- Então é assim? Vais continuar me ameaçando com essa história, Maria Emília?
- Ah, pode apostar que vou, Jorge Henrique.
- Quantas vezes vou ter que te dizer que eu não dormi com ela?
- Quantas vezes for preciso pra me fazer acreditar.
- Tu já me disse que não acredita e nem vai.
- Então tu vai ter que falar pra sempre. Ou para de falar.
- Assim não dá!
- Ah não dou mesmo.
- Ah, sem sexo eu não fico!
- Tá vendo, vai procurar ela de novo.
- Maria Emília, eu não dormi com ela.
- Não dormiu ainda, mas do jeito que as coisas vão...
- Ah, então partimos do princípio que eu não dormi com ela mesmo?
- Partimos do princípio que a única coisa que vocês não fizeram foi dormir.
- Não dormimos e nem nada.
- Jorge Henrique, senta aí.
- O que é isso?
- É o teu vídeo com ela, eu mandei alguém gravar.
- V...v...vídeo? Isso tá errado.
- Ah tá errado mesmo.
- Não sou eu esse ai. Tá bem claro.
- E a tatuagem na nádega, Jorge Henrique? Quantas pessoas escrevem só mamãe pôs a mão, na bunda?
- É montagem. É claro que é. Minha masculinidade é maior que a desse cara.
- Ah não é mesmo! Até parece maior na TV.
- Mesmo?
- Mesmo.
- Mas é pequeno ali.
- É pequeno ali...mas não muda de assunto, é tu ali com a sem vergonha da Carolina.
- Ela me seduziu....me ameaçou, disse que se não saísse com ela o pai dela me demitiria da empresa. O que é isso, Maria Emília?
- Um gravador. “Clic”- E nessa fita, estão gravadas as tuas conversas com ela. Desde a parte que tu diz que ama ela, até o pedido de desculpa do dia seguinte por ter durado só 16 segundos.
- 18!
- 18 o que?
- Segundos. Durou 18 segundos.
- Pronto, admitiu.
- Tu me obrigou.
- Maria Emília! Eu não quero mais nada contigo, acabou.
E assim, o Jorge Henrique virou as coisas foi-se embora, mostrando como é o homem. Há provas, há argumentos, mas jamais haverá razão. Não enquanto houver tatuagens de rena!
quarta-feira, 22 de junho de 2011
quinta-feira, 9 de junho de 2011
O maior pinto da rua
Tudo sempre acontecia no final da tarde, antes que a noite chegasse, visto que eram todos muito pequenos para perambular na rua mal iluminada apenas à luz do luar. Era em frente às casas, sim, pois só assim, os gritos das mães poderiam ser ouvidos quando fosse a hora de retornar para seus estimados e quentes lares.
Fábio, Igor, Renato, Henrique. Aí estão, eram quatro. Dois para cada lado.
A rua, pouco movimentada, servia de quadra, ao passo que dois chinelos havaianas, postados simetricamente a um passo do outro serviam de goleira de um lado, e a alguns metros além a outra goleira era formada. Ali, limitados pelas linhas laterais (os meio-fios), os quatro atletas digladiavam-se freneticamente sempre em busca da vitória.
Não que garotos de nove anos protagonizassem lances dignos de aplausos e gritos da torcida, mas eles se esforçavam ao máximo e dentro da mente de cada um, era notável que eram craques. Sem dúvidas o futuro do esporte mundial passava por aqueles pés.
Tudo bem, não eram lá grandes atletas, mas foi em um dia qualquer, que um deles soube que era mais afortunado do que os outros três. Sim, um deles nascera predestinado, e só descobriu isso, quando a bola parou de rolar.
Em uma brecha qualquer do jogo, houve uma pausa, um intervalo, onde todos os quatro atletas, mesmo os rivais, postaram-se lado a lado, em frente a cerca de uma casa, e ali esvaziaram suas bexigas. É bem verdade que guris de nove anos não são lá muito pudorosos, mas de qualquer forma ali mijavam, inocentemente.
Acontece que em qualquer data da vida de um homem, após ele começar a entender a vida, existe o pensamento libidinoso. Ah, pode acreditar que isso está presente até nas mentes juvenis. Por vezes não expressamente, mas sempre acontece, é instinto, saca?
Em meio ao momento do xixi, Fábio, Igor, Henrique e Renato conversavam, e não prestaram atenção no que estava acontecendo bem à sua frente. A conversa rolava e todos se chamavam pelo nome, o que proporcionou o que viria a acontecer.
No fim do ato, a janela da casa da frente se abre, e em um ato reflexo, todos os quatro amigos guardam o pinto que lhe pertence. Mas, já era tarde. Uma senhora, cuja idade não lhes foi revelada, já os havia visto com o pistolim na mão.
-Vi o pinto de vocês, e até sei qual é o maior! - disse e velha sem vergonha.
Atônitos, os jovens não sabiam como reagir. E agora, o que seria? Eis que um deles tomou coragem e perguntou:
- É mesmo? E qual é?
- Não posso dizer, por que assim, um de vocês vai ficar constrangido.
Os quatro guris decepcionaram-se. Por que ficaria um deles constrangido, se o que mais queriam era saber qual era o mais ticudo?
A velha continuava ali, dependurada no parapeito da janela, e enquanto isso, os jovens conversavam. De repente a velha comentou:
- Henrique, era tu que estava bem ao lado esquerdo né?
- Sim – disse Henrique, sem que os outros entendessem. Era uma indireta, a velha queria dizer nas entrelinhas, que era ele o dono do maior pinto. Um sorrisinho sacana surgiu nos lábios do Henrique, enquanto ele olhava para os outros três.
Quando empinou o queixo, estufou o peito e disse que não queria mais jogar, os outros todos entenderam, era ele o dono do maior pinto do joguinho da rua.
Pela primeira vez na vida de Henrique, seu ego foi inflado por uma mulher. Mal sabia Henrique, que na verdade, os outros três é que de fato estavam sendo preparados para a vida.
Uma mulher quase nunca infla teu ego, e saibam Fábio, Igor e Renato, essa foi só a primeira vez que uma delas te frustrou...só a primeira!
Fábio, Igor, Renato, Henrique. Aí estão, eram quatro. Dois para cada lado.
A rua, pouco movimentada, servia de quadra, ao passo que dois chinelos havaianas, postados simetricamente a um passo do outro serviam de goleira de um lado, e a alguns metros além a outra goleira era formada. Ali, limitados pelas linhas laterais (os meio-fios), os quatro atletas digladiavam-se freneticamente sempre em busca da vitória.
Não que garotos de nove anos protagonizassem lances dignos de aplausos e gritos da torcida, mas eles se esforçavam ao máximo e dentro da mente de cada um, era notável que eram craques. Sem dúvidas o futuro do esporte mundial passava por aqueles pés.
Tudo bem, não eram lá grandes atletas, mas foi em um dia qualquer, que um deles soube que era mais afortunado do que os outros três. Sim, um deles nascera predestinado, e só descobriu isso, quando a bola parou de rolar.
Em uma brecha qualquer do jogo, houve uma pausa, um intervalo, onde todos os quatro atletas, mesmo os rivais, postaram-se lado a lado, em frente a cerca de uma casa, e ali esvaziaram suas bexigas. É bem verdade que guris de nove anos não são lá muito pudorosos, mas de qualquer forma ali mijavam, inocentemente.
Acontece que em qualquer data da vida de um homem, após ele começar a entender a vida, existe o pensamento libidinoso. Ah, pode acreditar que isso está presente até nas mentes juvenis. Por vezes não expressamente, mas sempre acontece, é instinto, saca?
Em meio ao momento do xixi, Fábio, Igor, Henrique e Renato conversavam, e não prestaram atenção no que estava acontecendo bem à sua frente. A conversa rolava e todos se chamavam pelo nome, o que proporcionou o que viria a acontecer.
No fim do ato, a janela da casa da frente se abre, e em um ato reflexo, todos os quatro amigos guardam o pinto que lhe pertence. Mas, já era tarde. Uma senhora, cuja idade não lhes foi revelada, já os havia visto com o pistolim na mão.
-Vi o pinto de vocês, e até sei qual é o maior! - disse e velha sem vergonha.
Atônitos, os jovens não sabiam como reagir. E agora, o que seria? Eis que um deles tomou coragem e perguntou:
- É mesmo? E qual é?
- Não posso dizer, por que assim, um de vocês vai ficar constrangido.
Os quatro guris decepcionaram-se. Por que ficaria um deles constrangido, se o que mais queriam era saber qual era o mais ticudo?
A velha continuava ali, dependurada no parapeito da janela, e enquanto isso, os jovens conversavam. De repente a velha comentou:
- Henrique, era tu que estava bem ao lado esquerdo né?
- Sim – disse Henrique, sem que os outros entendessem. Era uma indireta, a velha queria dizer nas entrelinhas, que era ele o dono do maior pinto. Um sorrisinho sacana surgiu nos lábios do Henrique, enquanto ele olhava para os outros três.
Quando empinou o queixo, estufou o peito e disse que não queria mais jogar, os outros todos entenderam, era ele o dono do maior pinto do joguinho da rua.
Pela primeira vez na vida de Henrique, seu ego foi inflado por uma mulher. Mal sabia Henrique, que na verdade, os outros três é que de fato estavam sendo preparados para a vida.
Uma mulher quase nunca infla teu ego, e saibam Fábio, Igor e Renato, essa foi só a primeira vez que uma delas te frustrou...só a primeira!
segunda-feira, 2 de maio de 2011
As indiretas para Alice
Um ponto de exclamação. Era evidente que a frase terminara com um ponto de exclamação. Pro Paulo Roberto, aquele ponto fazia toda a diferença. Do alto do metro e dez de pernas torneadas, da fina cintura, do busto farto e despejado daquela linda boca carnuda, aquele ponto de exclamação só poderia conter segundas intenções.
- Me dá uma carona, Paulinho?, ela perguntara.
- Claro, Alice. Vais pra onde?
- Como pra onde, vou para o Botafogo, claro!
“Pro Botafogo, claro!”, ali estava ele, o ponto de exclamação, no final do Botafogo. Se fosse o bairro, pura e simplesmente, ela não teria exclamado, teria quando muito afirmado que queria uma carona, homens não negam pedidos para donas de pernas de um metro e dez. Mas o ponto de exclamação continha um algo mais.
Todos sabem, há o Motel Botafogo, é consagrado é um bonito motel. Alice só poderia estar finalmente cedendo às tentativas até então frustradas do Paulo Roberto. Era a explicação mais plausível.
O destino era incerto, bairro ou motel, mas de qualquer forma o motel Botafogo fica no bairro Botafogo e para lá que Paulo Roberto rumaria, levando em seu carro aquela exuberante loira dourada, das pernas torneadas e da cintura fina e...enfim, aquela loira pra lá de adjetivada.
O percurso não era lá dos maiores, e Paulo tinha pouco tempo para sanar as dúvidas que aquele ponto continha. Era tudo ou nada, partiria para cima da Alice ainda hoje.
Ainda no escritório, quando deu 18h, Paulo procurou Alice, pois ambos teriam que rumar estacionamento, que era no subsolo do prédio, e carinhosamente chamado pelos funcionários como “buraco”. Paulo proferiu, tateando Alice, claro:
- E ai, te pego no buraco?
- Sim, Paulinho, acho que vamos juntos, né!?
- Isso, vamos juntos.
Pronto, o primeiro tiro acertou o alvo, mas a dúvida ainda era frenética no âmago de Paulo. Precisaria de mais do que aquilo para não errar o pulo ao encaminhar-se ao Motel Botafogo.
Foram até o “buraco” de elevador, então Paulo teve outra ideia.
- Não gosto de descer no elevador. Prefiro subir. Tudo gosta quando sobe, Alice?
- Ain, Paulinho, pra mim tanto faz. Gosto de qualquer jeito.
E agora! Essa frase deixava tudo no ar. Seria um joguinho de palavras da Alice, ou ela nem ao menos teria entendido a indireta? Mais perguntas deveriam ser feitas.
Chegaram ao “buraco” e foram adentrando no carro de Paulo, um Xsara Picasso. O carro jogava no mesmo time de Paulo. Picasso.
- Gostou do meu carro novo, Alice? Comprei zero quilômetro.
- Muito bonito, Paulo. É grande, gosto de carro grande.
- É, realmente o Picasso é grande.
- Sim, eu percebi. Queria ter um assim pra mim.
Bola dentro. Ela estava dando indícios de que o caminho era o Motel.
Agora era tudo ou nada, três chutes, dois gols e uma bola na trave, o Paulo Roberto precisava ter certeza do interesse de Alice em desfrutar de seu corpo, mas a última atirada de Paulo Roberto desmoronou tudo.
- Onde mesmo temos que ir no Botafogo?
- Ué, eu moro lá, Paulinho. Quero ir para a minha casa.
Acabou tudo. Paulo fora vencido pela loira das altas pernas, do corpo dourado, da cintura fina, do busto farto, dos adjetivos, enfim...fora derrotado por Alice. Ela morava com os pais e se queria ir para casa, isso significava o fim.
Ele pensara em largar da mulher, deixar os filhos, só para viver um romance no qual tivesse como par a Alice. Tudo fora abaixo. Seus sonhos de viver essa aventura foram jogados ao vento com essa simples frase.
Concentrou-se na pista e apenas ouviu as instruções de Alice sobre como chegar na sua casa.
Enfim chegaram, e um desolado Paulo Roberto apenas olhou para Alice e balançou positivamente a cabeça como quem diz “está entregue”.
Ela fitou-o do banco do carona. Olhou-o como olha uma cadelinha no cio para o cão que a corteja. Paulo não deu bola.
Antes de sair do carro, ela disse:
- Obrigado, Paulinho. Agora que já sabe onde é minha casa, pode vir mais vezes. Beijinhos.
Ao fim do encontro, o pensamento de cada um:
Paulo:
“Como assim visitar mais vezes?”, “ela quer que eu volte?”, “mas e os pais dela?”. “Ai céus, que mulher complicada”.
Pensamento da Alice:
“Ai, odeio homem que não se dá conta!”. “Será que eu deveria ter dito que não moro mais com os meus pais?”.
- Me dá uma carona, Paulinho?, ela perguntara.
- Claro, Alice. Vais pra onde?
- Como pra onde, vou para o Botafogo, claro!
“Pro Botafogo, claro!”, ali estava ele, o ponto de exclamação, no final do Botafogo. Se fosse o bairro, pura e simplesmente, ela não teria exclamado, teria quando muito afirmado que queria uma carona, homens não negam pedidos para donas de pernas de um metro e dez. Mas o ponto de exclamação continha um algo mais.
Todos sabem, há o Motel Botafogo, é consagrado é um bonito motel. Alice só poderia estar finalmente cedendo às tentativas até então frustradas do Paulo Roberto. Era a explicação mais plausível.
O destino era incerto, bairro ou motel, mas de qualquer forma o motel Botafogo fica no bairro Botafogo e para lá que Paulo Roberto rumaria, levando em seu carro aquela exuberante loira dourada, das pernas torneadas e da cintura fina e...enfim, aquela loira pra lá de adjetivada.
O percurso não era lá dos maiores, e Paulo tinha pouco tempo para sanar as dúvidas que aquele ponto continha. Era tudo ou nada, partiria para cima da Alice ainda hoje.
Ainda no escritório, quando deu 18h, Paulo procurou Alice, pois ambos teriam que rumar estacionamento, que era no subsolo do prédio, e carinhosamente chamado pelos funcionários como “buraco”. Paulo proferiu, tateando Alice, claro:
- E ai, te pego no buraco?
- Sim, Paulinho, acho que vamos juntos, né!?
- Isso, vamos juntos.
Pronto, o primeiro tiro acertou o alvo, mas a dúvida ainda era frenética no âmago de Paulo. Precisaria de mais do que aquilo para não errar o pulo ao encaminhar-se ao Motel Botafogo.
Foram até o “buraco” de elevador, então Paulo teve outra ideia.
- Não gosto de descer no elevador. Prefiro subir. Tudo gosta quando sobe, Alice?
- Ain, Paulinho, pra mim tanto faz. Gosto de qualquer jeito.
E agora! Essa frase deixava tudo no ar. Seria um joguinho de palavras da Alice, ou ela nem ao menos teria entendido a indireta? Mais perguntas deveriam ser feitas.
Chegaram ao “buraco” e foram adentrando no carro de Paulo, um Xsara Picasso. O carro jogava no mesmo time de Paulo. Picasso.
- Gostou do meu carro novo, Alice? Comprei zero quilômetro.
- Muito bonito, Paulo. É grande, gosto de carro grande.
- É, realmente o Picasso é grande.
- Sim, eu percebi. Queria ter um assim pra mim.
Bola dentro. Ela estava dando indícios de que o caminho era o Motel.
Agora era tudo ou nada, três chutes, dois gols e uma bola na trave, o Paulo Roberto precisava ter certeza do interesse de Alice em desfrutar de seu corpo, mas a última atirada de Paulo Roberto desmoronou tudo.
- Onde mesmo temos que ir no Botafogo?
- Ué, eu moro lá, Paulinho. Quero ir para a minha casa.
Acabou tudo. Paulo fora vencido pela loira das altas pernas, do corpo dourado, da cintura fina, do busto farto, dos adjetivos, enfim...fora derrotado por Alice. Ela morava com os pais e se queria ir para casa, isso significava o fim.
Ele pensara em largar da mulher, deixar os filhos, só para viver um romance no qual tivesse como par a Alice. Tudo fora abaixo. Seus sonhos de viver essa aventura foram jogados ao vento com essa simples frase.
Concentrou-se na pista e apenas ouviu as instruções de Alice sobre como chegar na sua casa.
Enfim chegaram, e um desolado Paulo Roberto apenas olhou para Alice e balançou positivamente a cabeça como quem diz “está entregue”.
Ela fitou-o do banco do carona. Olhou-o como olha uma cadelinha no cio para o cão que a corteja. Paulo não deu bola.
Antes de sair do carro, ela disse:
- Obrigado, Paulinho. Agora que já sabe onde é minha casa, pode vir mais vezes. Beijinhos.
Ao fim do encontro, o pensamento de cada um:
Paulo:
“Como assim visitar mais vezes?”, “ela quer que eu volte?”, “mas e os pais dela?”. “Ai céus, que mulher complicada”.
Pensamento da Alice:
“Ai, odeio homem que não se dá conta!”. “Será que eu deveria ter dito que não moro mais com os meus pais?”.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Algo errado com Lígia
Lígia sentia, alguma coisa estava errada em seu corpo. Sentia-se enjoada, pesada, até a depressão parecia atingi-la naquela manhã. Já sabia o que estava acontecendo.
Tinha preguiça, a Lígia, de sair da cama, mas era necessário fazer a constatação final. Errara e agora, tinha certeza, era tarde demais para reparar o fato sucedido. Encontrou forças extraídas dos escaninhos de sua alma e debruçou-se na cama. Sentou-se logo em seguida.
A alguns metros dali, jazia um espelho e era até ele que Lígia almejava chegar. Concentrou os esforços, o enjoo só poderia ter um significado, não costumava ter aquele tipo de acesso. Pé por pé arrastou-se até a frente do espelho e mesmo antes de chegar lá, teve como intuito levar a mão a barriga, ali fez a constatação final, nem precisaria do espelho. Era o seu corpo, sua vida, seu enjoo, e o pequeno calombo que formava-se em sua barriga deixava claro o sinal do havia acontecido.
Em frente ao espelho parou, analisou-se, tal qual as mulheres sensíveis sempre fazem. Achou-se feia, tal qual as mulheres fazem. Achou-se gorda, tal qual as mulheres sempre fazem. A constatação estava feita. Assim que levantou um pouco a blusa do pijama e viu que de fato, aquele calombo resumia-se a sua barriga.
Voltou à cama, alguma coisa precisava ser feita. Sentou-se mais uma vez. Procurou o celular que deveria estar em algum lugar em meio às cobertas. Revirou a cama e o achou embaixo do travesseiro. Segurou o aparelho na mão e antes de abri-lo. Pensou no que faria, para quem ligaria. Um médico!, claro, um médico era o ideal. Precisava de uma consulta com um especialista, mas antes era necessário ligar para o seu namorado, afinal a culpa era dele. Ele fora o responsável por aquilo.
Ligou para ele, o namorado, o grande culpado. Ele que insistira em fazer aquilo que ela não queria e sempre havia dito a ele. O telefone chamou uma, duas, três vezes e ele atendeu:
- Oi Lígia. Como tu está meu amor?
- Olha aqui, Carlos Alberto, e nunca mais, ouviu bem, nunca mais volto a comer esses malditos bolinhos de batata que a tua mãe faz.
Tinha preguiça, a Lígia, de sair da cama, mas era necessário fazer a constatação final. Errara e agora, tinha certeza, era tarde demais para reparar o fato sucedido. Encontrou forças extraídas dos escaninhos de sua alma e debruçou-se na cama. Sentou-se logo em seguida.
A alguns metros dali, jazia um espelho e era até ele que Lígia almejava chegar. Concentrou os esforços, o enjoo só poderia ter um significado, não costumava ter aquele tipo de acesso. Pé por pé arrastou-se até a frente do espelho e mesmo antes de chegar lá, teve como intuito levar a mão a barriga, ali fez a constatação final, nem precisaria do espelho. Era o seu corpo, sua vida, seu enjoo, e o pequeno calombo que formava-se em sua barriga deixava claro o sinal do havia acontecido.
Em frente ao espelho parou, analisou-se, tal qual as mulheres sensíveis sempre fazem. Achou-se feia, tal qual as mulheres fazem. Achou-se gorda, tal qual as mulheres sempre fazem. A constatação estava feita. Assim que levantou um pouco a blusa do pijama e viu que de fato, aquele calombo resumia-se a sua barriga.
Voltou à cama, alguma coisa precisava ser feita. Sentou-se mais uma vez. Procurou o celular que deveria estar em algum lugar em meio às cobertas. Revirou a cama e o achou embaixo do travesseiro. Segurou o aparelho na mão e antes de abri-lo. Pensou no que faria, para quem ligaria. Um médico!, claro, um médico era o ideal. Precisava de uma consulta com um especialista, mas antes era necessário ligar para o seu namorado, afinal a culpa era dele. Ele fora o responsável por aquilo.
Ligou para ele, o namorado, o grande culpado. Ele que insistira em fazer aquilo que ela não queria e sempre havia dito a ele. O telefone chamou uma, duas, três vezes e ele atendeu:
- Oi Lígia. Como tu está meu amor?
- Olha aqui, Carlos Alberto, e nunca mais, ouviu bem, nunca mais volto a comer esses malditos bolinhos de batata que a tua mãe faz.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Pobre Isaias
Sentado ali, na mesma cadeira, apoiado na mesma mesa, digitando no mesmo teclado de sempre, usando os mesmos óculos e o mesmo suéter de caximir vermelho que sempre usou, ele via a vida passar. Via a vida passar por detrás das grossas lentes dos óculos que o protegiam do astigmatismo em grau baixo, miscigenado à miopia elevada. Atrás do mesmo guichê, digitava todos os dias, exaustivamente os números de códigos de barras das contas que as milhares de pessoas que iam ao banco onde trabalhava insistiam em pagar.
Eis que um dia uma frase mudou toda a vida de Isaias. Frase essa proferida pelas cordas vocais de quem ele menos esperava, daquele que fora seu carrasco de uma vida, seu gerente geral, o Vladimir:
- Isaias, tu não é mais caixa. Amanhã ruma pra mesinha do lado, vai pro atendimento de pessoa física. Será responsável pelos empréstimos.
Em-prés-ti-mos – Isaias digeriu vagarosamente o que aquela palavra significava para ele. Morfologicamente a palavra empréstimo não é lá de grande valia, mas ali, dentro do banco, significava ter poder sobre as pessoas. Ninguém vai pedir empréstimo com face fechada e cara de bunda. As pessoas que querem um empréstimo sabem que precisarão do Isaias, pois do contrário não contarão com seu dinheirinho na conta.
No dia seguinte, não mais ouviria as reclamações dos geriatras, ou as intimidações dos office boys. No dia seguinte, planaria como uma pluma carregada pelo vento rumo ao poder.
Terno e gravata! Sim, essa sim é a vestimenta adequada para quem concede empréstimos. Empertigou-se todo o Isaias, tirou as bolinhas de naftalina dos bolsos de seu terno preto e o vestiu. Rumou ao banco, sentou-se na cadeira deixada pelo Vargas, que fora transferido para outra agência, tirou a caneta da lapela – caneta nova, é bom que se diga – apertou no botão de sua extremidade e fez saltar do outro lado a ponta da caneta. Arrumou a gravata e aguardou. Dali a minutos o banco abriria e todos veriam quem era o novo responsável pelos empréstimos.
Assim foi, e uma fila formou-se ante o Isaias que substituíra as espessas lentes dos óculos por duas de contato azuis – sempre quis olhos azuis – e agora, com um sorriso quase obsceno assinava displicentemente os contratos de empréstimo. “Fui com a tua cara, tá aqui teu crédito”, pensava.
No mais das vezes aprovava os empréstimos, mas vez que outra lhe chegavam com um ar tão prepotente quanto o dele próprio e Isaias sem pestanejar dava-lhe um não.
Essa vida era o que pedira a Deus.
Até que um dia ela chegou. Chegou como só ela poderia chegar, prepotente. Sem dar-lhe bom dia, sem olhar-lhe no olho, apenas com a sua minissaia curta, muito curta, sua miniblusa curta, muito curta, suas coxas firmes, muito firmes, seus seios fartos, muito fartos. Tudo muito, tudo bom, essa era ela. “Quero ver os olhos” - pensou Isaias, mas a desgraçada nem sequer deu-se o trabalho de tirar os óculos de sol.
- Quero 20 mil, tio. Preciso comprar meu carroum – pediu e argumentou mascando um chiclete que de longe Isaias conseguia ver, era amarelo.
“Tio”, pensou Isaias. Tudo bem que ela tivesse os seus 20 anos e ele passara disso há no mínimo três décadas, mas “tio” era pejorativo demais. “Não vou dar”, pensou.
Pensou, mas na hora de responder não foi capaz. Tremeu, travou, engasgou, suou, e só conseguiu proferir:
- T-t-ta bem, qual teu nome?
- Isamiiiiim! - disse ela com um sorrisinho malicioso.
Ela sabia que tinha conseguido. Sabia que o desarmara, como sempre. Jamais perdera para um homem em seus 20 anos de experiência e não seria dessa vez.
Isaias, no dia seguinte voltou ao caixa do banco por vontade própria. Era um derrotado, deixara uma moça de 20 anos sobressair-se à sua vontade. Sentia-se mal.
Mal sabe Isaias, que todos os homens do mundo se deixam perder para uma moça de 20 anos. Todos os homens, Isaias!
Eis que um dia uma frase mudou toda a vida de Isaias. Frase essa proferida pelas cordas vocais de quem ele menos esperava, daquele que fora seu carrasco de uma vida, seu gerente geral, o Vladimir:
- Isaias, tu não é mais caixa. Amanhã ruma pra mesinha do lado, vai pro atendimento de pessoa física. Será responsável pelos empréstimos.
Em-prés-ti-mos – Isaias digeriu vagarosamente o que aquela palavra significava para ele. Morfologicamente a palavra empréstimo não é lá de grande valia, mas ali, dentro do banco, significava ter poder sobre as pessoas. Ninguém vai pedir empréstimo com face fechada e cara de bunda. As pessoas que querem um empréstimo sabem que precisarão do Isaias, pois do contrário não contarão com seu dinheirinho na conta.
No dia seguinte, não mais ouviria as reclamações dos geriatras, ou as intimidações dos office boys. No dia seguinte, planaria como uma pluma carregada pelo vento rumo ao poder.
Terno e gravata! Sim, essa sim é a vestimenta adequada para quem concede empréstimos. Empertigou-se todo o Isaias, tirou as bolinhas de naftalina dos bolsos de seu terno preto e o vestiu. Rumou ao banco, sentou-se na cadeira deixada pelo Vargas, que fora transferido para outra agência, tirou a caneta da lapela – caneta nova, é bom que se diga – apertou no botão de sua extremidade e fez saltar do outro lado a ponta da caneta. Arrumou a gravata e aguardou. Dali a minutos o banco abriria e todos veriam quem era o novo responsável pelos empréstimos.
Assim foi, e uma fila formou-se ante o Isaias que substituíra as espessas lentes dos óculos por duas de contato azuis – sempre quis olhos azuis – e agora, com um sorriso quase obsceno assinava displicentemente os contratos de empréstimo. “Fui com a tua cara, tá aqui teu crédito”, pensava.
No mais das vezes aprovava os empréstimos, mas vez que outra lhe chegavam com um ar tão prepotente quanto o dele próprio e Isaias sem pestanejar dava-lhe um não.
Essa vida era o que pedira a Deus.
Até que um dia ela chegou. Chegou como só ela poderia chegar, prepotente. Sem dar-lhe bom dia, sem olhar-lhe no olho, apenas com a sua minissaia curta, muito curta, sua miniblusa curta, muito curta, suas coxas firmes, muito firmes, seus seios fartos, muito fartos. Tudo muito, tudo bom, essa era ela. “Quero ver os olhos” - pensou Isaias, mas a desgraçada nem sequer deu-se o trabalho de tirar os óculos de sol.
- Quero 20 mil, tio. Preciso comprar meu carroum – pediu e argumentou mascando um chiclete que de longe Isaias conseguia ver, era amarelo.
“Tio”, pensou Isaias. Tudo bem que ela tivesse os seus 20 anos e ele passara disso há no mínimo três décadas, mas “tio” era pejorativo demais. “Não vou dar”, pensou.
Pensou, mas na hora de responder não foi capaz. Tremeu, travou, engasgou, suou, e só conseguiu proferir:
- T-t-ta bem, qual teu nome?
- Isamiiiiim! - disse ela com um sorrisinho malicioso.
Ela sabia que tinha conseguido. Sabia que o desarmara, como sempre. Jamais perdera para um homem em seus 20 anos de experiência e não seria dessa vez.
Isaias, no dia seguinte voltou ao caixa do banco por vontade própria. Era um derrotado, deixara uma moça de 20 anos sobressair-se à sua vontade. Sentia-se mal.
Mal sabe Isaias, que todos os homens do mundo se deixam perder para uma moça de 20 anos. Todos os homens, Isaias!
quinta-feira, 3 de março de 2011
Antítese do amor
Antítese! Vá lá, procure no dicionário ou puxe lá no fundo de sua memória
juvenil, desde lá dos tempos do colégio, o que significa. Farei melhor e
direi que basicamente antítese é o contrário, o oposto de alguma coisa é
a antítese. Agora que já sabe e que todos sabemos o que é, vou contar uma
história de antítese. Uma antítese do amor.
Tudo começou às avessas, quando não se esperava que começasse e chego a
admitir que quando nem se queria que algo começasse. Tão bem estavam os
dois, sós, sem ninguém para cobra-los, para vigiá-los, ou para
controlá-los. Mas valho-me aqui de uma frase que sem dúvidas há você de
conhecer: o destino é inexorável.
Por que a antítese? Por que além de começar quando não se queria que
começasse, eles não eram do tipo carinhoso, ah não eram mesmo.
Estapeavam-se, de brincadeira, claro. Declaravam-se ambos aversos um ao
outro. Faziam o que os casais não fazem. Eram o contrário do amor.
Entendeu agora o por que da antítese?
Bem, era de se esperar que esse convívio lhes despertasse a raiva e lhes
saturasse a paciência em poucos dias ou meses, mas do que falamos nesse
texto mesmo? Antítese! Antítese do amor, e antítese do lógico. Há exatos
onze meses, os dois se amaram.
Calendário, procurando no calendário, ver-se-á que há exatos onze meses
estávamos em uma sexta-feira Santa, dia 02 de abril, um dia, portanto,
especial, presume-se. Sim, um dia especial, o dia em que ele, posso
afirmar, conheceu pela primeira vez o amor. E o dia em que ela, sentiu-se
verdadeiramente amada, também pela primeira vez.
Desde então, aquele sentimento dispendioso do início, tornou-se o mais
puro, verdadeiro e irrestrito amor. Aqui esqueço a antítese, esqueço a
terceira pessoa e afirmo que no decorrer desse amor, eu encontrei-me e
encontrei o significado de uma palavra que sempre me foi familiar, ainda
que me parecesse incompleta: felicidade.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Feliz bêbado novo!
Bêbado é feliz! Aliás, eu bêbado sou feliz. Quando beberico infindáveis goles de qualquer substância alcoólica torno-me mais animado do que antes. Não que eu não seja animado, eu até sou, mas quando bebo, fico mais. Bêbados são hipócritas também. Usando-me como exemplo, sou hipócrita quando bebo, abraço pessoas que não gosto, cumprimento outras que não gostam de mim, mas torno-me um cínico bêbado.
É contagiante a efusividade de um ambiente onde só há bêbados. Gritos, brados, ponderações, filosofias e uma séria de chingamentos (que bêbado normalmente vira macho). Há pouco tempo entendi que não gosto muito de beber até ficar bêbado, gosto sim é de desfrutar do suave douro de um chope, ou beber uma cerveja uruguaia com os amigos. Isso é bom. Um vinho no inverno ao lado de uma boa companhia, arrebatando a noite com muita libidinagem. Isso sim é coisa boa, ficar bêbado não.
Tão cínico quanto um bêbado, ou quanto eu bêbado, é o ano novo. Esse sim é um hipócrita de meia tigela. Faz juras ao que passou e promete ser melhor no que virá, mentira! É tão mentira quanto a integridade no senado. O ano velho, que chega ao fim, é um pobre bode expiatório, e o ano que está por vir é a válvula de escape da humanidade.
Todo mundo quer o ano novo, todo mundo espera que seja diferente do ano que chega ao fim, esquecem-se de que ele é sempre igual. O ano que virá, escute bem, será igual a todos os outros que já passaram. Alegrias e tristezas, dinheiro e pobreza, amores e desamores, tudo igual. Todo os anos são assim.
É hipocrisia desejar um feliz ano novo, por que é possível que eu nem goste de ti, e como não estou bêbado, não faço questão te desejar tudo de bom. Se eu te encontrar depois da comilança e das dúzias de champagne, venha falar comigo, pois aí eu te desejarei tudo de bom.
O ano novo será igual, e é utopia achar que ele será melhor ou pior. Agora uma coisa é certa, quero que o ano novo seja novo, e sendo assim, espero que seja diferente dos outros anos. Ah, quer saber, quero mais é que o rabo de todo mundo pegue fogo, ao inferno com utopias, hipocrisias, e com o bom português. Feliz 2011 a todos, e isso me inclui. Que nos encontremos mais vezes no próximo ano, e que ele seja melhor do que o que já passou.
É contagiante a efusividade de um ambiente onde só há bêbados. Gritos, brados, ponderações, filosofias e uma séria de chingamentos (que bêbado normalmente vira macho). Há pouco tempo entendi que não gosto muito de beber até ficar bêbado, gosto sim é de desfrutar do suave douro de um chope, ou beber uma cerveja uruguaia com os amigos. Isso é bom. Um vinho no inverno ao lado de uma boa companhia, arrebatando a noite com muita libidinagem. Isso sim é coisa boa, ficar bêbado não.
Tão cínico quanto um bêbado, ou quanto eu bêbado, é o ano novo. Esse sim é um hipócrita de meia tigela. Faz juras ao que passou e promete ser melhor no que virá, mentira! É tão mentira quanto a integridade no senado. O ano velho, que chega ao fim, é um pobre bode expiatório, e o ano que está por vir é a válvula de escape da humanidade.
Todo mundo quer o ano novo, todo mundo espera que seja diferente do ano que chega ao fim, esquecem-se de que ele é sempre igual. O ano que virá, escute bem, será igual a todos os outros que já passaram. Alegrias e tristezas, dinheiro e pobreza, amores e desamores, tudo igual. Todo os anos são assim.
É hipocrisia desejar um feliz ano novo, por que é possível que eu nem goste de ti, e como não estou bêbado, não faço questão te desejar tudo de bom. Se eu te encontrar depois da comilança e das dúzias de champagne, venha falar comigo, pois aí eu te desejarei tudo de bom.
O ano novo será igual, e é utopia achar que ele será melhor ou pior. Agora uma coisa é certa, quero que o ano novo seja novo, e sendo assim, espero que seja diferente dos outros anos. Ah, quer saber, quero mais é que o rabo de todo mundo pegue fogo, ao inferno com utopias, hipocrisias, e com o bom português. Feliz 2011 a todos, e isso me inclui. Que nos encontremos mais vezes no próximo ano, e que ele seja melhor do que o que já passou.
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