Toda
maldita vez em que estava em reunião aquele ordinário aparelho
telefônico tocava desesperadamente, como se fosse a última vez em
que tocaria em toda a sua porca existência. Acontece que o Aquiles
não sabia colocar aquela porcaria no silencioso. Toda vez era alguma
mensagem da operadora, lhe informando que a recarga premiada poderia
lhe render prêmios maravilhosos, como um liquidificador, uma
batedeira e um aquecedor a óleo.
Dessa vez
não era. O Aquiles pegou aquele celular com a mesma gana que pegava
toda vez que ele tocava quando estava em frente ao seu chefe. A
reunião não era das mais importantes, e então, olhando de soslaio
para o chefe, resolveu ler a mensagem:
“Oi
linda! Lembra de mim? Nos conhecemos na festa do Harry. Tu me deu teu
celular e resolvi te mandar essa mensagem”.
Pobre diabo,
pensou o Aquiles, foi logrado pela moça. E aos diabos se o Aquiles
pensou em poupar o pobre desgraçado. Tantas vezes fora alvo de
chacota que agora, pelo sangue de Deus, ele iria se vingar. Enquanto
o gerente de contas apresentava o relatório da semana, Aquiles
valeu-se da habilidade que tinha naquele teclado touchscreen de tanto
jogar Angry Birds. Respondeu:
“Oi
amor! Eu realmente estava com saudades. Nos divertimos muito aquele
dia na festa, né? Beijos”.
Que filho
da puta era o Aquiles, e a sensação de ser um filho da puta era
fantástica. Sentia-se o maior vigarista do mundo e era tão bom.
Depois de enviar a resposta, apagou a mensagem recebida para que não
houvesse dúvidas sobre sua sexualidade.
A reunião
terminou e nada do amante responder. Aquiles saiu do trabalho e rumou
até a academia. Lá quase veio ao óbito ao correr 16 quilômetros
na esteira, e realmente quase infartou quando a loira mais sensual de
toda esfera terrestre resolveu balançar aqueles rijos seios
apertados em um minúsculo top cor de rosa, justo na esteira da sua
frente. Cada passado dado era uma sacudida naqueles deliciosos gêmeos
e aí, antes que efetivamente desmaiasse (por causa da corrida e da
loira), foi-se embora.
Nada
de mensagem.
Chegou em
casa já tirando a roupa suada e declarando:
“Oi amor. Vou
tomar uma boa ducha”.
Subiu as escadas ouvindo sua amada
esposa responder que tudo estava bem.
Deixou
suas coisas todas no bidê ao lado da cama e rumou ao chuveiro.
Quando o primeiro jato d'água atingiu seu dorso, assustou-se ao
perceber que sua mulher estava no banheiro e perguntava: “amor, tu
lembrou de pagar a escola das crianças, né?”.
Claro que
ele lembrara, Aquiles jamais esquecera-se de pagar.
“Lembrei
amor, é claro”.
A mulher do Aquiles, Dandara, era
completamente apaixonada por ele. Faria qualquer coisa pelo homem da
sua vida, porém, era deveras ciumenta. Não permitia qualquer
deslize na vida conjugal do marido e até então, em mais de doze
anos de casamento, ele havia sido exemplar.
Enquanto
descia as escadas para terminar de preparar a jantar, Dandara escutou
o esganiçado toque do celular de Aquiles e resolveu checar apenas
por descargo de consciência. Era uma mensagem.
Um número
desconhecido.
“Realmente nos divertimos, adorei passar
aquele tempo contigo e gostaria de te ver novamente. Amanhã à
noite, que tal? Te espero em frente ao parque do centro”.
O
filho da puta, brocha do Aquiles estava lhe traindo. Isso não
ficaria assim. Dandara pegou o telefone e respondeu: “Combinado,
nos encontramos lá”.
É claro
que em seguida, Dandara apagou a mensagem enviada e terminou a janta.
Quando
saiu do banho, Aquiles sentia-se renovado. Foi até o bidê e
resolveu analisar se não havia nenhuma mensagem nova: havia. O cara
perguntava se não poderiam marcar um encontro em frente ao parque. É
claro que poderiam, Aquiles queria ver a cara do panaca.
No dia
seguinte, ao começar da noite, Aquiles, o tonto e Dandara
esperavam-se mutuamente, cada um num lado do parque.
Dandara
estava escondida dentro de um carro alugado de vidros escuros,
estacionado bem em frente ao parque.
Aquiles escondera-se
atrás do tronco de uma árvore, enquanto seu filho, o Júnior,
prestas a fazer 16 anos, acabara de desembarcar do ônibus e
sentava-se no banco em frente ao parque.
Tão logo avistou
seu filho, Aquiles achou que o Júnior pudesse ter lido a mensagem em
seu celular e estivesse ali para espionar o pai, porém, o
escrachamento da postura do filho revelara o mais óbvio: Aquiles
havia sido filho da puta com o seu próprio filho, o que revelava que
aquiles não era um simples filho da puta e sim o maior filho da puta
de todos os tempos.
Passados
dez minutos Dandara saiu de dentro do carro e aí sim Aquiles
desabou.
“Meu filho, o que tu estás fazendo
aqui?”
“M...m...mãe?! Eu estou, hm, estou...”
“Tens
um encontro, Juninho?”
“É, eu tenho, mas acho que levei
um bolo”.
Agora
tudo fodera de vez e Aquiles precisava dar um jeito logo naquilo.
Pensou rapidamente e chegou a solução mais óbvia do mundo e que
qualquer homem no seu lugar faria: fugiu.
Acontece
que enquanto corria para longe daquela confusão, ouviu o grito de
Dandara: “AQUILES!”.
Como
que desentendido, Aquiles virou-se e “surpreendeu-se” ao ver sua
mulher e filho.
“Meus amores, o que fazem aqui?”
“Teu
filho marcou um encontro contigo, Aquiles”.
Naquele momento,
Aquiles entendera que ser filho da puta realmente não era sua função
predestinada. Depois daquele dia, o Juninho envolveu-se com crack,
Dandara respondera a um processo por espancar seu marido, e o
Aquiles...ah, o Aquiles passado dias enfartou em frente à academia,
quando a loira da esteira mandara-lhe uma mensagem:
“Podemos
nos encontrar em frente ao parque do Centro?”.