segunda-feira, 25 de julho de 2011

É só isso

Quando a vi, senti minha alma congelada. Senti que subitamente esfriou e subitamente esfriei também.
-O amor, - me disse ela - segundo os poetas, traz frio ao peito e gela o coração. Deves estar me amando.
Eu respondi:
- É inverno e estamos em Gramado. Aqui quando o sol vai embora fica muito frio mesmo. Não te acha guria.
Ponto final.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O mundo dá voltas, Aninha

Dentre todas as guriazinhas do colégio, era ela quem andava saltitando tal qual uma gazela nova, serelepe, pelos pastos verdes de uma tarde primaveril. Era ela que me resfolegava e que, coisa que é difícil, me deixava sem ter nada a dizer. Ela me intimidava com aqueles cabelos negros escorridos por sobre o ombro, ela me mostrava que mesmo aos 14 anos, um shortinho jeans azul exerce um poder arrebatador sobre a mente masculina. É claro que ela sabia disso.
Todo passeio dela pelo saguão na hora do recreio era um feito que reservava as maiores honras e atraia olhares embasbacados do público masculino e dolorosos do público feminino. Como trompas prenunciando uma guerra na idade média, quando ela resolvia sair andarilhar pelo recreio, os guris diziam:
- Lá vem a Aninha. Nossa! - e silêncio. Silêncio por que não era só de mim que ela tomava a fala, era de mim e de todos os guris. A turma toda calava e com os olhos vidrados e a respiração trancada, olhava ela passar, para só depois, esvaziar os pulmões, e então, alguns passos da Aninha para lá, declarar:
- Mas é gostosa essa guria.
Aninha nem sequer tinha o trabalho de olhar risonha para trás e agradecer o elogio com uma piscadela. Nos ignorava. Isso que éramos, ignorados pela Aninha, nada mais do que isso.
Naquelas alturas, a Aninha era um mulherão, dessas que crescem mais cedo.
- A Aninha engostosou antes – dizia o Toninho.
Certa vez,teve uma aposta.
- Eu duvido que tu vá trovar a Aninha – me disse o Shimia.
- Vale quanto? - perguntei.
- Um pão de queijo, uma 'espraite' e cola na prova de matemática.
Eu fui.
Lá estava ela, sentada, sozinha - que nem amigas ela tinha - lendo a Revista Capricho. As pernas morenas cruzadas, longas, firmes, tão firmes como são as pernas de uma guria de 14 anos que engostosou antes. Olhei-a de longe, engoli a saliva e fui, pé por pé, com o peito estufado e um olhar que dizia: “tu vai ser minha, Aninha”.
Meu tênis de amortecedor fazia: “puf” “puf”, um passo, outro. Quanto menor era a distância mais eu diminuía. Até que cheguei na frente dela, ali sentada no banquinho do lado da sala da direção.
- E ai guriaam?! - falei mascando um chiclé para parecer mais malandrão.
- Hm- ela bufou, levantou os olhos, viu que era eu e voltou a ler a Capricho.
- Posso sentar?
- Hã...não, né.
Fui embora, arrasado, sem o pão de queijo, a 'espraite', sem a Aninha e desonrado. Naquele ano eu peguei recuperação em matemática.

Antes de ontem, encontrei a Aninha no Nacional. Fingi que não a vi, ainda dói em mim lembrar daquele dia, sabe. Eu fingi que não a vi, mas ela me viu, e viu bem. Parou na fila do meu lado do caixa e abusando da minha visão periférica vi que ela me olhava. Olhava de cima a baixo. Eu demorei, mas cresci.
- Ricardo?!
- Ah, e ai Aninha.
- Quanto tempo! Nossa, nunca mais te vi. Como tu tá diferente guri - diferente nesse caso, só pode querer dizer bonito, por que se antes eu era feio, sendo diferente só posso ser bonito. Mesmo que não seja isso, eu pensei que sim.
- Arram, né.
- Bah, que bom te ver. Vamos marcar alguma coisa, hein.
- Arram.

Paguei meu tinto seco, e fui.

Não consigo dizer não a uma mulher, por isso, disse “arram” pra Aninha. Mas ela sabe que a dispensei. Sabe que o meu arram, quer dizer “nem pensar”. A Aninha levou um fora, ela aprendeu como é um se sentir humilhada, na fila do mercado Nacional.
A Aninha está gorda, cortou os cabelos, e nem de longe entraria naquele shortinho jeans de antigamente. Eu vibrei.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Falta de sentimentos

Por que me falta capacidade para escrever sentimentos? Mesmo que haja uma infinidade de tempo, uma folha vazia, um bom teclado e uma xícara de café quente, não consigo escrever sentimentos.
Logo eu, tão intenso em tudo, tão efusivo em minhas manifestações, tão eloquente em minhas declarações. Sou isso, ou penso que sou. Por que então, não consigo falar de sentimentos?
Minhas letras, ao que parece, não se deixam levar pela raiva, nem pela angústia. Não se levam pelo bem, pelo mal – mesmo que esses não sejam sentimentos -, nem ao menos o ódio me faz escrever. O amor já me fez. Segue me fazendo, o que me falta, é talento. Um texto que fala sobre amor deve ser tão peremptório quanto o próprio amor, e talvez aí esteja minha maior frustração, tenho opiniões, mas falta-me o poderio do convencimento. Diz lá no topo do blog, a retórica do não convencimento. Não sei convencer alguém a ler meus textos. Não sei convencer alguém a vender mais barato, não sei convencer a comprar. Não sei fazer alguém me odiar – mesmo assim as vezes consigo –, também não sei fazer alguém me amar. Não sei fazer ninguém chorar, e só as vezes faço alguém sorrir. Resumidamente eu não sei. Não sei o por que não sei e não sei se um dia saberei.
Um poema! Quem dera eu escrevesse um poema, e que esse poema fosse tocante, daqueles que congelam a alma, e afloram o sentimentos.
SENTIMENTOS! Sentimentosdemerdaquevãotomarnocu. Se eu escrevesse um poema, intitular-se-ia: “Não leia”. Aliás, não poria título algum, pois sabedores que todos são de que não sei falar de sentimentos, nem sequer leriam, quando vissem minha assinatura em um poema, e se, por ventura lessem, logo pensariam: “lá vem mais merda”.
Chego ao fim de mais um texto sem expressão, sem persuasão, sem característica, sem fundamento. Deparem-se e surpreendam-se com mais um texto sem sentimentos.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Contra provas sempre haverá argumentação

- Então é assim? Vais continuar me ameaçando com essa história, Maria Emília?
- Ah, pode apostar que vou, Jorge Henrique.
- Quantas vezes vou ter que te dizer que eu não dormi com ela?
- Quantas vezes for preciso pra me fazer acreditar.
- Tu já me disse que não acredita e nem vai.
- Então tu vai ter que falar pra sempre. Ou para de falar.
- Assim não dá!
- Ah não dou mesmo.
- Ah, sem sexo eu não fico!
- Tá vendo, vai procurar ela de novo.
- Maria Emília, eu não dormi com ela.
- Não dormiu ainda, mas do jeito que as coisas vão...
- Ah, então partimos do princípio que eu não dormi com ela mesmo?
- Partimos do princípio que a única coisa que vocês não fizeram foi dormir.
- Não dormimos e nem nada.
- Jorge Henrique, senta aí.
- O que é isso?
- É o teu vídeo com ela, eu mandei alguém gravar.
- V...v...vídeo? Isso tá errado.
- Ah tá errado mesmo.
- Não sou eu esse ai. Tá bem claro.
- E a tatuagem na nádega, Jorge Henrique? Quantas pessoas escrevem só mamãe pôs a mão, na bunda?
- É montagem. É claro que é. Minha masculinidade é maior que a desse cara.
- Ah não é mesmo! Até parece maior na TV.
- Mesmo?
- Mesmo.
- Mas é pequeno ali.
- É pequeno ali...mas não muda de assunto, é tu ali com a sem vergonha da Carolina.
- Ela me seduziu....me ameaçou, disse que se não saísse com ela o pai dela me demitiria da empresa. O que é isso, Maria Emília?
- Um gravador. “Clic”- E nessa fita, estão gravadas as tuas conversas com ela. Desde a parte que tu diz que ama ela, até o pedido de desculpa do dia seguinte por ter durado só 16 segundos.
- 18!
- 18 o que?
- Segundos. Durou 18 segundos.
- Pronto, admitiu.
- Tu me obrigou.
- Maria Emília! Eu não quero mais nada contigo, acabou.

E assim, o Jorge Henrique virou as coisas foi-se embora, mostrando como é o homem. Há provas, há argumentos, mas jamais haverá razão. Não enquanto houver tatuagens de rena!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O maior pinto da rua

Tudo sempre acontecia no final da tarde, antes que a noite chegasse, visto que eram todos muito pequenos para perambular na rua mal iluminada apenas à luz do luar. Era em frente às casas, sim, pois só assim, os gritos das mães poderiam ser ouvidos quando fosse a hora de retornar para seus estimados e quentes lares.
Fábio, Igor, Renato, Henrique. Aí estão, eram quatro. Dois para cada lado.

A rua, pouco movimentada, servia de quadra, ao passo que dois chinelos havaianas, postados simetricamente a um passo do outro serviam de goleira de um lado, e a alguns metros além a outra goleira era formada. Ali, limitados pelas linhas laterais (os meio-fios), os quatro atletas digladiavam-se freneticamente sempre em busca da vitória.
Não que garotos de nove anos protagonizassem lances dignos de aplausos e gritos da torcida, mas eles se esforçavam ao máximo e dentro da mente de cada um, era notável que eram craques. Sem dúvidas o futuro do esporte mundial passava por aqueles pés.
Tudo bem, não eram lá grandes atletas, mas foi em um dia qualquer, que um deles soube que era mais afortunado do que os outros três. Sim, um deles nascera predestinado, e só descobriu isso, quando a bola parou de rolar.
Em uma brecha qualquer do jogo, houve uma pausa, um intervalo, onde todos os quatro atletas, mesmo os rivais, postaram-se lado a lado, em frente a cerca de uma casa, e ali esvaziaram suas bexigas. É bem verdade que guris de nove anos não são lá muito pudorosos, mas de qualquer forma ali mijavam, inocentemente.
Acontece que em qualquer data da vida de um homem, após ele começar a entender a vida, existe o pensamento libidinoso. Ah, pode acreditar que isso está presente até nas mentes juvenis. Por vezes não expressamente, mas sempre acontece, é instinto, saca?
Em meio ao momento do xixi, Fábio, Igor, Henrique e Renato conversavam, e não prestaram atenção no que estava acontecendo bem à sua frente. A conversa rolava e todos se chamavam pelo nome, o que proporcionou o que viria a acontecer.
No fim do ato, a janela da casa da frente se abre, e em um ato reflexo, todos os quatro amigos guardam o pinto que lhe pertence. Mas, já era tarde. Uma senhora, cuja idade não lhes foi revelada, já os havia visto com o pistolim na mão.

-Vi o pinto de vocês, e até sei qual é o maior! - disse e velha sem vergonha.
Atônitos, os jovens não sabiam como reagir. E agora, o que seria? Eis que um deles tomou coragem e perguntou:
- É mesmo? E qual é?
- Não posso dizer, por que assim, um de vocês vai ficar constrangido.
Os quatro guris decepcionaram-se. Por que ficaria um deles constrangido, se o que mais queriam era saber qual era o mais ticudo?
A velha continuava ali, dependurada no parapeito da janela, e enquanto isso, os jovens conversavam. De repente a velha comentou:
- Henrique, era tu que estava bem ao lado esquerdo né?
- Sim – disse Henrique, sem que os outros entendessem. Era uma indireta, a velha queria dizer nas entrelinhas, que era ele o dono do maior pinto. Um sorrisinho sacana surgiu nos lábios do Henrique, enquanto ele olhava para os outros três.
Quando empinou o queixo, estufou o peito e disse que não queria mais jogar, os outros todos entenderam, era ele o dono do maior pinto do joguinho da rua.
Pela primeira vez na vida de Henrique, seu ego foi inflado por uma mulher. Mal sabia Henrique, que na verdade, os outros três é que de fato estavam sendo preparados para a vida.
Uma mulher quase nunca infla teu ego, e saibam Fábio, Igor e Renato, essa foi só a primeira vez que uma delas te frustrou...só a primeira!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

As indiretas para Alice

Um ponto de exclamação. Era evidente que a frase terminara com um ponto de exclamação. Pro Paulo Roberto, aquele ponto fazia toda a diferença. Do alto do metro e dez de pernas torneadas, da fina cintura, do busto farto e despejado daquela linda boca carnuda, aquele ponto de exclamação só poderia conter segundas intenções.
- Me dá uma carona, Paulinho?, ela perguntara.
- Claro, Alice. Vais pra onde?
- Como pra onde, vou para o Botafogo, claro!
“Pro Botafogo, claro!”, ali estava ele, o ponto de exclamação, no final do Botafogo. Se fosse o bairro, pura e simplesmente, ela não teria exclamado, teria quando muito afirmado que queria uma carona, homens não negam pedidos para donas de pernas de um metro e dez. Mas o ponto de exclamação continha um algo mais.
Todos sabem, há o Motel Botafogo, é consagrado é um bonito motel. Alice só poderia estar finalmente cedendo às tentativas até então frustradas do Paulo Roberto. Era a explicação mais plausível.
O destino era incerto, bairro ou motel, mas de qualquer forma o motel Botafogo fica no bairro Botafogo e para lá que Paulo Roberto rumaria, levando em seu carro aquela exuberante loira dourada, das pernas torneadas e da cintura fina e...enfim, aquela loira pra lá de adjetivada.
O percurso não era lá dos maiores, e Paulo tinha pouco tempo para sanar as dúvidas que aquele ponto continha. Era tudo ou nada, partiria para cima da Alice ainda hoje.
Ainda no escritório, quando deu 18h, Paulo procurou Alice, pois ambos teriam que rumar estacionamento, que era no subsolo do prédio, e carinhosamente chamado pelos funcionários como “buraco”. Paulo proferiu, tateando Alice, claro:
- E ai, te pego no buraco?
- Sim, Paulinho, acho que vamos juntos, né!?
- Isso, vamos juntos.
Pronto, o primeiro tiro acertou o alvo, mas a dúvida ainda era frenética no âmago de Paulo. Precisaria de mais do que aquilo para não errar o pulo ao encaminhar-se ao Motel Botafogo.
Foram até o “buraco” de elevador, então Paulo teve outra ideia.
- Não gosto de descer no elevador. Prefiro subir. Tudo gosta quando sobe, Alice?
- Ain, Paulinho, pra mim tanto faz. Gosto de qualquer jeito.
E agora! Essa frase deixava tudo no ar. Seria um joguinho de palavras da Alice, ou ela nem ao menos teria entendido a indireta? Mais perguntas deveriam ser feitas.
Chegaram ao “buraco” e foram adentrando no carro de Paulo, um Xsara Picasso. O carro jogava no mesmo time de Paulo. Picasso.
- Gostou do meu carro novo, Alice? Comprei zero quilômetro.
- Muito bonito, Paulo. É grande, gosto de carro grande.
- É, realmente o Picasso é grande.
- Sim, eu percebi. Queria ter um assim pra mim.
Bola dentro. Ela estava dando indícios de que o caminho era o Motel.
Agora era tudo ou nada, três chutes, dois gols e uma bola na trave, o Paulo Roberto precisava ter certeza do interesse de Alice em desfrutar de seu corpo, mas a última atirada de Paulo Roberto desmoronou tudo.
- Onde mesmo temos que ir no Botafogo?
- Ué, eu moro lá, Paulinho. Quero ir para a minha casa.
Acabou tudo. Paulo fora vencido pela loira das altas pernas, do corpo dourado, da cintura fina, do busto farto, dos adjetivos, enfim...fora derrotado por Alice. Ela morava com os pais e se queria ir para casa, isso significava o fim.
Ele pensara em largar da mulher, deixar os filhos, só para viver um romance no qual tivesse como par a Alice. Tudo fora abaixo. Seus sonhos de viver essa aventura foram jogados ao vento com essa simples frase.
Concentrou-se na pista e apenas ouviu as instruções de Alice sobre como chegar na sua casa.
Enfim chegaram, e um desolado Paulo Roberto apenas olhou para Alice e balançou positivamente a cabeça como quem diz “está entregue”.
Ela fitou-o do banco do carona. Olhou-o como olha uma cadelinha no cio para o cão que a corteja. Paulo não deu bola.
Antes de sair do carro, ela disse:
- Obrigado, Paulinho. Agora que já sabe onde é minha casa, pode vir mais vezes. Beijinhos.
Ao fim do encontro, o pensamento de cada um:
Paulo:
“Como assim visitar mais vezes?”, “ela quer que eu volte?”, “mas e os pais dela?”. “Ai céus, que mulher complicada”.
Pensamento da Alice:
“Ai, odeio homem que não se dá conta!”. “Será que eu deveria ter dito que não moro mais com os meus pais?”.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Algo errado com Lígia

Lígia sentia, alguma coisa estava errada em seu corpo. Sentia-se enjoada, pesada, até a depressão parecia atingi-la naquela manhã. Já sabia o que estava acontecendo.

Tinha preguiça, a Lígia, de sair da cama, mas era necessário fazer a constatação final. Errara e agora, tinha certeza, era tarde demais para reparar o fato sucedido. Encontrou forças extraídas dos escaninhos de sua alma e debruçou-se na cama. Sentou-se logo em seguida.

A alguns metros dali, jazia um espelho e era até ele que Lígia almejava chegar. Concentrou os esforços, o enjoo só poderia ter um significado, não costumava ter aquele tipo de acesso. Pé por pé arrastou-se até a frente do espelho e mesmo antes de chegar lá, teve como intuito levar a mão a barriga, ali fez a constatação final, nem precisaria do espelho. Era o seu corpo, sua vida, seu enjoo, e o pequeno calombo que formava-se em sua barriga deixava claro o sinal do havia acontecido.

Em frente ao espelho parou, analisou-se, tal qual as mulheres sensíveis sempre fazem. Achou-se feia, tal qual as mulheres fazem. Achou-se gorda, tal qual as mulheres sempre fazem. A constatação estava feita. Assim que levantou um pouco a blusa do pijama e viu que de fato, aquele calombo resumia-se a sua barriga.

Voltou à cama, alguma coisa precisava ser feita. Sentou-se mais uma vez. Procurou o celular que deveria estar em algum lugar em meio às cobertas. Revirou a cama e o achou embaixo do travesseiro. Segurou o aparelho na mão e antes de abri-lo. Pensou no que faria, para quem ligaria. Um médico!, claro, um médico era o ideal. Precisava de uma consulta com um especialista, mas antes era necessário ligar para o seu namorado, afinal a culpa era dele. Ele fora o responsável por aquilo.

Ligou para ele, o namorado, o grande culpado. Ele que insistira em fazer aquilo que ela não queria e sempre havia dito a ele. O telefone chamou uma, duas, três vezes e ele atendeu:

- Oi Lígia. Como tu está meu amor?
- Olha aqui, Carlos Alberto, e nunca mais, ouviu bem, nunca mais volto a comer esses malditos bolinhos de batata que a tua mãe faz.