retirado a carteira do bolso da calça e a colocado em cima daquela estante alta lá no fundo do arquivo, onde a Mariana o havia pelado e....
Santo Deus misericordioso! As calças também estavam lá. Tudo ficara claro como água para o Arnaldo, que lembrou-se de ter tirado as calças antes de consumar o ato com Mariana. Que momento tão alegre. Que êxtase divino. Aquilo sim era o ápice da vida de um homem de bem.
Vestiu suas calças de chino, estufou outra vez o peito, abriu a porta do arquivo e lá se foi.
Aquelas calças haviam salvado muito mais do que um casamento, elas salvaram o orgulho e a moral de um homem, o que quase sempre vale mais do que qualquer coisa.
A cueca branca de coraçõezinhos vermelhos era nova e até que combinava bem com a camisa azul, mas pensando bem, era melhor guardar aquele figurino apenas para a Mariana.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Criatura e o Criador

Aí estamos, meu "amigo" David Coimbra (D) e eu.

sexta-feira, 22 de junho de 2012