Lígia sentia, alguma coisa estava errada em seu corpo. Sentia-se enjoada, pesada, até a depressão parecia atingi-la naquela manhã. Já sabia o que estava acontecendo.
Tinha preguiça, a Lígia, de sair da cama, mas era necessário fazer a constatação final. Errara e agora, tinha certeza, era tarde demais para reparar o fato sucedido. Encontrou forças extraídas dos escaninhos de sua alma e debruçou-se na cama. Sentou-se logo em seguida.
A alguns metros dali, jazia um espelho e era até ele que Lígia almejava chegar. Concentrou os esforços, o enjoo só poderia ter um significado, não costumava ter aquele tipo de acesso. Pé por pé arrastou-se até a frente do espelho e mesmo antes de chegar lá, teve como intuito levar a mão a barriga, ali fez a constatação final, nem precisaria do espelho. Era o seu corpo, sua vida, seu enjoo, e o pequeno calombo que formava-se em sua barriga deixava claro o sinal do havia acontecido.
Em frente ao espelho parou, analisou-se, tal qual as mulheres sensíveis sempre fazem. Achou-se feia, tal qual as mulheres fazem. Achou-se gorda, tal qual as mulheres sempre fazem. A constatação estava feita. Assim que levantou um pouco a blusa do pijama e viu que de fato, aquele calombo resumia-se a sua barriga.
Voltou à cama, alguma coisa precisava ser feita. Sentou-se mais uma vez. Procurou o celular que deveria estar em algum lugar em meio às cobertas. Revirou a cama e o achou embaixo do travesseiro. Segurou o aparelho na mão e antes de abri-lo. Pensou no que faria, para quem ligaria. Um médico!, claro, um médico era o ideal. Precisava de uma consulta com um especialista, mas antes era necessário ligar para o seu namorado, afinal a culpa era dele. Ele fora o responsável por aquilo.
Ligou para ele, o namorado, o grande culpado. Ele que insistira em fazer aquilo que ela não queria e sempre havia dito a ele. O telefone chamou uma, duas, três vezes e ele atendeu:
- Oi Lígia. Como tu está meu amor?
- Olha aqui, Carlos Alberto, e nunca mais, ouviu bem, nunca mais volto a comer esses malditos bolinhos de batata que a tua mãe faz.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Pobre Isaias
Sentado ali, na mesma cadeira, apoiado na mesma mesa, digitando no mesmo teclado de sempre, usando os mesmos óculos e o mesmo suéter de caximir vermelho que sempre usou, ele via a vida passar. Via a vida passar por detrás das grossas lentes dos óculos que o protegiam do astigmatismo em grau baixo, miscigenado à miopia elevada. Atrás do mesmo guichê, digitava todos os dias, exaustivamente os números de códigos de barras das contas que as milhares de pessoas que iam ao banco onde trabalhava insistiam em pagar.
Eis que um dia uma frase mudou toda a vida de Isaias. Frase essa proferida pelas cordas vocais de quem ele menos esperava, daquele que fora seu carrasco de uma vida, seu gerente geral, o Vladimir:
- Isaias, tu não é mais caixa. Amanhã ruma pra mesinha do lado, vai pro atendimento de pessoa física. Será responsável pelos empréstimos.
Em-prés-ti-mos – Isaias digeriu vagarosamente o que aquela palavra significava para ele. Morfologicamente a palavra empréstimo não é lá de grande valia, mas ali, dentro do banco, significava ter poder sobre as pessoas. Ninguém vai pedir empréstimo com face fechada e cara de bunda. As pessoas que querem um empréstimo sabem que precisarão do Isaias, pois do contrário não contarão com seu dinheirinho na conta.
No dia seguinte, não mais ouviria as reclamações dos geriatras, ou as intimidações dos office boys. No dia seguinte, planaria como uma pluma carregada pelo vento rumo ao poder.
Terno e gravata! Sim, essa sim é a vestimenta adequada para quem concede empréstimos. Empertigou-se todo o Isaias, tirou as bolinhas de naftalina dos bolsos de seu terno preto e o vestiu. Rumou ao banco, sentou-se na cadeira deixada pelo Vargas, que fora transferido para outra agência, tirou a caneta da lapela – caneta nova, é bom que se diga – apertou no botão de sua extremidade e fez saltar do outro lado a ponta da caneta. Arrumou a gravata e aguardou. Dali a minutos o banco abriria e todos veriam quem era o novo responsável pelos empréstimos.
Assim foi, e uma fila formou-se ante o Isaias que substituíra as espessas lentes dos óculos por duas de contato azuis – sempre quis olhos azuis – e agora, com um sorriso quase obsceno assinava displicentemente os contratos de empréstimo. “Fui com a tua cara, tá aqui teu crédito”, pensava.
No mais das vezes aprovava os empréstimos, mas vez que outra lhe chegavam com um ar tão prepotente quanto o dele próprio e Isaias sem pestanejar dava-lhe um não.
Essa vida era o que pedira a Deus.
Até que um dia ela chegou. Chegou como só ela poderia chegar, prepotente. Sem dar-lhe bom dia, sem olhar-lhe no olho, apenas com a sua minissaia curta, muito curta, sua miniblusa curta, muito curta, suas coxas firmes, muito firmes, seus seios fartos, muito fartos. Tudo muito, tudo bom, essa era ela. “Quero ver os olhos” - pensou Isaias, mas a desgraçada nem sequer deu-se o trabalho de tirar os óculos de sol.
- Quero 20 mil, tio. Preciso comprar meu carroum – pediu e argumentou mascando um chiclete que de longe Isaias conseguia ver, era amarelo.
“Tio”, pensou Isaias. Tudo bem que ela tivesse os seus 20 anos e ele passara disso há no mínimo três décadas, mas “tio” era pejorativo demais. “Não vou dar”, pensou.
Pensou, mas na hora de responder não foi capaz. Tremeu, travou, engasgou, suou, e só conseguiu proferir:
- T-t-ta bem, qual teu nome?
- Isamiiiiim! - disse ela com um sorrisinho malicioso.
Ela sabia que tinha conseguido. Sabia que o desarmara, como sempre. Jamais perdera para um homem em seus 20 anos de experiência e não seria dessa vez.
Isaias, no dia seguinte voltou ao caixa do banco por vontade própria. Era um derrotado, deixara uma moça de 20 anos sobressair-se à sua vontade. Sentia-se mal.
Mal sabe Isaias, que todos os homens do mundo se deixam perder para uma moça de 20 anos. Todos os homens, Isaias!
Eis que um dia uma frase mudou toda a vida de Isaias. Frase essa proferida pelas cordas vocais de quem ele menos esperava, daquele que fora seu carrasco de uma vida, seu gerente geral, o Vladimir:
- Isaias, tu não é mais caixa. Amanhã ruma pra mesinha do lado, vai pro atendimento de pessoa física. Será responsável pelos empréstimos.
Em-prés-ti-mos – Isaias digeriu vagarosamente o que aquela palavra significava para ele. Morfologicamente a palavra empréstimo não é lá de grande valia, mas ali, dentro do banco, significava ter poder sobre as pessoas. Ninguém vai pedir empréstimo com face fechada e cara de bunda. As pessoas que querem um empréstimo sabem que precisarão do Isaias, pois do contrário não contarão com seu dinheirinho na conta.
No dia seguinte, não mais ouviria as reclamações dos geriatras, ou as intimidações dos office boys. No dia seguinte, planaria como uma pluma carregada pelo vento rumo ao poder.
Terno e gravata! Sim, essa sim é a vestimenta adequada para quem concede empréstimos. Empertigou-se todo o Isaias, tirou as bolinhas de naftalina dos bolsos de seu terno preto e o vestiu. Rumou ao banco, sentou-se na cadeira deixada pelo Vargas, que fora transferido para outra agência, tirou a caneta da lapela – caneta nova, é bom que se diga – apertou no botão de sua extremidade e fez saltar do outro lado a ponta da caneta. Arrumou a gravata e aguardou. Dali a minutos o banco abriria e todos veriam quem era o novo responsável pelos empréstimos.
Assim foi, e uma fila formou-se ante o Isaias que substituíra as espessas lentes dos óculos por duas de contato azuis – sempre quis olhos azuis – e agora, com um sorriso quase obsceno assinava displicentemente os contratos de empréstimo. “Fui com a tua cara, tá aqui teu crédito”, pensava.
No mais das vezes aprovava os empréstimos, mas vez que outra lhe chegavam com um ar tão prepotente quanto o dele próprio e Isaias sem pestanejar dava-lhe um não.
Essa vida era o que pedira a Deus.
Até que um dia ela chegou. Chegou como só ela poderia chegar, prepotente. Sem dar-lhe bom dia, sem olhar-lhe no olho, apenas com a sua minissaia curta, muito curta, sua miniblusa curta, muito curta, suas coxas firmes, muito firmes, seus seios fartos, muito fartos. Tudo muito, tudo bom, essa era ela. “Quero ver os olhos” - pensou Isaias, mas a desgraçada nem sequer deu-se o trabalho de tirar os óculos de sol.
- Quero 20 mil, tio. Preciso comprar meu carroum – pediu e argumentou mascando um chiclete que de longe Isaias conseguia ver, era amarelo.
“Tio”, pensou Isaias. Tudo bem que ela tivesse os seus 20 anos e ele passara disso há no mínimo três décadas, mas “tio” era pejorativo demais. “Não vou dar”, pensou.
Pensou, mas na hora de responder não foi capaz. Tremeu, travou, engasgou, suou, e só conseguiu proferir:
- T-t-ta bem, qual teu nome?
- Isamiiiiim! - disse ela com um sorrisinho malicioso.
Ela sabia que tinha conseguido. Sabia que o desarmara, como sempre. Jamais perdera para um homem em seus 20 anos de experiência e não seria dessa vez.
Isaias, no dia seguinte voltou ao caixa do banco por vontade própria. Era um derrotado, deixara uma moça de 20 anos sobressair-se à sua vontade. Sentia-se mal.
Mal sabe Isaias, que todos os homens do mundo se deixam perder para uma moça de 20 anos. Todos os homens, Isaias!
quinta-feira, 3 de março de 2011
Antítese do amor
Antítese! Vá lá, procure no dicionário ou puxe lá no fundo de sua memória
juvenil, desde lá dos tempos do colégio, o que significa. Farei melhor e
direi que basicamente antítese é o contrário, o oposto de alguma coisa é
a antítese. Agora que já sabe e que todos sabemos o que é, vou contar uma
história de antítese. Uma antítese do amor.
Tudo começou às avessas, quando não se esperava que começasse e chego a
admitir que quando nem se queria que algo começasse. Tão bem estavam os
dois, sós, sem ninguém para cobra-los, para vigiá-los, ou para
controlá-los. Mas valho-me aqui de uma frase que sem dúvidas há você de
conhecer: o destino é inexorável.
Por que a antítese? Por que além de começar quando não se queria que
começasse, eles não eram do tipo carinhoso, ah não eram mesmo.
Estapeavam-se, de brincadeira, claro. Declaravam-se ambos aversos um ao
outro. Faziam o que os casais não fazem. Eram o contrário do amor.
Entendeu agora o por que da antítese?
Bem, era de se esperar que esse convívio lhes despertasse a raiva e lhes
saturasse a paciência em poucos dias ou meses, mas do que falamos nesse
texto mesmo? Antítese! Antítese do amor, e antítese do lógico. Há exatos
onze meses, os dois se amaram.
Calendário, procurando no calendário, ver-se-á que há exatos onze meses
estávamos em uma sexta-feira Santa, dia 02 de abril, um dia, portanto,
especial, presume-se. Sim, um dia especial, o dia em que ele, posso
afirmar, conheceu pela primeira vez o amor. E o dia em que ela, sentiu-se
verdadeiramente amada, também pela primeira vez.
Desde então, aquele sentimento dispendioso do início, tornou-se o mais
puro, verdadeiro e irrestrito amor. Aqui esqueço a antítese, esqueço a
terceira pessoa e afirmo que no decorrer desse amor, eu encontrei-me e
encontrei o significado de uma palavra que sempre me foi familiar, ainda
que me parecesse incompleta: felicidade.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Feliz bêbado novo!
Bêbado é feliz! Aliás, eu bêbado sou feliz. Quando beberico infindáveis goles de qualquer substância alcoólica torno-me mais animado do que antes. Não que eu não seja animado, eu até sou, mas quando bebo, fico mais. Bêbados são hipócritas também. Usando-me como exemplo, sou hipócrita quando bebo, abraço pessoas que não gosto, cumprimento outras que não gostam de mim, mas torno-me um cínico bêbado.
É contagiante a efusividade de um ambiente onde só há bêbados. Gritos, brados, ponderações, filosofias e uma séria de chingamentos (que bêbado normalmente vira macho). Há pouco tempo entendi que não gosto muito de beber até ficar bêbado, gosto sim é de desfrutar do suave douro de um chope, ou beber uma cerveja uruguaia com os amigos. Isso é bom. Um vinho no inverno ao lado de uma boa companhia, arrebatando a noite com muita libidinagem. Isso sim é coisa boa, ficar bêbado não.
Tão cínico quanto um bêbado, ou quanto eu bêbado, é o ano novo. Esse sim é um hipócrita de meia tigela. Faz juras ao que passou e promete ser melhor no que virá, mentira! É tão mentira quanto a integridade no senado. O ano velho, que chega ao fim, é um pobre bode expiatório, e o ano que está por vir é a válvula de escape da humanidade.
Todo mundo quer o ano novo, todo mundo espera que seja diferente do ano que chega ao fim, esquecem-se de que ele é sempre igual. O ano que virá, escute bem, será igual a todos os outros que já passaram. Alegrias e tristezas, dinheiro e pobreza, amores e desamores, tudo igual. Todo os anos são assim.
É hipocrisia desejar um feliz ano novo, por que é possível que eu nem goste de ti, e como não estou bêbado, não faço questão te desejar tudo de bom. Se eu te encontrar depois da comilança e das dúzias de champagne, venha falar comigo, pois aí eu te desejarei tudo de bom.
O ano novo será igual, e é utopia achar que ele será melhor ou pior. Agora uma coisa é certa, quero que o ano novo seja novo, e sendo assim, espero que seja diferente dos outros anos. Ah, quer saber, quero mais é que o rabo de todo mundo pegue fogo, ao inferno com utopias, hipocrisias, e com o bom português. Feliz 2011 a todos, e isso me inclui. Que nos encontremos mais vezes no próximo ano, e que ele seja melhor do que o que já passou.
É contagiante a efusividade de um ambiente onde só há bêbados. Gritos, brados, ponderações, filosofias e uma séria de chingamentos (que bêbado normalmente vira macho). Há pouco tempo entendi que não gosto muito de beber até ficar bêbado, gosto sim é de desfrutar do suave douro de um chope, ou beber uma cerveja uruguaia com os amigos. Isso é bom. Um vinho no inverno ao lado de uma boa companhia, arrebatando a noite com muita libidinagem. Isso sim é coisa boa, ficar bêbado não.
Tão cínico quanto um bêbado, ou quanto eu bêbado, é o ano novo. Esse sim é um hipócrita de meia tigela. Faz juras ao que passou e promete ser melhor no que virá, mentira! É tão mentira quanto a integridade no senado. O ano velho, que chega ao fim, é um pobre bode expiatório, e o ano que está por vir é a válvula de escape da humanidade.
Todo mundo quer o ano novo, todo mundo espera que seja diferente do ano que chega ao fim, esquecem-se de que ele é sempre igual. O ano que virá, escute bem, será igual a todos os outros que já passaram. Alegrias e tristezas, dinheiro e pobreza, amores e desamores, tudo igual. Todo os anos são assim.
É hipocrisia desejar um feliz ano novo, por que é possível que eu nem goste de ti, e como não estou bêbado, não faço questão te desejar tudo de bom. Se eu te encontrar depois da comilança e das dúzias de champagne, venha falar comigo, pois aí eu te desejarei tudo de bom.
O ano novo será igual, e é utopia achar que ele será melhor ou pior. Agora uma coisa é certa, quero que o ano novo seja novo, e sendo assim, espero que seja diferente dos outros anos. Ah, quer saber, quero mais é que o rabo de todo mundo pegue fogo, ao inferno com utopias, hipocrisias, e com o bom português. Feliz 2011 a todos, e isso me inclui. Que nos encontremos mais vezes no próximo ano, e que ele seja melhor do que o que já passou.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
O Roubo do Sofá (parte quatro)
Em maio de 2009 dei início a uma série de contos intituladas: “O Roubo do Sofá”, fiz três capítulos da história e a abandonei. Hoje resolvi dar continuidade à história cujo início se faz presente nesse humilde blog, através do link: http://ah-poiseh.blogspot.com/2009/05/o-roubo-do-sofa-parte-1.html
Se quiserem conferir, fico contente.
- Acontece, meu bom rapaz, que a Denise sempre foi uma invejosa. Não admitia que eu, por ser alemã, fosse melhor sambista do que ela, que é negra. Dizia que eu anabolizava-me e por isso tinha tanta resistência. Fato é que no carnaval de 1971, Arroio Teixeira fez uma festa de carnaval estrondosa, da qual eu fui a rainha. E Denise naquela ocasião tentou assassinar-me. Era uma ordinária bandida aquela neguinha- começou Tia Rosmarie.
Quando a confissão de uma tentativa de assassinato foi feita, todos embasbacaram-se na sala. Denise havia tentado homicidar a Tia Rosmarie e isso não era algo bacana. Seria Denise a culpada pelo roubo do precioso sofá?
Rosmarie não tomou conhecimento de nossas caras de pavor e seguiu:
-Não que eu tenha me abalado quando aquela safada botou limão na minha capirinha, mesmo sabendo o quão alérgica eu era à fruta referida e ainda por cima alegou ter esquecido-se do fato. Aqui pra ela - nesse momento Tia Rosmarie bateu com a palma da mão esquerda em um orifício que ela mesma havia feito com o dedo indicador e o dedão da mão direita, como quem diz “pissa pra ela”, ato esse que mostrou o quão Tia Rosmarie era safadinha.
Teixeira interviu:
-Eu lembro disso, mas se não me falha a memória, ficou comprovado que a senhora havia simulado um mau súbito e que na verdade nem era caipirinha que tomava e sim uma bela de uma cerveja preta, Tia Rosmarie.
-Teixeira, seu velho cretino. Não fale coisas que não sabe. Acusaram-me de ter simulado, mas só eu mesma sei o que passei por causa daquela velha medíocre. E quer saber mais, vocês não estão me ajudando em nada. Apenas estão revirando um passado doloroso para mim. Ponham-se daqui para fora- gritou a velha empunhando uma empoeirada espingarda de tiros de sal que jazia escorada na parede até então.
Saímos sem pestanejar, pois todos sabíamos que Tia Rosmarie não esbanjava sanidade.
Sem o depoimento preciso da Tia Rosmarie, não teríamos como resolver o caso. Nos restava agora ir atrás do relato da Dona Denise, que poderia dar contundência às nossas suspeitas de que ela poderia estar por trás do sucedido. Encaminhamo-nos ao bar e quando lá chegamos, avistamos Monalisa correndo velozmente praia a fora, sem que ao menos no olhasse.
O bar estava fechado, mas quando chegamos mais perto, encontramos um bilhete amassado e embebido em água e areia molhada. Hermenes, que até então pouco havia aparecido na história, abaixou-se vagarosamente para junta-lo e quando o fez, desdobrou o papel com a mesma calma que usava para galantear suas fêmeas. No papel havia os seguintes dizeres:
“Se querem pistas, vão ao casarão”
...escritas numa caligrafia sem vergonha.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Caixinha preta de sentimentos
Lembro-me que na infância me intrigava o funcionamento dos mecanismos de uma televisão. Eu imaginava seres da velocidade da luz e do tamanho de bonequinhos de forte apache entrando naquela pequena caixa de plástico preta enquanto eu gozava de um belo sono, ou ocupava-me com outras alegrias da vida mirim.
Mais de uma vez pensei em lançar um tijolo ou martelar a tela de vidro quebradiça da caixa preta que continha as miniaturas. “Como pode eu ter a Angélica dentro de uma caixinha em casa e não poder conversar com ela, ou tocá-la”, eu pensava. Pensamentos puros, é bom que se diga, pois eu ainda era uma criança. Fosse hoje talvez eu não falasse da Angélica.
Não lembro quando descobri que a tevê não era uma caixa de brinquedos, mas devo ter me frustrado, pois descobertas assim, ferem nosso imaginário, é como quando dizem que o Papai Noel não existe. Algum gaiato sempre diz que o Papai Noel não existe e que a tevê é um aparelho eletrônico. Sempre tem alguém para estragar a brincadeira.
Ou roubam a bola em pleno campinho de futebol, ou espiam no no esconde-esconde, há ainda uma série de outras coisas que definem aqueles que não sabem brincar. Há pessoas assim! Do tipo que não sabe brincar, e não feliz com isso, ainda resolve entristecer a brincadeira dos outros.
O Natal Luz de Gramado é um exemplo. Começou nas sarjetas de uma cidadezinha meia boca, com meia dúzia de hortênsias e um padre. Começou sendo uma festinha tão meia boca quanto a cidade que o abrigava. Mas cresceu, bem como sua cidade.
Cresceu em 25 anos como cresci eu a ponto de não acreditar mais nas miniaturas da tv. Cresce e desfaz-se de uma criança, tornando-se um homem e que belo homem se torna. Capaz de sustentar-se com suas próprias pernas. Capaz de escolher seu rumo sozinho, mas sempre consultando àqueles que o querem ajudar, é assim a vida de um homem grande.
O acusam agora e balançam com a sua moral, mesmo os homens bonitos são acuados quando lhes desmoralizam e assim é. A mim, mesmo não sendo bonito, se ofendem, eu vou embora. Viro as costas e bato em retirada, não fico onde não gostam de mim. Talvez o Natal Luz não pense assim, e eu espero que não pense.
O fato é que se o cérebro do Natal Luz não pensa assim, me parece que o coração dele, outrora e por muitos anos ainda, espero, chamado Peccin, pensa o contrário. O sentimento não esconde-se atrás de enfeites de Natal, e sim é exposto e gera reações.
Dentro de um emaranhado de imposições ou opiniões há quem defenda a posição de um ou de outro e eu respeito todas, mas tenho a minha. O Natal Luz de Gramado é o que é graças a Luciano Peccin e sua família. Não há poréns ou pormenores. É assim.
Não condeno qualquer um que seja que por ventura questione a formatação de um evento, porém, há informações pouco pertinentes correndo na rua. O evento é público sim, mas com verbas de incentivo privado. Com verbas de patrocínio. O incentivo público ao evento, se dá na mão de obra e na participação dos lucros.
Assim como na realização de qualquer evento, há prestação de contas e não é cabível aceitar que digam o contrário. Durante o evento, em um dia qualquer abram o jornal e perceberão que ali, como em um passe de mágica estará uma planilha de duas páginas do jornal inteiras contendo os números do evento.
Licitação tudo bem, há de ser feito e aí concordo de fato. Mas não acho cabível pessoas sem conhecimento de cause julgarem sentimentos e os exporem como se psiquiatras mais eficientes do que o próprio Freud fossem. Ninguém pode terceirizar sentimentos. Cada um sente o seu. Pessoas que apontam sentimentos assim, só podem achar que lá dentro da televisão ainda estão as miniaturas dos dias passados.
Mais de uma vez pensei em lançar um tijolo ou martelar a tela de vidro quebradiça da caixa preta que continha as miniaturas. “Como pode eu ter a Angélica dentro de uma caixinha em casa e não poder conversar com ela, ou tocá-la”, eu pensava. Pensamentos puros, é bom que se diga, pois eu ainda era uma criança. Fosse hoje talvez eu não falasse da Angélica.
Não lembro quando descobri que a tevê não era uma caixa de brinquedos, mas devo ter me frustrado, pois descobertas assim, ferem nosso imaginário, é como quando dizem que o Papai Noel não existe. Algum gaiato sempre diz que o Papai Noel não existe e que a tevê é um aparelho eletrônico. Sempre tem alguém para estragar a brincadeira.
Ou roubam a bola em pleno campinho de futebol, ou espiam no no esconde-esconde, há ainda uma série de outras coisas que definem aqueles que não sabem brincar. Há pessoas assim! Do tipo que não sabe brincar, e não feliz com isso, ainda resolve entristecer a brincadeira dos outros.
O Natal Luz de Gramado é um exemplo. Começou nas sarjetas de uma cidadezinha meia boca, com meia dúzia de hortênsias e um padre. Começou sendo uma festinha tão meia boca quanto a cidade que o abrigava. Mas cresceu, bem como sua cidade.
Cresceu em 25 anos como cresci eu a ponto de não acreditar mais nas miniaturas da tv. Cresce e desfaz-se de uma criança, tornando-se um homem e que belo homem se torna. Capaz de sustentar-se com suas próprias pernas. Capaz de escolher seu rumo sozinho, mas sempre consultando àqueles que o querem ajudar, é assim a vida de um homem grande.
O acusam agora e balançam com a sua moral, mesmo os homens bonitos são acuados quando lhes desmoralizam e assim é. A mim, mesmo não sendo bonito, se ofendem, eu vou embora. Viro as costas e bato em retirada, não fico onde não gostam de mim. Talvez o Natal Luz não pense assim, e eu espero que não pense.
O fato é que se o cérebro do Natal Luz não pensa assim, me parece que o coração dele, outrora e por muitos anos ainda, espero, chamado Peccin, pensa o contrário. O sentimento não esconde-se atrás de enfeites de Natal, e sim é exposto e gera reações.
Dentro de um emaranhado de imposições ou opiniões há quem defenda a posição de um ou de outro e eu respeito todas, mas tenho a minha. O Natal Luz de Gramado é o que é graças a Luciano Peccin e sua família. Não há poréns ou pormenores. É assim.
Não condeno qualquer um que seja que por ventura questione a formatação de um evento, porém, há informações pouco pertinentes correndo na rua. O evento é público sim, mas com verbas de incentivo privado. Com verbas de patrocínio. O incentivo público ao evento, se dá na mão de obra e na participação dos lucros.
Assim como na realização de qualquer evento, há prestação de contas e não é cabível aceitar que digam o contrário. Durante o evento, em um dia qualquer abram o jornal e perceberão que ali, como em um passe de mágica estará uma planilha de duas páginas do jornal inteiras contendo os números do evento.
Licitação tudo bem, há de ser feito e aí concordo de fato. Mas não acho cabível pessoas sem conhecimento de cause julgarem sentimentos e os exporem como se psiquiatras mais eficientes do que o próprio Freud fossem. Ninguém pode terceirizar sentimentos. Cada um sente o seu. Pessoas que apontam sentimentos assim, só podem achar que lá dentro da televisão ainda estão as miniaturas dos dias passados.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Quem foi rei...
Artur foi, e tenho lido sobre isso, um grande homem. Alguns não saberão de que Artur eu falo aqui, pois não o reconhecem sem um prefixo comum na prescedência do nome do homem, Rei. O Rei Artur, que não foi rei, mas foi Artur.
Não foi Rei e explico o por que. Ele na verdade, tomou as rédeas de um país, quando seu rei verdadeiro ainda era uma inocente criança aguardando a vinda da maturidade. Nesse período, Arutr comandou, mas não foi rei. Ao menos até onde me consta. O que acho bárbaro, e fascinante em sua história, porém, não é só o fato de ele não ter sido rei e assim ser taxado, mas sim o fato da forma como é contada a sua história.
Lendas e histórias infantis falam de uma espada encravada em uma pedra e cujo destino a permitiria ser desestocada dali apenas por um homem nobre de peito e alma, ou seja, seu verdadeiro dono, que por um acaso vinha a ser o dito cujo Artur.
Há alguns dias li o primeiro livro de uma trilogia que conta a história de Artur em detalhes, narrado em uma terceira pessoa, que segundo o livro seria um dos maiores cavaleiros de Artur e não, esse cavaleiro não é Lancelot e aí eu chego onde queria chegar. De acordo com o personagem narrador do Livro, escrito pelo grande Bernard Cornwell, Derfel, o nome dele, ele sim era um grande guerreiro, enquanto Lancelot era um covarde frutinha.
Sim, de acordo com o livro, Lancelot era apenas um medíocre, filho de um rei sem reino, pois o pai de Lancelot, Ban, foi destronado em meio a uma guerra com os saxinônicos, e não lutava, apenas fingia. Isso mesmo, fingia que lutava. Os bardos cantavam suas sagas dignas de Homero, pois ele os pagava. Encomenadava histórias a serem contadas, criando assim uma fama de herói. Lancelot virou um machão galanteador, um protótipo de Don Juan da Idade Média, quando na verdade era um franguote meio que afeminado. É o que diz o livro.
O que me instiga são esses “poréns” da história e não só da história do Artur, mas sim da história geral. Os pormenores de todas as histórias. Admiro-me com o fato de algumas histórias serem tidas como verdade absoluta quando todos sabemos que na verdade não são. É impossível se perpetuar uma história como ela realmente foi ao longo do tempo. Relatos podem conter verdades, mas podem ocultar outras. Por vezes, involuntariamente, por outras, da maneira mais proposital possível. Quer um exemplo?
A estátua de Moisés feita pelo Michelangelo tem guampas. Sim, tem guampas e alguns dirão, “mas é um arigó esse Ricardo. Tá na Bíblia, é só olhar e ver que diz lá que ele tinha gumpas”, mas não, ele não tinha guampas. Qual o tipo de homem que tem guampas? Não refiro-me ao figurado. Mas enfim, Moisés não tinha guampas. Ai alguns pensarão que então quem escreveu tal citação, das gumpas de Moisés, devia ter tomado ácido ou qualquer outra droga para que dissesse que o pobre homem era chifrudo, mas eu explico o fato. Por uma ou duas palavras de diferênça, na hora em que a passagem foi traduzida do Latim, a conotação da mesma sofreu uma significativa mudança. “O rosto iluminado pelas luzes celestiais”, a frase dizia em sua língua original. “Carregava chífres na cabeça”, a tradução.
Um segredo se esconde atrás de outro segredo e é por isso que eu não sou o maior cristão do mundo. Outrora já externei minha opinião de que acredito em uma força que rege o Universo, sim. Mas não que ela vem exclusivamente de um lugar só.
Não se pode crer em uma meia verdade, ou numa história sem argumentos científicos que comprovem essa sua vercidade.
Uma vez ouvi de uma amiga que é aí que entra a questão da fé. Quem crê, é por que quer e por que tem fé. E eu, apenas avalio que posso não ter fé em muitas coisas, mas no Renato Portalupppi eu tenho. Isso por que, Renato é um mito real. Daqueles que se vê surgir e não se vê perder a graça.
Saiu de dentro do campo, porém, não sai do futebol, é daqueles que segue sendo um mágico das quatro linhas. Tirou o Grêmio de uma situação complicada e vislumbra logo ali a frente, uma vaguinha na Libertadores da América do ano que vem.
Isso sim é ser rei, um rei como Artur, cujo adjetivo é totalmente figurado, porém, a magnitude do que esse homem significa, certamente entrará para a história, como outrora já entrou com as cenas de Tókio.
Contudo, espero, porém, que Renato, assim como Artur, não seja um rei que apenas esteja esperando a chegada de outro para ceder seu lugar ao sol, ou ao trono. Renova Renato.
Não foi Rei e explico o por que. Ele na verdade, tomou as rédeas de um país, quando seu rei verdadeiro ainda era uma inocente criança aguardando a vinda da maturidade. Nesse período, Arutr comandou, mas não foi rei. Ao menos até onde me consta. O que acho bárbaro, e fascinante em sua história, porém, não é só o fato de ele não ter sido rei e assim ser taxado, mas sim o fato da forma como é contada a sua história.
Lendas e histórias infantis falam de uma espada encravada em uma pedra e cujo destino a permitiria ser desestocada dali apenas por um homem nobre de peito e alma, ou seja, seu verdadeiro dono, que por um acaso vinha a ser o dito cujo Artur.
Há alguns dias li o primeiro livro de uma trilogia que conta a história de Artur em detalhes, narrado em uma terceira pessoa, que segundo o livro seria um dos maiores cavaleiros de Artur e não, esse cavaleiro não é Lancelot e aí eu chego onde queria chegar. De acordo com o personagem narrador do Livro, escrito pelo grande Bernard Cornwell, Derfel, o nome dele, ele sim era um grande guerreiro, enquanto Lancelot era um covarde frutinha.
Sim, de acordo com o livro, Lancelot era apenas um medíocre, filho de um rei sem reino, pois o pai de Lancelot, Ban, foi destronado em meio a uma guerra com os saxinônicos, e não lutava, apenas fingia. Isso mesmo, fingia que lutava. Os bardos cantavam suas sagas dignas de Homero, pois ele os pagava. Encomenadava histórias a serem contadas, criando assim uma fama de herói. Lancelot virou um machão galanteador, um protótipo de Don Juan da Idade Média, quando na verdade era um franguote meio que afeminado. É o que diz o livro.
O que me instiga são esses “poréns” da história e não só da história do Artur, mas sim da história geral. Os pormenores de todas as histórias. Admiro-me com o fato de algumas histórias serem tidas como verdade absoluta quando todos sabemos que na verdade não são. É impossível se perpetuar uma história como ela realmente foi ao longo do tempo. Relatos podem conter verdades, mas podem ocultar outras. Por vezes, involuntariamente, por outras, da maneira mais proposital possível. Quer um exemplo?
A estátua de Moisés feita pelo Michelangelo tem guampas. Sim, tem guampas e alguns dirão, “mas é um arigó esse Ricardo. Tá na Bíblia, é só olhar e ver que diz lá que ele tinha gumpas”, mas não, ele não tinha guampas. Qual o tipo de homem que tem guampas? Não refiro-me ao figurado. Mas enfim, Moisés não tinha guampas. Ai alguns pensarão que então quem escreveu tal citação, das gumpas de Moisés, devia ter tomado ácido ou qualquer outra droga para que dissesse que o pobre homem era chifrudo, mas eu explico o fato. Por uma ou duas palavras de diferênça, na hora em que a passagem foi traduzida do Latim, a conotação da mesma sofreu uma significativa mudança. “O rosto iluminado pelas luzes celestiais”, a frase dizia em sua língua original. “Carregava chífres na cabeça”, a tradução.
Um segredo se esconde atrás de outro segredo e é por isso que eu não sou o maior cristão do mundo. Outrora já externei minha opinião de que acredito em uma força que rege o Universo, sim. Mas não que ela vem exclusivamente de um lugar só.
Não se pode crer em uma meia verdade, ou numa história sem argumentos científicos que comprovem essa sua vercidade.
Uma vez ouvi de uma amiga que é aí que entra a questão da fé. Quem crê, é por que quer e por que tem fé. E eu, apenas avalio que posso não ter fé em muitas coisas, mas no Renato Portalupppi eu tenho. Isso por que, Renato é um mito real. Daqueles que se vê surgir e não se vê perder a graça.
Saiu de dentro do campo, porém, não sai do futebol, é daqueles que segue sendo um mágico das quatro linhas. Tirou o Grêmio de uma situação complicada e vislumbra logo ali a frente, uma vaguinha na Libertadores da América do ano que vem.
Isso sim é ser rei, um rei como Artur, cujo adjetivo é totalmente figurado, porém, a magnitude do que esse homem significa, certamente entrará para a história, como outrora já entrou com as cenas de Tókio.
Contudo, espero, porém, que Renato, assim como Artur, não seja um rei que apenas esteja esperando a chegada de outro para ceder seu lugar ao sol, ou ao trono. Renova Renato.
Assinar:
Postagens (Atom)