segunda-feira, 26 de outubro de 2009
De Nelson Rodrigues à terapia
Nunes distraído que era, se quer destinou um único e isolado olhar à Marta, que nem de longe era uma mulher dispensável, pelo contrário, exibia com benevolência as coxas torneadas, do alto de seu metro e setenta e cinco e meio, pois sempre fazia questão de frisar o “e meio”. Ela ali ficou, ladeando o rapaz, e lançando olhares que se transformaram de míseros olhares de soslaio, a secadas usurpadoras, cuja intenção se dava claramente àquele homem baixinho, de poucos cabelos e ainda assim despenteados, usando óculos largos e um leve ar de intelectual.
Nunes percebeu, assim que terminou a leitura do terceiro capítulo do livro que empunhava, que aquela mulher, que nem em sonhos não desejou, estava lhe encarando. “Talvez eu deva pedir se devo-lhe algo”, pensou, pessimista que era o Nunes. Não que de fato fosse areia suficiente para o caminhão de Marta, porém, quem entende as mulheres? E foi aí que uma ideia lhe veio à mente. Olhou a capa do livro que estava agora devolvendo à prateleira; “As mulheres gostam de apanhar”, pensou. Debruçou seu olhar de esguelha à Marta, que ainda o encarava tal qual o estivesse despindo ali mesmo. Nunes, antes de guardar o livro apontou para a capa do mesmo, e certificando-se que Marta ainda o mirava, a encarou e levantou levemente as sobrancelhas, como quem diz: “topas”?
Pé por pé veio Marta, debruçando-se sobre Nunes que estava sentado ali, em frente a estante dos contos/ crônicas. Marta enfiou-lhe o decote na face e quando Nunes quase estava asfixiado, ela perguntou:
- Então tu gosta de bater em mulher, não é?
Nunes viu aí a sua possibilidade de conquistar de fato a sem-vergonha. No papo Nunes era um garanhão incontrolável, ali ele comandava. Da forma mais charmosa que conseguiu, respondeu:
- Há situações em que o controle precisa ser rígido.
- E quais são elas?
- Quem me diz é você – Nunes mantinha o tom de voz mais alto que o de Marta, e engrossava a voz a cada sílaba pronunciada.
- E o que eu poderia dizer? - ela perguntou.
- Me peça para agir. - manifestou-se Nunes, sem pigarrear.
- Pois, aja.
Nunes pegou a bela morena pelo braço, com força, quase que arrastando-a pelo salão da livraria, afinal, era hora de mostrar o quão másculo ele era. Foi quando Marta lhe proferiu a frase que desde então assola os pensamentos de Nunes, os pensamentos e algo mais do nobre homem:
- Gosto de masoquismo, mas quem gosta de bater tem que gostar de sentir dor, topas? - ela sugeriu.
Nunes que nunca havia estado com uma mulher tão mulher, ou com um par de coxas tão par de coxas, ou ainda um com seios tão decotados, respondeu:
- Topo, por que não. ( sem alusões)
- Pois então me espere um minuto, que já volto.
Marta foi ao banheiro e Nunes aproveitou para deslisar pela livraria, contente e faceirinho, eis que resolveu analisar a prateleira de livros que Marta degustava antes de o encarar, e foi aí que tudo ficou claro e, ao final tudo escureceu. Nunes pegou na mão o exemplar que vira Marta devolvendo à estante, que com muita atenção reparou nas escritas: “GLS”, em seu topo. O livro, de capa ilustrada e colorida exibia como título: “Travestis bem dotados, também são mulheres”.
Nelson Rodrigues não habita mais a cabeceira da cama do Nunes, agora o carioca dá espaço a diversos livros de auto-ajuda ou de meditação, cujos títulos variam de: “Esqueça dores do passado” à “Medite para que a dor passe”. Tendo ainda espaço para anatomia, cujos títulos de origem retais não vem ao caso no momento.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Infância
Escrevi um parágrafo de uma redação que não sei, mais uma vez, onde vai dar, mas tenho certeza que uns dirão: “ih, bobagens nostálgicas do Ricardo”, e não deixam de ter razão. Não costumo escrever de mim, ou para mim, porém, quando faço, parece que sempre tento lembrar do passado, algo bom que me aconteceu. Não que o presente não seja bom, mas o passado é sempre melhor. Caso contrário não contaríamos histórias aos nossos amigos, e quando transássemos com aquela mulher linda, tão cobiçada por todo o grupo, não contaríamos, afinal, o presente seria mais importante.
O tempo veio passando mas as minhas histórias de guri não se apagaram de minha mente, e uma delas tentarei transmitir aqui, com a pouca capacidade que possuo.
Era verão...ou primavera... o que não vem ao caso, por que ainda há a possibilidade de que fosse outono, o que elimina de vez o inverno da minha listinha. O que interessa por hora, é que estava eu, belo e formoso, ou nem tão belo e nem tão formoso, uma vez que sempre tive esse rostinho desgraçado e sempre tive a estrutura corpórea de uma avestruz anoréxica, porém, estava lá, sentadinho na casa onde morava, morava não moro mais, e pensei (também pensava naquela época),e resolvi: “Vou passear”.
Como eu era independente, tomava atitudes sem consultar minha mãe, que por sua vez estava trabalhando. Era o dono do campinho, que por vezes eu chamava de casa. Saí. Rumei ao desconhecido, entrei em uma trilha sinuosa e ladeada por penhascos tão íngremes que um simples passo errado seria o meu fim. Segui firme por aqueles lados, até encontrar um rio, de onde peixes e sereias me olhavam, tal qual meus amigos de infância. Vivi aventuras, fiz amizades com elfos, gnomos. Isso tudo sem em momento nenhum ter usado qualquer tipo de drogas. E no fina, virei um príncipe e vivi feliz para sempre.
É claro que essa história é fictícia e nada disso aconteceu de fato, mas isso serve para comprovar que mesmo não sendo mais criança, ainda posso sonhar, posso brincar, por mais mangolão que isso seja. E minha imaginação, ah minha imaginação!
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Patrícia, a ladra de corações
Sentia-se tentado toda e qualquer vez que ela passasse por ele. Fosse o cheiro suave como flor do campo, fosse a cintura a qual podia agarrar com uma só mão. Quem sabe fosse o cabelo que com ou sem vento, por mágica esvoaçava. Sabe-se que de fato ela lhe tirava o folego, a atenção, excitava-lhe e em uma ocasião quase tomara-lhe a família.
Era assim a Patrícia, que todos sabiam ser uma ladra de corações e derrubadora de lares, mas Claudinei pensou: “Ah não!, Comigo não”. Pensou errado o Claudinei, e o pessoal da empresa todo parou quando ela foi até a sala dele.
Claudinei era novo na empresa, havia duas semanas tinha começado, pois já sabia bem da fama da Patrícia. Patrícia foi levar um café até ele e o tempo parou, tal qual seu queixo onde a baba quase escorria. Ele sabia, sim, sabia que ela era arisca, mas não sabia que um contato direto com aquela mulher poderia o perturbar tanto: “uma ladra de corações”, logo resumiu. Esboçou uma conversa, porém, a voz embargou e ele ficou ali, estaqueado, tentando por força destravar a fala. Não conseguiu.
Patrícia saiu da sala, ele demorou alguns minutos para voltar ao normal.
Nas duas semanas seguintes, Claudinei ensaiava conversas com Patrícia, coisa que até então não havia acontecido. A moça aproximava-se e como por um feitiço, ele travava, era batata. Certa feita, ele a enxergou cruzando o corredor, suave como o vento, vinha se aproximando cada vez mais, ele suava. Ela andava, ele suava, ela andava, ele suava. Ela entrou, ele engasgou:
- Olá seu Claudinei, o senhor está passando bem?
- C...cla..claro, claro. Per...per...perfeitamente bem.
- Ainda bem, o senhor me parece tão jovem e tão saudável, que me sentiria tão mal se algo lhe acontece. Acho que o senhor ainda tem muito pique.
- Pi...pique, claro, tenho sim.
- Gostaria de testar.
- Testar c...c...c...como?
- Sexo.
A vista de Claudeinei escureceu, e ele só recobrou os sentidos quando estava em cima de mesa de sua sala, com dezenas de pessoas ao seu redor, abanando-lhe, e prestando os primeiros socorros. A primeira coisa que viu quando acordou, foi Patrícia com o decote bem acima do seus olhos, assoprando-lhe o rosto.
Claudinei pediu transferência da sua empresa, foi para outra cidade dizendo apenas a frase: “Minha família não”.
Chegou na empresa e não sabe por que, mas quando a via sentia-se tentado toda e qualquer vez que ela passasse por ele. Fosse o cheiro suave como flor do campo, fosse a cintura a qual podia agarrar com uma só mão. Quem sabe fosse o cabelo que com ou sem vento, por mágica esvoaçava. Sabe-se que de fato ela lhe tirava o folego, a atenção, excitava-lhe e em uma ocasião quase tomara-lhe a família.
Quando ela entrou na sua sala, ele pareceu conhecer aquela voz:
- Seu Claudinei, minha irmã, Patrícia me falou muito bem do senhor.
Claudinei se aposentou por invalidez, após o segundo infarto em menos de duas semanas.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Acabe com o mundo você também
Se eu pensar, coisa que ainda faço, é simples comparar situações e estabelecer um critério único. Ninguém faz o que tem de ser feito, hoje em dia. Não que só os jovens sejam nulos, mas a atualidade também é. Digo, é possível que não se retrate em livros de história que um presidente semi analfabeto pudesse ser um fhürer, ou coisa parecida. Claro, que não nos faz falta um ditador tal qual Hitler, mas é difícil imaginar que Lula bradasse para uma multidão ensandecida, com seus quatro dedos ao ar, gritos que a convocassem para um guerra iminente e prevalecida, e o pior, fazer essa multidão acreditar que a guerra era por um bom motivo. Imagino (ou tento imaginar), Lula, com seu português rebuscado, gritando a plenos pulmões.
Claro, é melhor não imaginarmos uma nova ditadura, uma vez que caso houvesse, não teríamos força para tirar do poder aqueles que lá estariam. Dúvida? Pense. Há alguns anos, cerca de 40, houve força jovem suficiente, senão para deter um governo ditatorial, para opor-se a ele, e aposto o que quiserem comigo, que a juventude atual não faria igual, ah não faria. É provável, claro, que em um duelo de vídeo game, ganhássemos com uma significativa vantagem, porém, política, não é o nosso forte.
Bem verdade que a política atual não nos gera interesse, a menos que se queira cultivar bastas e sedosas bigodeiras, para gerar, além de revolta em toda a comunidade (não só pelo bigode), um cargo vitalício na presidência do Senado Federal, que por mais maculado que seja, ainda assim continua límpido e cristalino aos olhos de quem manda.
Como que desatinadamente, me vem à mente mais alguns resquícios do que aprendi na escola, e penso nas mais estonteantes invenções ou atos solenes. Seria possível que um de nós (se inclua nessa), ganhasse um Nobel da Paz, por levantar-se perante à atrocidades sem o uso de uma arma sequer? Refiro-me ao que nos passado fez Mahatma Gandhi. Confesso que não sei da história dele o que de fato gostaria de saber, mas o mínimo que sei, me faz afirmar que não, nenhum de nós faria igual. Ao passo que a maior revolução que faremos é para os nossos filhos, ou seja, acabar com a água no mundo, quiçá, com um pouco de sorte acabaremos inclusive com o mundo.
Isso, achei a solução mais fácil para todo o nosso problema de impotência, que não confunde-se com a sexual, uma vez que quanto a isso, nós jovens temos fôlego suficiente, mas sim nossa impotência perante ao que deve ser feito pelo mundo. Não faremos o que se deve. e na minha solução proponho que acabemos com o mundo propositalmente. Explico minha teoria da salvação da tal forma: ao compasso que andam a coisa, de clara regressão, se nós não conseguirmos destruir o mundo, gerações futuras o farão, e tomarão os nossos méritos. Caso consigamos acabar com todo um planeta, aí sim, pode anotar, caso haja vida inteligente em outros planetas, dentro de alguns anos, estaremos todos, sem exceção, nos livros de história.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
A chinchila do mal
Trabalhei uma época da minha vida, em uma criação de chinchila. E foi lá que me encontrei com o satã de pelo macio e carinha de coelho. Nunca na minha vida fui tão ridicularizado por alguém, o “Mal” (como a chamarei agora) fez de mim gato e sapato.
Era uma manhã nublada, eu alimentava solitário os mais de três mil roedores que ciciavam seus dentinhos na saborosa ração que lhes oferecia. Todos estavam fagueiras, animadas com a ceia do dia. Uma não. Cabe aqui a repetição da frase: Uma não!
Passei por ela, e vi nos seus olhos o ódio, ela carregava naqueles olinhos arregalados, tanta raiva quanto uma chinchila pode carregar. Tudo começou quando eu lhe entreguei inocentemente sua porção de ração do dia, em seguida à olhei, contemplando a reação de felicidade que deveria brotar naquele focinho peludo. Não brotou,ao contrário, a partir daquele momento meu martírio começou.
Sabe-se lá como, a maldita desvencilhou-se das grades que a separavam do mundo, sorrateira que era, me tomou muito esforço. Por horas eu à persegui, desesperado, afinal o animal sozinho me custaria um mês de salário. Corri em círculos por pouco mais de meia hora, quando ela desapareceu. O Mal.
Atônito eu continuava as buscas que julgava inúteis, uma vez que meu fracasso era quase um fato consumado, ficaria sem a chinchila, sem salário, mas minha dignidade aquele monstro não tomaria de mim, não me entregaria sem lutar.
A manhã passou, a tarde se fez e depois da tarde, a noite, a madrugada adentrou e eu ali, de tocaia, o animal não ia vencer assim. Estava atento a qualquer movimento, um simples balançar de papel me ressaltaria e dessa forma o Mal não triunfaria. O sono veio, e tal qual o Mal me venceu.
Acordei, segunda-feira, quando minha colega, que trabalhava coincidentemente em segundas-feiras, me cutucou com a ponta do sapato. - Que tu estás fazendo atirado aí? – perguntou-me - Esperando o Mal chegar – lhe respondi.
- Muito bem, se tu estás drogado, pouco me interessa, o fato é que achei essa chinchila esperando ao lado da porta quando cheguei, sabe me dizer por que não a capturou? Olha a carinha de assustada dela, coitadinha.
Aquela cena não me sai da memória, olhei o animal, procurei o olhar da coitadinha, mas não encontrei, naqueles olhos castanhos, só existia o mal.
sábado, 8 de agosto de 2009
A incrível história da arma imaginária
Senão, vejamos: Uma americana, após roubar um automóvel, pôs-se a continuar sua saga legionária e adentrar à uma loja anunciando estar armada. Até ai tudo bem. Os planos da americana foram frustados ao flagrarem o figurino utilizado pela suposta ladra, para efetuar o crime:um biquine.
Após os vendedores da loja alegarem que a moça não apresentava espaço reservado onde coubesse um arma, ela foi presa. Pergunto-me então, o que ela teria dito após questionarem onde ela escondia a arma. Alguma situações me vem a mente.
Situação 1:
- Você não tem onde esconder uma arma – diz o vendedor
A moça o olha, atônita que está, tem pouco tempo para dar-lhe uma resposta convincente, ou isso ou vai presa. Após alguns segundo de silêncio ela grita:
- Tu não conhece a minha vulva! Tu não conhece a minha vulva!
Ainda que a resposta seja espirituosa e a moça não seja completamente desprezível, é pouco provável que algum vivente ousasse procurar a “arma” do crime.
Situação 2:
-Eu to com a arma na mão, mas só os inteligentes podem ver.
Na pior das hipóteses ela seria detida e encaminhada a um hospital próprio destinado a doentes mentais.
Caberia um dia, ou uma tarde para analisar mais algumas possibilidades, contudo, todas as analises me fazem chegar ao ponto que citei antes, os macacos, se já não nos passaram no raciocínio, estão muito próximos, muito próximos.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Querida história, perdoai-nos
Tem-se uma sensação de estranha nostalgia quando cruza-se a ponte imperial, talvez a minha imaginação, que quando pouca pode ser chamada de fértil, transpassa o cotidiano e remeta-me ao passado. Imaginei-me, acenando ao imperador que cruzava a ponte, conduzido em uma carruagem imperial, afinal, imperadores usam carruagens imperiais, suponho, do decorrer de séculos passados.
Conheci ruas estreitas, que não fossem os carros, todos os malditos carros que as habitavam e circulavam tal qual imponentes carruagens imperiais, eu diria que voltei ao século XVIII, mas não voltei. E essa nostalgia inexplicável, de algo que eu não vivi é que me chama a atenção, mais adiante à explicarei.
Não que Pelotas seja um exemplo de civilização, não é. Mas não pela história que a circunda, sim pelo desinteresse com que aquilo tudo é tratado. Não só pelo poder público, como também pela população. Levantaria o dedo, se pudesse, e um protesto pela história, em nome da história, apoiado pela história, diria: “Que encerrem aqui as pichações”!
Não cabe a mim, que nada sou, tomar medidas de protesto. Não conheço aquela realidade, quicá haja até motivo para as pichações, embora não acredite nisso. O que alego, é que talvez, a nostalgia que senti, é a dos tempos melhores, dos tempos que não vivi, é claro, mas se os tivesse vivido, teria gostado, e como teria.
O passado me conforta, talvez não pelo que de fato aconteceu, mas me parece que tudo o que passou é sempre melhor. É instintivo do ser humano pensar que tudo o que aconteceu poderia ter sido melhor, e é nisso que penso, se tivesse vivido em mil oitocentos e alguma coisa, teria sido o imperador? É provável que não. Nasci num tempo diferente, o que faz de mim, parte de uma nova geração. Sou da geração que não viveu a história. Da geração que em sua maioria desconhece a história. E o pior de tudo, sou da geração que depreda e história.
Constrangimento, é o que me resta. Peço perdão àqueles que viveram naqueles tempos. Peço perdão aos que tentaram manter a história viva até hoje. Desculpem-me, em nome da minha geração desavergonhada.