segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
A maior sacanagem do mundo
Toda
maldita vez em que estava em reunião aquele ordinário aparelho
telefônico tocava desesperadamente, como se fosse a última vez em
que tocaria em toda a sua porca existência. Acontece que o Aquiles
não sabia colocar aquela porcaria no silencioso. Toda vez era alguma
mensagem da operadora, lhe informando que a recarga premiada poderia
lhe render prêmios maravilhosos, como um liquidificador, uma
batedeira e um aquecedor a óleo.
Dessa vez
não era. O Aquiles pegou aquele celular com a mesma gana que pegava
toda vez que ele tocava quando estava em frente ao seu chefe. A
reunião não era das mais importantes, e então, olhando de soslaio
para o chefe, resolveu ler a mensagem:
“Oi
linda! Lembra de mim? Nos conhecemos na festa do Harry. Tu me deu teu
celular e resolvi te mandar essa mensagem”.
Pobre diabo, pensou o Aquiles, foi logrado pela moça. E aos diabos se o Aquiles pensou em poupar o pobre desgraçado. Tantas vezes fora alvo de chacota que agora, pelo sangue de Deus, ele iria se vingar. Enquanto o gerente de contas apresentava o relatório da semana, Aquiles valeu-se da habilidade que tinha naquele teclado touchscreen de tanto jogar Angry Birds. Respondeu:
Pobre diabo, pensou o Aquiles, foi logrado pela moça. E aos diabos se o Aquiles pensou em poupar o pobre desgraçado. Tantas vezes fora alvo de chacota que agora, pelo sangue de Deus, ele iria se vingar. Enquanto o gerente de contas apresentava o relatório da semana, Aquiles valeu-se da habilidade que tinha naquele teclado touchscreen de tanto jogar Angry Birds. Respondeu:
“Oi
amor! Eu realmente estava com saudades. Nos divertimos muito aquele
dia na festa, né? Beijos”.
Que filho
da puta era o Aquiles, e a sensação de ser um filho da puta era
fantástica. Sentia-se o maior vigarista do mundo e era tão bom.
Depois de enviar a resposta, apagou a mensagem recebida para que não
houvesse dúvidas sobre sua sexualidade.
A reunião
terminou e nada do amante responder. Aquiles saiu do trabalho e rumou
até a academia. Lá quase veio ao óbito ao correr 16 quilômetros
na esteira, e realmente quase infartou quando a loira mais sensual de
toda esfera terrestre resolveu balançar aqueles rijos seios
apertados em um minúsculo top cor de rosa, justo na esteira da sua
frente. Cada passado dado era uma sacudida naqueles deliciosos gêmeos
e aí, antes que efetivamente desmaiasse (por causa da corrida e da
loira), foi-se embora.
Nada de mensagem.
Chegou em
casa já tirando a roupa suada e declarando:
“Oi amor. Vou tomar uma boa ducha”.
Subiu as escadas ouvindo sua amada esposa responder que tudo estava bem.
“Oi amor. Vou tomar uma boa ducha”.
Subiu as escadas ouvindo sua amada esposa responder que tudo estava bem.
Deixou suas coisas todas no bidê ao lado da cama e rumou ao chuveiro. Quando o primeiro jato d'água atingiu seu dorso, assustou-se ao perceber que sua mulher estava no banheiro e perguntava: “amor, tu lembrou de pagar a escola das crianças, né?”.
Claro que
ele lembrara, Aquiles jamais esquecera-se de pagar.
“Lembrei
amor, é claro”.
A mulher do Aquiles, Dandara, era completamente apaixonada por ele. Faria qualquer coisa pelo homem da sua vida, porém, era deveras ciumenta. Não permitia qualquer deslize na vida conjugal do marido e até então, em mais de doze anos de casamento, ele havia sido exemplar.
A mulher do Aquiles, Dandara, era completamente apaixonada por ele. Faria qualquer coisa pelo homem da sua vida, porém, era deveras ciumenta. Não permitia qualquer deslize na vida conjugal do marido e até então, em mais de doze anos de casamento, ele havia sido exemplar.
Enquanto
descia as escadas para terminar de preparar a jantar, Dandara escutou
o esganiçado toque do celular de Aquiles e resolveu checar apenas
por descargo de consciência. Era uma mensagem.
Um número desconhecido.
“Realmente nos divertimos, adorei passar aquele tempo contigo e gostaria de te ver novamente. Amanhã à noite, que tal? Te espero em frente ao parque do centro”.
O filho da puta, brocha do Aquiles estava lhe traindo. Isso não ficaria assim. Dandara pegou o telefone e respondeu: “Combinado, nos encontramos lá”.
Um número desconhecido.
“Realmente nos divertimos, adorei passar aquele tempo contigo e gostaria de te ver novamente. Amanhã à noite, que tal? Te espero em frente ao parque do centro”.
O filho da puta, brocha do Aquiles estava lhe traindo. Isso não ficaria assim. Dandara pegou o telefone e respondeu: “Combinado, nos encontramos lá”.
É claro
que em seguida, Dandara apagou a mensagem enviada e terminou a janta.
Quando
saiu do banho, Aquiles sentia-se renovado. Foi até o bidê e
resolveu analisar se não havia nenhuma mensagem nova: havia. O cara
perguntava se não poderiam marcar um encontro em frente ao parque. É
claro que poderiam, Aquiles queria ver a cara do panaca.
No dia
seguinte, ao começar da noite, Aquiles, o tonto e Dandara
esperavam-se mutuamente, cada um num lado do parque.
Dandara estava escondida dentro de um carro alugado de vidros escuros, estacionado bem em frente ao parque.
Aquiles escondera-se atrás do tronco de uma árvore, enquanto seu filho, o Júnior, prestas a fazer 16 anos, acabara de desembarcar do ônibus e sentava-se no banco em frente ao parque.
Tão logo avistou seu filho, Aquiles achou que o Júnior pudesse ter lido a mensagem em seu celular e estivesse ali para espionar o pai, porém, o escrachamento da postura do filho revelara o mais óbvio: Aquiles havia sido filho da puta com o seu próprio filho, o que revelava que aquiles não era um simples filho da puta e sim o maior filho da puta de todos os tempos.
Dandara estava escondida dentro de um carro alugado de vidros escuros, estacionado bem em frente ao parque.
Aquiles escondera-se atrás do tronco de uma árvore, enquanto seu filho, o Júnior, prestas a fazer 16 anos, acabara de desembarcar do ônibus e sentava-se no banco em frente ao parque.
Tão logo avistou seu filho, Aquiles achou que o Júnior pudesse ter lido a mensagem em seu celular e estivesse ali para espionar o pai, porém, o escrachamento da postura do filho revelara o mais óbvio: Aquiles havia sido filho da puta com o seu próprio filho, o que revelava que aquiles não era um simples filho da puta e sim o maior filho da puta de todos os tempos.
Passados dez minutos Dandara saiu de dentro do carro e aí sim Aquiles desabou.
“Meu filho, o que tu estás fazendo aqui?”
“M...m...mãe?! Eu estou, hm, estou...”
“Tens um encontro, Juninho?”
“É, eu tenho, mas acho que levei um bolo”.
Agora
tudo fodera de vez e Aquiles precisava dar um jeito logo naquilo.
Pensou rapidamente e chegou a solução mais óbvia do mundo e que
qualquer homem no seu lugar faria: fugiu.
Acontece
que enquanto corria para longe daquela confusão, ouviu o grito de
Dandara: “AQUILES!”.
Como que desentendido, Aquiles virou-se e “surpreendeu-se” ao ver sua mulher e filho.
“Meus amores, o que fazem aqui?”
“Teu filho marcou um encontro contigo, Aquiles”.
Naquele momento, Aquiles entendera que ser filho da puta realmente não era sua função predestinada. Depois daquele dia, o Juninho envolveu-se com crack, Dandara respondera a um processo por espancar seu marido, e o Aquiles...ah, o Aquiles passado dias enfartou em frente à academia, quando a loira da esteira mandara-lhe uma mensagem:
“Podemos nos encontrar em frente ao parque do Centro?”.
A maior sacanagem do mundo
Toda
maldita vez em que estava em reunião aquele ordinário aparelho
telefônico tocava desesperadamente, como se fosse a última vez em
que tocaria em toda a sua porca existência. Acontece que o Aquiles
não sabia colocar aquela porcaria no silencioso. Toda vez era alguma
mensagem da operadora, lhe informando que a recarga premiada poderia
lhe render prêmios maravilhosos, como um liquidificador, uma
batedeira e um aquecedor a óleo.
Dessa vez
não era. O Aquiles pegou aquele celular com a mesma gana que pegava
toda vez que ele tocava quando estava em frente ao seu chefe. A
reunião não era das mais importantes, e então, olhando de soslaio
para o chefe, resolveu ler a mensagem:
“Oi
linda! Lembra de mim? Nos conhecemos na festa do Harry. Tu me deu teu
celular e resolvi te mandar essa mensagem”.
Pobre diabo, pensou o Aquiles, foi logrado pela moça. E aos diabos se o Aquiles pensou em poupar o pobre desgraçado. Tantas vezes fora alvo de chacota que agora, pelo sangue de Deus, ele iria se vingar. Enquanto o gerente de contas apresentava o relatório da semana, Aquiles valeu-se da habilidade que tinha naquele teclado touchscreen de tanto jogar Angry Birds. Respondeu:
Pobre diabo, pensou o Aquiles, foi logrado pela moça. E aos diabos se o Aquiles pensou em poupar o pobre desgraçado. Tantas vezes fora alvo de chacota que agora, pelo sangue de Deus, ele iria se vingar. Enquanto o gerente de contas apresentava o relatório da semana, Aquiles valeu-se da habilidade que tinha naquele teclado touchscreen de tanto jogar Angry Birds. Respondeu:
“Oi
amor! Eu realmente estava com saudades. Nos divertimos muito aquele
dia na festa, né? Beijos”.
Que filho
da puta era o Aquiles, e a sensação de ser um filho da puta era
fantástica. Sentia-se o maior vigarista do mundo e era tão bom.
Depois de enviar a resposta, apagou a mensagem recebida para que não
houvesse dúvidas sobre sua sexualidade.
A reunião
terminou e nada do amante responder. Aquiles saiu do trabalho e rumou
até a academia. Lá quase veio ao óbito ao correr 16 quilômetros
na esteira, e realmente quase infartou quando a loira mais sensual de
toda esfera terrestre resolveu balançar aqueles rijos seios
apertados em um minúsculo top cor de rosa, justo na esteira da sua
frente. Cada passado dado era uma sacudida naqueles deliciosos gêmeos
e aí, antes que efetivamente desmaiasse (por causa da corrida e da
loira), foi-se embora.
Nada de mensagem.
Chegou em
casa já tirando a roupa suada e declarando:
“Oi amor. Vou tomar uma boa ducha”.
Subiu as escadas ouvindo sua amada esposa responder que tudo estava bem.
“Oi amor. Vou tomar uma boa ducha”.
Subiu as escadas ouvindo sua amada esposa responder que tudo estava bem.
Deixou suas coisas todas no bidê ao lado da cama e rumou ao chuveiro. Quando o primeiro jato d'água atingiu seu dorso, assustou-se ao perceber que sua mulher estava no banheiro e perguntava: “amor, tu lembrou de pagar a escola das crianças, né?”.
Claro que
ele lembrara, Aquiles jamais esquecera-se de pagar.
“Lembrei
amor, é claro”.
A mulher do Aquiles, Dandara, era completamente apaixonada por ele. Faria qualquer coisa pelo homem da sua vida, porém, era deveras ciumenta. Não permitia qualquer deslize na vida conjugal do marido e até então, em mais de doze anos de casamento, ele havia sido exemplar.
A mulher do Aquiles, Dandara, era completamente apaixonada por ele. Faria qualquer coisa pelo homem da sua vida, porém, era deveras ciumenta. Não permitia qualquer deslize na vida conjugal do marido e até então, em mais de doze anos de casamento, ele havia sido exemplar.
Enquanto
descia as escadas para terminar de preparar a jantar, Dandara escutou
o esganiçado toque do celular de Aquiles e resolveu checar apenas
por descargo de consciência. Era uma mensagem.
Um número desconhecido.
“Realmente nos divertimos, adorei passar aquele tempo contigo e gostaria de te ver novamente. Amanhã à noite, que tal? Te espero em frente ao parque do centro”.
O filho da puta, brocha do Aquiles estava lhe traindo. Isso não ficaria assim. Dandara pegou o telefone e respondeu: “Combinado, nos encontramos lá”.
Um número desconhecido.
“Realmente nos divertimos, adorei passar aquele tempo contigo e gostaria de te ver novamente. Amanhã à noite, que tal? Te espero em frente ao parque do centro”.
O filho da puta, brocha do Aquiles estava lhe traindo. Isso não ficaria assim. Dandara pegou o telefone e respondeu: “Combinado, nos encontramos lá”.
É claro
que em seguida, Dandara apagou a mensagem enviada e terminou a janta.
Quando
saiu do banho, Aquiles sentia-se renovado. Foi até o bidê e
resolveu analisar se não havia nenhuma mensagem nova: havia. O cara
perguntava se não poderiam marcar um encontro em frente ao parque. É
claro que poderiam, Aquiles queria ver a cara do panaca.
No dia
seguinte, ao começar da noite, Aquiles, o tonto e Dandara
esperavam-se mutuamente, cada um num lado do parque.
Dandara estava escondida dentro de um carro alugado de vidros escuros, estacionado bem em frente ao parque.
Aquiles escondera-se atrás do tronco de uma árvore, enquanto seu filho, o Júnior, prestas a fazer 16 anos, acabara de desembarcar do ônibus e sentava-se no banco em frente ao parque.
Tão logo avistou seu filho, Aquiles achou que o Júnior pudesse ter lido a mensagem em seu celular e estivesse ali para espionar o pai, porém, o escrachamento da postura do filho revelara o mais óbvio: Aquiles havia sido filho da puta com o seu próprio filho, o que revelava que aquiles não era um simples filho da puta e sim o maior filho da puta de todos os tempos.
Dandara estava escondida dentro de um carro alugado de vidros escuros, estacionado bem em frente ao parque.
Aquiles escondera-se atrás do tronco de uma árvore, enquanto seu filho, o Júnior, prestas a fazer 16 anos, acabara de desembarcar do ônibus e sentava-se no banco em frente ao parque.
Tão logo avistou seu filho, Aquiles achou que o Júnior pudesse ter lido a mensagem em seu celular e estivesse ali para espionar o pai, porém, o escrachamento da postura do filho revelara o mais óbvio: Aquiles havia sido filho da puta com o seu próprio filho, o que revelava que aquiles não era um simples filho da puta e sim o maior filho da puta de todos os tempos.
Passados dez minutos Dandara saiu de dentro do carro e aí sim Aquiles desabou.
“Meu filho, o que tu estás fazendo aqui?”
“M...m...mãe?! Eu estou, hm, estou...”
“Tens um encontro, Juninho?”
“É, eu tenho, mas acho que levei um bolo”.
Agora
tudo fodera de vez e Aquiles precisava dar um jeito logo naquilo.
Pensou rapidamente e chegou a solução mais óbvia do mundo e que
qualquer homem no seu lugar faria: fugiu.
Acontece
que enquanto corria para longe daquela confusão, ouviu o grito de
Dandara: “AQUILES!”.
Como que desentendido, Aquiles virou-se e “surpreendeu-se” ao ver sua mulher e filho.
“Meus amores, o que fazem aqui?”
“Teu filho marcou um encontro contigo, Aquiles”.
Naquele momento, Aquiles entendera que ser filho da puta realmente não era sua função predestinada. Depois daquele dia, o Juninho envolveu-se com crack, Dandara respondera a um processo por espancar seu marido, e o Aquiles...ah, o Aquiles passado dias enfartou em frente à academia, quando a loira da esteira mandara-lhe uma mensagem:
“Podemos nos encontrar em frente ao parque do Centro?”.
domingo, 18 de novembro de 2012
Amarelo
Quando ele acordou não
tinha bem certeza de onde estava. Não lembrava de nada da noite
anterior e a única certeza que tinha era de que tinha bebido mais do
que em toda sua vida. Seu corpo doía e teve até receio de que
pudesse ter levado uma considerável surra há poucas horas, ou de
algum bruto selvagem ou de alguns copos de uísque.
Com alguma dificuldade
levantou-se da cama e deu-se conta de que estava em um motel barato
no centro da cidade. Com quem dormira ali? Sentou-se na cama e sua
bunda não doía, o que lhe trazia um certo conforto. Sem muito
esforço pegou uma garrafa d'água que estava no criado mudo ao lado
da cama. Até aquela água tinha um gosto pútrido que o remetia ao
álcool. Ali fizera a promessa de que jamais voltaria a beber –
pela décima quinta vez.
Levantou-se e foi até o banheiro lavar o rosto e esvaziar a bexiga que o estava atordoando. Depois de feita sua necessidade, encaminhou-se à pia e só então viu o que deveria estar claro desde que acordou, estava amarelo. PUTA QUE PARIU, estava amarelo.
Que diabos de doença era aquela? Amarelão, hepatite, estava ficando japonês? Que merda era aquela?
Puxou no fundo da memória e nada, não conseguia lembrar o que acontecera na noite anterior, mas era inegável que o que quer que tivesse acontecido era o responsável por lhe deixar estupidamente amarelo.
Bom, fosse o que fosse, precisava achar um médico. Resolveu que não iria sequer lavar o rosto que vai que aquilo piorasse. Olhou para as mãos e adivinha só? Amarelas. Os pés? Amarelos. Todo amarelo, até as bolas.
Como não encontrou suas roupas, vestiu-se com um roupão esfarrapado do motel, pegara sua carteira e foi-se em busca de um desgraçado de um médico.
Levantou-se e foi até o banheiro lavar o rosto e esvaziar a bexiga que o estava atordoando. Depois de feita sua necessidade, encaminhou-se à pia e só então viu o que deveria estar claro desde que acordou, estava amarelo. PUTA QUE PARIU, estava amarelo.
Que diabos de doença era aquela? Amarelão, hepatite, estava ficando japonês? Que merda era aquela?
Puxou no fundo da memória e nada, não conseguia lembrar o que acontecera na noite anterior, mas era inegável que o que quer que tivesse acontecido era o responsável por lhe deixar estupidamente amarelo.
Bom, fosse o que fosse, precisava achar um médico. Resolveu que não iria sequer lavar o rosto que vai que aquilo piorasse. Olhou para as mãos e adivinha só? Amarelas. Os pés? Amarelos. Todo amarelo, até as bolas.
Como não encontrou suas roupas, vestiu-se com um roupão esfarrapado do motel, pegara sua carteira e foi-se em busca de um desgraçado de um médico.
Continua.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
O Treinador do Sofá
Diziam que o Figueira
era esquentado demais, que não podia ver um jogo de futebol sem
xingar juiz, jogadores adversários e até do seu time. Ele gritava e
gritava e gritava. A esposa evitava ficar na sala na hora do jogo e
vez que outra debochava: “Fala mais alto, amor, que eles não estão
ouvindo”.
O futebol era sua
paixão. Desde muito moço ele inseriu-se no meio, chegou até a
trocar alguns passes no São José, mas lá pelas tantas desistiu.
Foi ser Professor. Que desgraça na vida do figueira, poderia ser
jogador e ganhar uma fortuna; preferiu ser professor e
ganhar...deixemos assim.
Só que com quase 60
anos, a vida lhe ensinara muitas coisas e uma delas era quase todos
os macetes do futebol. Outra coisa ensinada pela própria vida é que
pode-se esperar tudo, até o que é estritamente inesperado, e foi
isso que aconteceu.
Certo dia, sentado na
poltrona de casa, o treinador do time falou com o Figueira.
O jogo era duro e o
adversário era cascudo. O primeiro colocado do campeonato, forte
postulante ao título e o empate arrastava-se até o início do
segundo tempo. Quando ele gritou do sofá: “Coloca o Novalgina, seu
burro!”. O treinador ouviu. Estampou sua face no retângulo da TV (
que agora TV é em retângulo e de plasma) e retrucou: “Se tu
fosse um técnico tão bom, tu saberia que o Novalgina tá com dor de
cabeça e foi poupado”.
Ele não entendeu. Como
assim que o treinador estava falando com ele. Gritou para o filho
mais moço: “o guri, essa TV é daquelas 3D?”. Não, a TV não
era 3D e o treinador realmente falara com ele, pois lá pelas tantas
falou de novo: “É contigo mesmo. Qual a sugestão que tu me dá?
Tenho que tirar aquele Adalto do time, ele tá com a cabeça na
ex-mulher, que terminou com ele semana passada e levou metade da
grana.”
A partir daí começou
um diálogo surreal:
- O Tomás tá no banco. Esse guri tem
futuro. Vi uns jogos dele no sub-20.
- Mas vou colocar ele na
fogueira? Precisamos ganhar o jogo, e o torcedor tá impaciente. Se
eu colocar ele, vai ter que ser pra resolver.
- Coloca ele. Essa
gurizada nova precisa ter responsabilidade
- É por tua conta e
risco?
- Sim.
- Vou colocar, então.
E o Tomás entrou.
No primeiro lance, recebeu a bola no meio campo, deu uma meia lua no
volante, driblou o zagueiro da sobra e acertou um chute na gaveta.
Golaço!
O jogo terminou com aquele petardo do Tomás e o
treinador foi ovacionado, enquanto o comentarista esportivo dizia que
ele tinha estrela. Em casa, o Figueira atordoado perguntava-se como
aquilo havia de ter acontecido? Que tecnologia era aquela que fazia
dois seres humanos conversarem assim?
Uma coisa, porém, era
certa. O Figueira entendia de futebol. O Tomás entrara, dera conta
do recado, e agora, enquanto o treinador era festejado, ele percebeu
que também em casa lhe agarravam o braço em comemoração. Quando
olhou para o lado percebeu o motivo daquela entusiasmada chacoalhada.
Viu o amável rosto da ordinária da sua esposa, com aquela maldita e
estraga prazeres boca falando:“Acorda Figueira, acorda!”.
Figueira
olhou para a TV e viu que o jogo terminara 1 a 0 pro time adversário.
O Tomás entrara em campo e no primeiro lance foi expulso. Aliviado
por não ser o responsável pela derrota, levantou do sofá, limpou a
baba que escorria ao lado da boca, e foi dormir na cama.
Assinar:
Postagens (Atom)
